Era uma vez um quadruple

Não faz três semanas que a torcida do Arsenal comemorava a suposta boa fase do time e falava em ganhar quatro títulos na temporada. Ignorava, claro, alguns fatos estridentes sobre o desempenho do time nas quatro competições. Fantasiava, também, é evidente. E dois domingos depois, o quádruplo virou uma briga por um título só.
Se discutíssemos a questão no dia 27 de fevereiro, o observador atento dificilmente levaria a sério a possibilidade dos Gunners serem bem sucedidos em todas as competições que disputavam. Primeiro pela improbabilidade meramente estatística. Depois porque o clube tem um histórico de lesões de jogadores importantes. Finalmente, pela dificuldade de pelo menos dois confrontos eliminatórios: o das Liga dos Campeões e o da FA Cup.
Fato incontestável, mas também o é que o Arsenal ganhou do Barcelona na partida de ida. E que o Man Utd colocou em campo um time com sete defensores e, mesmo assim, a partida terminou 2 a 0 para os Devils. O mais incontestável, entretanto, é o quanto foi vergonhosa a derrota na final da League Cup. Não custa lembrar que o Birmingham City, time que bateu os Gunners, é o último colocado entre os que hoje não cairia na Premier League.
O Arsenal perdeu do Birmingham porque achou que ganharia o jogo a qualquer momento. Perdeu do Barcelona porque quis ser uma versão da Inter do ano passado, o que não poderia estar mais distante de seu estilo recente de jogo. E perdeu do United porque, mesmo tendo estatura e dinheiro para competir com os Red Devils, seu treinador prever continuar contando com jogadores de talento discutível, que custem pouco.
Discutimos o assunto aqui há duas colunas: o Liverpool gastou uma fortuna em Carrol, que não é tudo isso. O Tottenham, entretanto, não gastou, mas ficou sem atacante. Qual é a melhor alternativa? Se é possível ter dúvidas no caso do Tottenham, que é rico, mas não tanto, ou do Liverpool, que precisa de um tempo para a re-reconstrução, a torcida do Arsenal não deve ter nenhuma hesitação: quer ganhar já, e para ganhar já na Premier League é necessário gastar.
E gastar bem, também, diga-se. Wenger ficou famoso por não gastar, mas Reyes, Walcott e Arshavin não foram baratos. O fraco Koscielny custou 11 mi de libras, mesmo valor que o Man City pagou pro Boateng, destaque da Copa do Mundo (tudo bem que o cara ainda não jogou, é verdade).
Desde 2005 a torcida Gunner aguarda um novo título. Desde então, o Chelsea surgiu como força, o Liverpool se reergue e até o Tottenham ganhou uma Copa da Liga – para não falar no Man City, que não ganhou nada mas tem dinheiro, e agora incomoda. Tudo será esquecido se o Arsenal ganhar a Liga, o que não é impossível, e, aliás, está inteiramente em suas mãos. A sustentabilidade do atual modelo, entretanto, está em xeque. O clube tem dinheiro, tradição, talento e técnico. Só que Wenger parece estar precisando de um “chacoalho”. Que não seja a perda de mais um título que estava ao alcance.



