Inglaterra

Edu explica sua estratégia para o Arsenal: ideia clara de jogo, limpeza no elenco e agora reforços com instinto assassino

O diretor técnico brasileiro apresentou um plano de cinco anos para reconstruir o Arsenal, ainda na metade, mas aparentemente caminhando bem

Ao demitir Unai Emery em novembro de 2019, o diretor técnico do Arsenal, Edu Gaspar, colocou em ação um plano de cinco anos para o clube voltar a vencer. Em entrevista ao The Athletic, ele explicou a estratégia e, “goste ou não”, entendê-la é essencial para julgar os resultados e avaliar os passos que estão sendo tomados para, por exemplo, tentar encerrar um jejum na Premier League que completou 18 anos – desde os Invencíveis, histórico time de Arsène Wenger do qual o brasileiro fez parte.

O plano de Edu está entrando em seu terceiro ano. O momento em que ele disse, lá atrás e repetiu nesta entrevista, que o Arsenal estará significativamente mais forte. Os movimentos na janela de transferências corroboram a promessa. Gabriel Jesus, Oleksandr Zinchenko e Fábio Vieira, os principais reforços, são jovens e talentosos como o resto do elenco, mas têm experiência em times vencedores. São “assassinos”, como Edu Gaspar descreveu jogadores que fazem tudo pela vitória.

O primeiro passo: ter um treinador com uma ideia clara de jogo. Importante porque é a pedra fundamental de todo o resto do seu trabalho. Como decidir quais jogadores serão contratados, quais contratos serão renovados ou quem será vendido sem um fio condutor? Não era o caso de Unai Emery, na avaliação de Edu Gaspar, que precisou convencer a diretoria e os donos a demitir o espanhol no meio da temporada.

“Com todo respeito, o plano começou quando decidimos mudar Unai Emery. Foi meu primeiro plano: ir à diretoria e explicar o motivo pelo qual queríamos mudar, o motivo pelo qual queríamos tomar uma direção diferente. A ideia era ter um técnico com uma ideia muito clara. Um plano muito claro: uma estrutura muito clara, como ele quer jogar. E a partir disso, vamos construir algo juntos”, disse Edu.

“Se você tem um técnico e é difícil ler como ele joga – em termos de sistema, características, etc -, a sua vida fica super complicada. E aí nós podemos cometer vários erros em contratações porque não entendemos de verdade e não é fácil encontrar o jogador certo para o sistema certo para o técnico certo. Nós tivemos que ser corajosos para tomar essa decisão no meio da temporada porque as pessoas dentro do clube me diziam: ‘wow, nós nunca fizemos isso antes’. E eu disse: ‘sem problema, no Brasil fazemos o tempo todo. Não se preocupe!’ Claro que eu estava brincando, mas eu disse: ‘não, não, vai ficar tudo bem. Mas se você já diagnosticou que não é nosso plano, mude. O mais rápido possível. Ou você vai adiar, adiar, adiar’. No futebol, às vezes a decisão tem que ser tomada rapidamente. Dói, é desafiador, mas tem que ser feito”, acrescentou.

Parênteses: o último técnico demitido no meio da temporada pelo Arsenal foi George Graham, em fevereiro de 1995, durante um escândalo de irregularidades financeiras na contratação de jogadores. Bruce Rioch saiu antes do início da sua segunda temporada por divergências com a diretoria e foi substituído por Wenger, que treinou o Arsenal por 22 anos, antes de ser sucedido por Emery. É, na prática, correto que o Arsenal – ou pelo menos dirigentes do Arsenal ainda rodando por aí – nunca tinha feito isso antes.

Edu Gaspar achou que Mikel Arteta era o homem certo para a missão. “Quando encontrei Mikel, fui à casa dele, tivemos uma grande relação logo de cara: conversas, ideias, etc. Eu vi: esse cara tem um plano, um plano de futebol. O estilo, jogadores, características. Pontos muito técnicos: como ele quer jogar, gente por dentro ou por fora, como vamos pressionar. Muita coisa técnica e ele me mostrou que tem uma ideia muito clara de como quer jogar futebol, o que, novamente, nos ajuda a tomar decisões. Agora ele vai deixar a vida do clube mais fácil”, explicou.

“Então eu dou ao clube um plano de cinco anos. Eu digo a Mikel e à diretoria: ‘A temporada 2022/23 será a que seremos muito melhores. Temos que ser pacientes. Seria impossível trocar todo mundo, precisamos de um processo para isso. Precisamos de boas decisões, precisamos ser corajosos. Vamos passar por momentos difíceis com jogadores, agentes, etc, mas esse é o plano”, completou.

Ele adotou três critérios para avaliar quem deveria ir embora: acima de 26 anos, com salário alto e que não estivesse jogando no nível que se espera de um jogador desse perfil. “Ele está matando você. Porque você não tem uma avaliação para vender o jogador. O jogador está confortável – Arsenal, Londres, lindo, tudo é fantástico – e tem um bom salário. Como você move o jogador? Quantos jogadores com essas características tínhamos no passado? Oitenta por cento do elenco. É por isso que eu disse a eles quando fiz meu plano: ‘Não será fácil limpar o time imediatamente porque a maioria dos jogadores tem contratos de dois, três ou quatro anos’”, contou.

Muitos jogadores deixaram o clube desde que Edu Gaspar chegou ao Arsenal, antes da temporada 2019/20, primeiro trabalhando com o então chefe do departamento de futebol, Raul Sanllehi. A maioria de graça ou por um valor baixo. A maior venda do período foi Alex Iwobi, por cerca de € 30 milhões, para o Everton. Não foi o cenário ideal, o próprio dirigente admite isso, mas como ele explicou, eram jogadores com pouco valor de mercado, e a prioridade era rejuvenescer o elenco e baixar a folha salarial. Por isso que Pierre-Emerick Aubameyang, por exemplo, teve seu contrato rescindido em janeiro para poder se transferir ao Barcelona.

“Se você pensar, ‘sem problema, vamos expor o jogador nesta temporada um pouco mais e depois vamos vendê-lo’. Não, seja realista. Você não quer vender o jogador. Tente evitar mais um ano com um problema interno, no vestiário, caro, sem jogar bem. Mesmo se você tiver que pagar. Que ele saia é melhor. Porque o cara às vezes está também bloqueando alguém. Eu sei que dói, eu sei que é estranho quando você vai para a diretoria e diz: ‘às vezes é melhor pagar para um jogador sair do que mantê-lo’. Mas eu considero um investimento. Alguém vai pagar se você vender? Não. Se o jogador tem mais de 26 ou 27 anos, e não está jogando, salário alto, nenhuma chance”, disse.

É claro que o processo não foi inteiro suave. As contratações de David Luiz e Willian, por exemplo, não condizem com essa ideia, mas Edu achou que era importante ter alguns jogadores mais experientes para ajudar no curto prazo. Não funcionou muito bem. A segunda parte do plano, o das contratações, demorou um pouco para ficar claro também. Apenas na janela anterior de verão o investimento foi mais alto em jogadores mais jovens e com salários mais baixos. Ben White, Martin Odegaard (confirmado após empréstimo), Aaron Ramsdale, Takehiro Tomiyasu, Alberto Lokonga e Nuno Tavares se juntaram aos pratas de casa e outros novinhos que estavam no elenco.

O cronograma de Edu parece fazer sentido. O elenco atual do Arsenal tem poucos jogadores com o perfil que ele descreveu. Alguns, como Pablo Marí e Héctor Bellerín, estão voltando de empréstimo e devem ser negociados novamente. Bernd Leno está no mercado, e o grande problema mesmo será Nicolas Pépé, reforço mais caro da história do clube, ainda com dois anos de contrato. Mas no geral, a espinha dorsal com a qual Arteta trabalha no momento tem 25 anos ou menos, fome e bastante talento. A questão agora é dar o passo seguinte: melhorá-los, desenvolvê-los, começar a conseguir os resultados que o clube precisa. “Diga quantos jogadores temos com essas características (negativas) neste momento. No próximo verão, dê uma olhada na avaliação dos jogadores que temos, no grupo etário que temos, os salários que temos. Agora, como parte do plano, vamos criar valores nesses nossos jogadores”, disse.

Segundo ele, a vaga na Champions League na última temporada, que ficou tão perto e foi perdida por uma sequência ruim de resultados na reta final do Campeonato Inglês, teria chegado um ano antes do previsto. O diagnóstico de Edu Gaspar é que faltaram jogadores como os “que estão sendo contratados agora”. Os tais dos matadores.

“Em certos momentos, quando vamos jogar uma partida importante, a pressão, temos que vencer o jogo para entrar na Champions League, você precisa de um time (com a atitude de) ‘eu quero matar alguém’, sabe? Não estou dizendo que não temos um (bom) elenco, mas precisamos de um elenco maior com personalidades, com alguns comportamentos, que digam ‘eu não perco esse jogo, eu vou matar alguém, mas não perco esse jogo’. Acho que acrescentamos mais alguns jogadores com esse tipo de personalidade” disse.

“Fale com Gabriel (Jesus), fale com Zinchenko, com Fábio (Vieira). Aqui na minha cabeça, eu quero vencer. Um clube como o Arsenal, do nosso tamanho, não está sendo construído para lutar pelo quarto lugar. Temos que ser realistas – há o City, o Liverpool, etc, etc – tudo bem. Eu aceito isso. Mas também, eu não posso aceitar isso. Quando você vem para o clube, quando vê nosso tamanho, não podemos aceitar isso. É por isso que doeu muito quando eu cheguei. Eu disse: ‘Não é essa a mentalidade deste clube de futebol. O que está acontecendo? Todo mundo confortável, todo mundo ok’. Vai se foder. ‘OK’. ‘OK?’. Não. Eu não quero perder jogos. Eu quero ver os fisioterapeutas, eu quero ver os olheiros, quero ver todo mundo com esse tipo de sentimento. E acho que estamos mudando. Novamente, não acontece do dia para a noite, mas estamos mudando e colocando uma boa mentalidade no time. Personalidades”, encerrou.

Se as contratações desta janela são os jogadores certos para o que Edu busca, o tempo dirá. Mas é essa a ideia. E a do Arsenal parece (finalmente) estar bem clara no momento.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo