Inglaterra

Empresário brasileiro comprou o Morecambe, da 4ª divisão inglesa, não pagou e desapareceu

Ter o clube comprado por um milionário se tornou uma espécie de fetiche de alguns torcedores na Inglaterra. Casos de sucesso como Chelsea e Manchester City inspiram esperança em torcedores que veem seus times tentarem brigar contra times muito mais tradicionais e ricos. Só que muitas vezes, o sonho vira pesadelo. É o caso do Morecambe, clube da quarta divisão inglesa. O primeiro clube inglês a ter um brasileiro como dono não recebeu o investimento prometido, briga contra o rebaixamento na quarta divisão e, pior, não consegue falar com o seu dono, que desapareceu desde novembro.

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Em setembro de 2016 o Morecambe se tornou notícia em alguns veículos brasileiros por ser o primeiro clube inglês a ter um dono brasileiro: Diego Lemos. Tudo apontava para ser algo positivo. Diego tem um passado de futebol no sangue. Ele é filho de Lusinho Tombo, artilheiro do Campeonato Carioca duas vezes pelo América e que jogou com Zico (bem no começo da carreira do Galinho, é verdade, porque ele ficou na Gávea entre 1975 e 1977). Conquistou a artilharia do Carioca em 1974 e 1983, em duas das suas passagens pelo Mequinha.

Além do pai, Diego Lemos tem outros parentes jogadores de futebol. Um dos seus tios, Caio Cambalhota, chegou a jogar no Flamengo em três passagens, além de Botafogo, América do Rio e uma série de outros clubes. Outro tio seu fez muito sucesso no futebol de São Paulo: César Maluco, que marcou época jogando com a camisa do Palmeiras.

Com todo esse histórico no futebol, claro que a chegada de Diego Lemos deu esperança ao Morecambe, clube da região de Lancashire, no noroeste da Inglaterra. O clube é antigo, foi fundado em 1920, mas só chegou à Football League – que reúne da segunda à quarta divisão – em 2007. Foi nesse clube que Diego Lemos chegou em setembro, comprando a maioria das ações do ex-acionita majoritário, Peter McGuilan, que continuou como presidente da instituição.

Mas precisamos voltar ao pai de Diego Lemos, no passado, antes de falar do presente. Luisinho Tombo, pai de Diego, jogou até 1994. No final da carreira, jogou em três clubes do Catar. É neste local que Diego Lemos, seu filho, passou a trabalhar como empresário de futebol anos depois. E chegou falando em subir de divisões, fazendo com que o antigo dono, Peter McGuilan, afirmar que o acordo “garante a viabilidade financeira do time a longo prazo”. Bom, o castelo de cartas não demorou a desmoronar.

Setembro foi o mês da esperança. Mas em outubro as coisas começaram a se complicar. Os salários dos jogadores ficaram atrasados, o que causou um embargo de transferências ao clube. Um clube com um novo dono que iria colocar dinheiro no clube com problemas financeiros? Pois é. As coisas parecem estranhas. Mas em entrevista à rádio BBC, o antigo dono e atual presidente McGuilan revelou que os problemas, na verdade, começaram antes disso.

Segundo McGuilan, Diego Lemos só pagou uma parte do dinheiro para comprar as suas ações do clube. E foi uma parte pequena. O apoio financeiro do time não está vindo do bolso do dono brasileiro, mas de bancos. Diego Lemos não aparece ou sequer dá notícias ao clube desde 17 de novembro. Durante o período, quando questionado, o clube chegou a dizer que a comunicação com o brasileiro “estava difícil”. Um bom eufemismo para dizer “não temos a menor ideia de onde ele está”. A suspeita, ao menos era essa e foi confirmada em dezembro, quando o clube se viu obrigado a dar explicações.

A crise financeira fez com que um dos diretores, Abdulrahman AL-Hashemi, pedisse demissão em novembro, oito dias depois do dono do clube desaparecer, no dia 17 de novembro. Foi o dia que Diego Lemos deixou o país. Nunca mais voltou. Dois diretores pediram demissão. Um deles saiu dizendo que o Morecambe e ele foram “seriamente enganados”.

Diante deste cenário, uma das primeiros e justos questionamentos feitos é: como é que a liga permite que um clube seja vendido para alguém capaz disso? É algo a ser debatido, até porque a Inglaterra é um lugar conhecido por abrigar milionários com dinheiro de origem duvidosa (eu ouvi falar em Boris Berezovsky, alguém?).

Só que há um controle mínimo na Football League (que administra da segunda à quarta divisão) que funciona assim: todos que querem comprar a partir de 30% das ações de um clube devem fornecer garantias financeiras, além de provas sobre de onde vem o dinheiro. Ninguém pode assumir um cargo na diretoria de clubes se foi condenado criminalmente por fraude ou se está suspenso de alguma outra profissão. Ou seja: é preciso passar por um controle financeiro que é feito pela Football League, baseado já em experiências passadas que se viu ao longo dos últimos 20 anos.

Nada disso impediu que a situação do Morecambe chegasse ao ponto caótico que está. O mais maluco é que Ali Abdulrahman Al Hashemi está ajudando no dia a dia do clube, não apenas com seu trabalho, mas também com dinheiro. Já são oito semanas sem notícias sobre o seu dono brasileiro, que desapareceu.

“O diretor está ciente de tudo e estão estupefatos sobre o que aconteceu”, afirmou McGuilan em entrevista à BBC. “Esta é uma questão privada que não podemos tratar em público. O que podemos falar em público é que ele não colocou um centavo no clube”, revelou o dirigente. “Não há esperança, na minha opinião, de qualquer dinheiro entrar e nós teremos que cuidar disso nós mesmos”.

O repórter da BBC perguntou se McGuilan, que foi quem vendeu as ações do clube a Diego Lemos, se arrepende. “Sim, provavelmente 30 vezes por dia. Quando se trata do que aconteceu, ninguém poderia ter feito nada diferente, posso te assegurar isso”, declarou McGuilan. A reportagem da BBC tentou entrar em contar com Diego Lemos diversas vezes desde novembro e não recebeu resposta.

Enquanto isso, o Morecambe é o 17º colocado na League Two, que tem 24 equipes. É o segundo pior time da liga em média de público, apenas 3.373 pessoas por partida, melhor apenas que o Accrington Stanley – que é o 20º colocado. A preocupação é justamente que o time sofra mais, ainda ameaçado pelo rebaixamento depois de 24 jogos.

Nós aqui abrimos o espaço para que Diego Lemos esclareça a situação, se quiser. O espaço está aberto. O que estamos vendo é um clube sofrendo na quarta divisão e um dono que não parece ligar para o clube que – supostamente – comprou. Uma história triste que infelizmente não é uma novidade no futebol inglês.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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