Inglaterra

Especialista em dependência no Reino Unido alerta para vício em videogame entre jogadores de futebol

Um efeito adverso curioso da pandemia de Coronavírus e dos confinamentos subsequentes está afetando jogadores de futebol: o vício em videogames. Ousmane Dembélé ganhou as manchetes recentemente por ter se atrasado para um dos treinos do Barcelona por ficar até tarde da noite jogando, e o caso do francês está longe de ser isolado. Pelo menos é o que diz Steve Pope, um dos principais especialistas em dependência no Reino Unido.

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Pope tem atendido jogadores com problemas de vício em videogames e afirma que, em meio à atual segunda onda de Coronavírus no país, seu número de clientes triplicou em relação à primeira onda, entre março e junho, para 15 atletas profissionais e 30 semiprofissionais.

“Está saindo fora de controle. O número de jogadores vindo até mim triplicou desde o primeiro lockdown. Quando o futebol parou e os jogadores não tinham mais nada para fazer, os videogames se tornaram ainda mais atrativos. Agora, mesmo que os treinos e os jogos tenham voltado, isso ainda é um problema porque os jogadores não largaram a jogatina para trás, no primeiro lockdown, quando isso estava em plena agitação”, contou Pope ao Daily Mail.

O psicoterapeuta afirma que o vício em games é uma “epidemia silenciosa” que não recebe a atenção que deveria. Em atletas, haveria, segundo ele, uma predisposição importante à dependência. “Os jogadores de futebol têm personalidade obsessivas e têm mais tempo à disposição para jogar do que outras pessoas. É mentalmente destrutivo”, apontou Pope.

O especialista afirmou estar atualmente tratando um jogador das divisões inferiores da Inglaterra que, recentemente, teve um jogo cancelado em um sábado, começou a jogar videogames na noite de sexta-feira e só foi parar quando teve que voltar aos treinamentos de seu clube, em uma segunda-feira. “Mas não pensem que jogadores da Premier League estão imunes. Eles viajam muito, ficam em quartos de hotel e têm tempo para preencher”, alertou o psicoterapeuta.

Além de Pope, o Daily Mail conversou com Alex Mills, chefe de educação na Sporting Chance, uma instituição de saúde mental para atletas criada pelo ex-jogador do Arsenal Tony Adams. A instituição trabalha em conjunto com clubes, e Mills afirmou que o número de palestras sobre vício em videogames cresceu nos últimos anos, com uma preocupação cada vez maior em relação ao problema sobretudo em categorias de base.

“As comissões técnicas têm visto os jogadores falando mais sobre isso (games). Nas sessões, os jogadores falam abertamente sobre passarem noites jogando com bastante frequência. São sinais iniciais leves de um comportamento potencialmente problemático. Especialmente nas categorias de base, isso foi de algo que não discutíamos cinco anos atrás para, junto do vício em apostas, nossa principal área de ação, o que é uma mudança significativa”, revelou Mills.

Em seu tempo livre, cada vez mais jogadores, mesmo de elite, estão dedicando parte de seu lazer aos videogames, e o crescimento de popularidade de jogos online com uma cultura de transmissões ao vivo tem tornado isso bastante público: Agüero tem um canal no Twitch em que costuma jogar, entre outros games, Fifa e Fall Guys, enquanto Neymar é outro que apareceu na plataforma tradicional de transmissão de sessões de jogos, viralizando recentemente com vídeos em que joga a febre Among Us.

O vício em videogames, como apontado por Steve Pope, de fato não recebe a mesma atenção que outras dependências, mas já é listado como um problema de saúde mental desde 2018 pela Organização Mundial da Saúde. No Reino Unido, o Serviço Nacional de Saúde criou um centro para o tratamento de distúrbios relacionados aos jogos em pacientes de 13 a 25 anos de idade.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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