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Em texto para o Player’s Tribune, Odegaard detalha sua jornada, do menino-prodígio às dúvidas – e ao Arsenal

O garoto-prodígio que ganhou as manchetes ainda adolescente precisou de uns anos para se desenvolver, encontrar o seu melhor futebol e uma casa onde se sentisse confortável

Martin Odegaard jura que não está falando isso apenas por falar, mas sempre teve uma conexão com o Arsenal. Ela vinha do videogame. A criança que cresceu na Noruega gostava de jogar o modo carreira do Fifa e sempre escolhia brincar de Arsène Wenger. Então, quando estava à deriva na Espanha, sem conseguir fixar residência em um clube, não dava para abrir mão da oportunidade de ser jogador dos Gunners, que lhe deram uma casa, estabilidade, plataforma para se desenvolver e, agora, a chance de brigar pelo título do Campeonato Inglês.

Odegaard escreveu um texto para o Player’s Tribune entrando em detalhes sobre a sua jornada. É uma das mais extraordinárias porque ele começou a chamar a atenção quando ainda era um adolescente de 15 anos – nossa primeira nota sobre ele, em julho de 2014, dizia: “Você precisa ver o que esse garoto de 15 anos já faz entre os profissionais no Norueguesão”. O hype foi tamanho que ele estreou na seleção norueguesa com 15 anos e pouco depois chegou ao Real Madrid.

Naturalmente, houve obstáculos no meio do caminho. Problemas de adaptação a um clube tão grande, dificuldades de encontrar espaço no time titular e uma série de empréstimos, até chegar ao Arsenal, temporariamente em um primeiro momento, antes de finalmente se estabelecer em um dos grandes clubes da Inglaterra e da Europa. E tudo isso aconteceu mais ou menos assim:

*Este não é o texto completo, mas alguns trechos traduzidos. O texto completo está aqui.

“Eu nunca gostei muito de videogames. Eu sou da geração que sempre brincava no lado de fora, mas uma exceção era o Fifa. Eu praticamente jogava apenas o modo carreira, aquele em que você é o treinador. O clube que eu sempre escolhia era o Arsenal. Era o meu time no Fifa. Crescendo na Noruega, eu via muitos jogos da Premier League e sempre tive boas sensações sobre o Arsenal. Eu via clipes de Thierry Henry e dos Invencíveis. Eu sabia que o clube tinha uma história de desenvolver armadores como Fàbregas, Nasri, Özil – jogadores muito espertos e técnicos, bons com a bola e que faziam passes difíceis. O meu tipo de jogador”.

“Ficando mais velho, por volta da edição de 2015, eu comecei a aparecer no Fifa. Não parecia muito comigo no começo. Acho que eu tinha um overall de 67, mas eu estava no jogo e foi algo importante. Naturalmente, uma das primeiras coisas que eu fazia quando estava fingindo ser Arsène Wenger no modo carreira era me comprar. Eu e o Arsenal. Parecia uma boa combinação na minha cabeça. Aquela conexão especial se tornou realidade quando eu cheguei aqui dois anos atrás. Foi uma decisão que mudou minha vida. Chego aos treinos sorrindo todos os dias. Mas minha história definitivamente não é o modo carreira. Foi uma jornada muito diferente da que eu imaginei no Fifa. Na vida real, você não pode apenas escolher para onde quer ir e tudo será perfeito”.

“Eu acho que as pessoas imaginam que eu tentava evitar tudo que diziam sobre mim na imprensa e viver em uma bolha, mas eu não fazia isso. Eu na verdade costumava ler tudo que escreviam sobre mim. Eu sentava e lia os jornais. Mas eu os lia tipo: ok, legal, isso foi bacana. E era isso. Eu seguia em frente. Eu estava tão focado em ser o melhor naquele momento. Eu sabia que era talentoso, mas eu não queria me antecipar. Eu estava me divertindo jogando com meus amigos no clube da minha cidade. E então as coisas começaram a avançar muito rapidamente. Aos 13 anos, estreei pelo Stromsgodset. Aos 15, eu me tornei o jogador mais jovem a jogar pela seleção norueguesa. Foi quando as coisas começaram a ficar bem malucas”.

“Eu lembro de ter entrado para os últimos 20 minutos de um jogo de eliminatórias da Eurocopa de 2016 contra a Bulgária no estádio Ullevaal, em Oslo, e todo o estádio, mais de 20 mil pessoas, ficaram loucas. Toda vez que eu tocava na bola, eles gritavam. Eu ainda consigo ouvir aquele barulho. O negócio é que, na Noruega, não tínhamos uma ‘superestrela’ há tanto tempo que os torcedores estavam um pouco desesperados e quando eles começaram a ouvir sobre esse garoto de Drammen, eles simplesmente queriam acreditar, mesmo se não soubessem de verdade se eu era bom. Aumentou esse hype estranho”.

“E hype gera mais hype e de repente você está ligado ao Real Madrid. Meu pai lidou com tudo com os clubes e houve muitos. Fomos ao Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Manchester United, Liverpool, Real Madrid, e também ao Arsenal. Voamos para todo lugar em aviões privados e tentaram fazer com que nos sentíssemos especiais. Não estou apenas dizendo isso, mas eu fiquei próximo de escolher o Arsenal. Quando fomos para lá, eu treinei em Colney. Eu conheci Arsène Wenger. Ele levou meu pai e eu para jantar. Foi legal, mas estranho também. Era Arsène Wenger, sabe? Ele é essa lenda que eu cresci vendo pela televisão e agora ele está sentado na minha frente comendo um bife. Eu estava tão nervoso que eu apenas sentei lá pensando: ‘Ele está me analisando? Ele vai me julgar se eu comer minhas batatas fritas? Talvez eu deveria deixar elas para lá’”.

“Então, por que o Real Madrid? Eu conversei muito sobre isso com meu pai e o resto da família. No fim, o Real é o Real. Eles eram os campeões da Champions League com os melhores jogadores do mundo. Eu amava Isco – ele era tão suave com a bola. Outro jogador do meu tipo! Mas a chave com a proposta do Real é que eles tinham um time B no qual eu poderia jogar futebol competitivo imediatamente. E o treinador daquele time? Zinedine Zidane. Parecia o pacote completo”.

“Alguns dias depois da minha apresentação, eu fui treinador pela primeira vez e, honestamente, foi surreal. Não tenho idade para dirigir, então meu pai tinha que me levar para jogar com Isco, Cristiano Ronaldo, Sergio Ramos, Luka Modric, Gareth Bale e Karim Benzema, como se ele estivesse me levando para a escola. A única coisa que eu pensava era sobre como eles me tratariam quando eu entrasse no vestiário. Aquela pequena criança que não falava espanhol. Mas eles foram muito gentis e os que falavam inglês – Kroos, Modric, Ronaldo – tiveram um cuidado extra comigo no começo. Eles me deram conselhos e me ajudaram muito. Mas honestamente, eu não acho que nenhum deles estava muito preocupado que aquele garoto de 16 anos da Noruega tomaria o lugar deles no time”.

“Fizemos esse plano com o clube de que eu treinaria todos os dias com o time principal, mas jogaria regularmente com o time B. Pareceu um plano esperto na época, mas acabou que eu não encontrei meu lugar em nenhum dos grupos. Eu não estava regularmente com o time B e não encontrei aquela conexão. Na equipe titular, eu era apenas uma criança que vinha treinar. Não estava envolvido nos jogos. Eu me sentia alguém que vinha de fora. Estava no meio do caminho. Eu parei de jogar com aquela faísca que era típica do meu jogo. Eu comecei a jogar de um jeito mais seguro. Eu estava mais preocupado em não cometer erros do que realmente jogar o meu jogo. E meu jogo sempre foi sobre fazer diferença. Dar o passe difícil. Agora, eu entendo por que isso aconteceu. Eu ainda era uma criança, mas aprendi que você tem que ser impiedoso. Você tem que não dar a mínima. Você tem que mostrar que é de verdade em campo”.

“Após alguns anos, eu simplesmente não estava progredindo. A imprensa estava vindo atrás de mim por não estar correspondendo ao hype. Eu era um alvo fácil. Se você realmente me conhece, sabe que eu sorrio muito, mas acho que de fora meu rosto parece mais mal humorado do que eu realmente sou, então era fácil para eles escreverem que eu estava com dificuldade de me adaptar. Eu lembro de uma manchete que era tipo: ‘HORA DO VAI OU RACHA PARA MARTIN ODEGAARD’. E eu estava tipo: vai ou racha? Eu tenho 18 anos!”.

“Quando eu estava crescendo na Noruega, parecia que eu tinha todas as opções do mundo. Apenas alguns anos depois, eu tinha que aceitar que os clubes não estavam mais fazendo fila por mim. Se você está jogando no modo carreira e vai do Real Madrid para o Heerenveen, talvez você pense que algo deu errado. Sem querer ofender a liga holandesa! Mas, honestamente, para mim, foi uma experiência fantástica. Eu pude jogar regularmente com o time principal, que era exatamente o que eu precisava. Eu devo muito aos meus empréstimos ao Heerenveen, no qual eu cresci como pessoa, e ao Vitesse, no qual cresci como jogador”.

“No Heerenveen, eu tirei minha carta de motorista (eu não precisava mais que meu pai me levasse aos treinos). Eu aprendi a ser eu mesmo e assumir responsabilidade. Depois, no Vitesse, eu conheci o treinador Leonid Slutsky. Ele era incrível. Ele acreditou na minha habilidade sem pedir que eu fizesse mágica todas as vezes. Ele melhorou minhas tomadas de decisão e meu trabalho em equipe. Em pouco tempo, eu estava encontrando os passes difíceis novamente”.

“Depois de duas temporadas e meia emprestado à Holanda, eu estava pronto para voltar a La Liga e me acalmar na Real Sociedad por pelo menos duas temporadas. No fim, não foi isso que aconteceu. É um clube incrível, em uma parte linda do mundo, com torcedores que são tão conectados ao time. De certa maneira, a cultura basca é mais como na Noruega. As pessoas são mais reservadas no lado de fora, mas uma vez que eles o colocam no coração, eles são carinhosos e protetores. Você se torna um deles. Eu amei isso”.

“Eu estava jogando bem e eu estava bem feliz lá, mas, depois de um ano, quando o Real Madrid ligou (para que ele voltasse), eu pensei: tenho que aproveitar essa chance agora. Esse é o sonho que estou perseguindo desde que tinha 16 anos. Eu tinha uma boa relação com Zidane da época em que ele me treinou no time B e ele cuidou bem de mim, então eu queria acreditar que dessa vez daria certo. Mas eu peguei Covid. Eu comecei os dois primeiros jogos da temporada em 2020/21, mas eu não estava totalmente recuperado. Não joguei o meu melhor e, depois disso, eu não tive muitas chances. Quase nenhuma. Enquanto isso, eu via a Real Sociedad na TV pensando que ainda poderia estar lá. Eu estava pensando muito sobre isso”.

“Eu falei com meu empresário antes da janela de janeiro, ‘olha, precisamos fazer alguma coisa… eu não voltei apenas para estar aqui, eu voltei para jogar, eu preciso jogar e continuar melhorando’. Ele tentou me acalmar, me dizendo que havíamos acabado de cancelar um contrato para voltar ao Real Madrid. Eu sempre disse que queria estabilidade e agora cinco meses depois eu queria me mudar novamente? Mas eu havia me decidido. Posso apenas agradecer o Real Madrid por ter investido em uma criança de 16 anos. Todo mundo tinha boas intenções e não culpo ninguém, mas eu precisava encontrar um lugar para ficar. Eu precisava encontrar uma casa de verdade. Eu encontrei no norte de Londres”.

“Eu falei com Mikel Arteta pelo Zoom e ele me falou tudo sobre o projeto. Na época, o Arsenal não estava bem. Eles estavam tipo em 15º lugar na tabela, mas aquela reunião… Honestamente, eu desafio qualquer um a sair de uma reunião com Arteta e não acreditar em tudo que ele diz. Ele é outro nível. É difícil explicar. Ele é apaixonado, ele é intenso e às vezes, sim, um pouco louco, mas quando ele fala, você entende que o que ele disse acontecerá. Acontecerá. Ele me falou do seu plano, tudo que ele estava construindo. Ele sabia exatamente o que precisava mudar no clube. Ele me disse tudo sobre esses incríveis jovens jogadores do time – Saka, Martinelli, Smith Rowe. Ele me falou que queria que eu me adaptasse e como eu melhoraria. Eu tive essa sensação forte de que ele estava prestes a fazer algo especial”.

“Não que eu precisasse ser convencido, mas eu também recebi mensagens de torcedores do Arsenal no Instagram pedindo que eu assinasse. Não apenas eu, mas toda minha família, amigos, todo mundo que eu sigo. É uma torcida tão incrível e ativa. Depois da vitória contra o West Ham no Boxing Day, eu tive a chance de conversar com Wenger. Foi a primeira vez que ele voltou ao Emirates desde 2018, e a primeira vez que eu o vi desde aquele bife com batatas fritas anos atrás. Tivemos uma boa conversa e ele mencionou que ele continuou observando de perto a minha carreira, depois que eu escolhi o Real Madrid. Ele foi honesto e disse que em certo momento ficou preocupado com como as coisas estavam indo para mim, mas agora estava tão feliz de me ver bem no ambiente certo”.

“Ele mencionou algo. Que desde que eu deixei a Noruega, tudo parecia meio que temporário. Eu não tive estabilidade, aquela conexão profunda mesmo, até agora, e isso foi tão importante. Todas as vezes que eu lidero o time para o gramado do Emirates, eu tenho esse momento comigo mesmo. Eu quero sentir de verdade o clima, aquela eletricidade dos torcedores. Eu sempre ouço quando eles tocam North London Forever nos alto-falantes e começo a cantar com eles. Eu me arrepio todas as vezes. Eu fecho meus olhos e penso em mim mesmo, como criança, em gramados artificiais em Drammen. Se você tivesse mostrado àquela criança uma foto deste momento e lhe dito que aquele era seu futuro?”

“Ela teria morrido por isso. Tem sido uma estrada longa do inferno, mas estou vivendo meu sonho. Estou em casa. E o melhor ainda está pela frente”.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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