Estádio da confusão

O anúncio pela empresa responsável pelo estádio Olímpico de Londres de que, após os Jogos de 2012, o estádio será administrado pelo West Ham levantou algumas questões que, para os não-ingleses, têm mais de curioso do que de polêmico. Para quem não acompanhou, o estádio, na região leste da cidade, terá seus direitos cedidos aos Hammers por 150 anos. Para isso, serão concedidos empréstimos ao clube para que ele possa adaptar o estádio ao futebol. O que pode não funcionar muito bem.
A primeira grande controvérsia da escolha se refere à pista de atletismo que há no local, e que os Hammers se comprometem a manter intacta. Aliás, há uma controvérsia anterior a essa: o estádio deveria ser concedido a um clube de futebol? Poucos se aventuram a dizer que não, já que um estádio de atletismo teria pouquíssimo uso para a cidade, e alguém teria que arcar com seu custo.
A questão da pista de atletismo é relevante desde o início do processo, mas se tornou ainda mais porque o rival do West Ham na briga para ficar com o estádio, o Tottenham, propunha sua eliminação completa – além de uma série de outras mudanças que praticamente reconstruiriam a arena. O que o clube do norte londrino alegava era que a pista deixaria os espectadores longe do campo, e acabaria por atrapalhar a “atmosfera”. Acredite: nnao são poucos os que concordam com esse argumento.
Não consigo dizer de cabeça quais são os estádios brasileiros com pistas de atletismo, mas, salvo engano, a maioria dos estádios grandes tem um espaço razoável entre arquibancada e campo. Qualquer um que tenha assistido jogos no Pacaembu e no Morumbi pode atestar que o estádio público oferece atmosfera de jogo muito melhor que o frio campo tricolor. Esta questão, entretanto, pouco surge por aqui. Para os ingleses, entretanto, ela é fundamental. E não só apra eles.
Um bom exemplo é o caso do Espanyol, de Barcelona, que o Gustavo Hofman me mandou essa semana. A equipe herdou o estádio dos Jogos de 1992, e atuou em Montjuic por mais de uma década antes de optar por construir uma nova arena. O campo passava a maior parte do tempo semi-vazio. Os culpados: era longe, frio e o campo ficava longe da arquibancada. Matéria da FFT inglesa mostra que, desde que mudou de casa, o Espanyol tem vendido cerca de 7 mil carnês a mais.
O “longe” dos europeus pode ser engraçado para nós brasileiros. Montjuic, onde ficava o estádio olímpico, está a poucos quilômetros das Ramblas, ponto mais agitado de Barcelona. Está, é verdade, em uma pequena elevação, um morro, mas o transporte para a região é fácil. Até por isso é difícil dizer se o estádio Olímpico de Londres poderá ser considerado “longe” pelos torcedores dos Hammers. Uma olhada no mapa desautoriza o pensamento: ambos estão na mesma região londrina, separados por poucos quilômetros. Ainda assim, há uma caminhada de pouco mais de meia hora entre eles.
Se é longe para os torcedores do West Ham, certamente seria muito mais para os dos Spurs. A direção do time, entretanto, alegava que conseguiria encher o estádio, e que a torcida do West Ham não será suficiente para isso. Sua própria torcida, entretanto, não parecia muito animada com a possibilidade, e o parlamentar da região de Tottenham ameaçou o clube com um processo para obrigá-lo a mudar de nome caso a mudança acontecesse. Geograficamente falando, que mais sofrerá com a concessão aos Hammers é o Leyton Orient, clube que ontem arrancou um empate diante do Arsenal pela FA Cup.
Não há dúvida de que o clube, hoje na terceira divisão inglesa, é o mais próximo do novo estádio. Sua direção não pretendia ocupá-lo, e nem poderia pretendê-lo, mas considera que a mudança de um time maior para o seu pedaço acabará com o clube. E pretende acionar o governo para impedir que isso aconteça.
Discussões de um nível de cidadania inimaginável para nós brasileiros, de gente preocupada com a sua comunidade e com o seu time de futebol em todos os aspectos. Muito barulho por nada? Talvez, para quem não concorda com a tese de Bill Shankly de que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso.
Para além dos aspectos locais e culturais, entretanto, convém não esquecer que há também um aspecto econômico envolvido. O Tottenham considerou a hipótese de mudar de endereço porque seria muito mais barato reconstruir o estádio olímpico do que construir seu novo estádio. Da mesma forma, os Hammers não teriam dinheiro para fazê-lo. É isso que contestam alguns. Com base no exemplo do Manchester City.
Os mancunianos jogam hoje no City of Manchester Stadium, construído para os jogos da Comunidade Britânica de 2002. Os Citizens antes jogavam em Maine Road, com capacidade de pelo menos 10 mil lugares a menos. É claro que não é somente o estádio, mas, desde 2003, quando se mudou para lá, a equipe foi vendida duas vezes a milionários.
Entram em cena, então, os donos do West Ham, e ex-donos do Birmingham, David Gold e David Sullivan. Ambos ficaram ricos no próspero e respeitável ramo da pornografia. Compraram o Birmingham City no começo da década de 90 e, sem fazer do clube exatamente um sucesso, venderam-no pouco mais de dez anos depois. Nunca houve qualquer tipo de dúvida de que o objetivo de ambos no West Ham é aumentar o preço e vender de novo. De onde se coloca a pergunta: é justo colocar dinheiro público em um estádio construído com dinheiro público e entregá-lo para uma empresa privada que será valorizada com isso?



