Inglaterra

Campeão com o Leicester, Drinkwater não conseguiu resgatar a carreira e se aposenta aos 33 anos

A carreira do campeão inglês de 2015/16 com o Leicester saiu dos trilhos entre a transferência para o Chelsea, lesões e problemas pessoais

Peça importante de um dos títulos mais improváveis de todos os tempos, Danny Drinkwater ganhou a chance que tantos jogadores esperam em um clube poderoso como o Chelsea, mas foi exatamente o momento em que sua carreira saiu dos trilhos. E apesar de inúmeras tentativas, ele nunca conseguiu corrigir o curso, entre problemas pessoais, polêmicas extra-campo e lesões. Enfim, desistiu de tentar e, no momento em que seus ex-colegas ultrapassam a barreira dos 35 anos com mais facilidade, decidiu se aposentar aos 33.

Em entrevista a um podcast chamado High Performance, o campeão inglês pelo Leicester disse que o limbo em que entrou desde a transferência para o Chelsea foi prolongado demais e que não estava conseguindo encontrar um clube do nível que gostaria de defender. O seu contrato com os Blues terminou em maio de 2022. Ele não joga desde que passou aquela temporada emprestado ao Reading, da segunda divisão, no qual conseguiu encontrar alguma regularidade pela primeira vez desde que foi vendido pelas Raposas.

– Estava para acontecer faz tempo, especialmente com esse último ano, mas acho que é o momento de oficialmente anunciar. Eu acho que estou no limbo há tempo demais. Eu quero jogar, mas não consigo a oportunidade de fazê-lo em um nível ou um padrão em que me sinto valorizado. Estou feliz não jogando futebol, mas fico feliz jogando futebol.

– É tudo que eu sei. Tem sido minha vida desde que eu tinha seis, sete anos. Nunca seria algo fácil. Se eu estivesse jogando semana sim, semana não, e tivesse que parar, talvez por lesão ou apenas por idade, não conseguir entrar em campo como eu gostaria, eu acho que talvez fosse mais difícil – disse.

Do auge ao limbo

Drinkwater foi formado pelas categorias de base do Manchester United, mas não teve oportunidades com Alex Ferguson e saiu para o Leicester em 2012. Alguns anos depois, foi uma das principais peças do acesso das Raposas à Premier League e, em 2015/16, titular no incrível título inglês. Ele e Marc Albrighton eram os nomes menos notórios do meio-campo, ao lado das estrelas Riyad Mahrez e N’Golo Kanté, mas ainda extremamente importantes na engrenagem de Claudio Ranieri.

Continuou no King Power Stadium na temporada seguinte, antes de se transformar em um daqueles jogadores ingleses super-valorizados no mercado de transferências porque é formado na Inglaterra e ajuda nas regas de inscrição. O Chelsea de Antonio Conte pagou quase € 40 milhões por seus serviços, em um momento no qual isso era dinheiro para caramba – Salah custou aproximadamente a mesma coisa para o Liverpool no mesmo mercado.

Ele até pareceu um jogador (reserva) do Chelsea em 2017/18, prejudicado por algumas lesões, mas nunca conseguiu se firmar. O limbo começou na temporada seguinte, quando jogou apenas a Supercopa da Inglaterra, a primeira partida do calendário. Em uma entrevista à Sky Sports, contou que teve uma reunião com Maurizio Sarri, que substituiu Antonio Conte, na última hora da janela de transferências do verão europeu de 2018 em que foi informado que não estava nos planos. Ficou um pouquinho revoltado porque precisava de mais tempo para encontrar uma nova casa. Sarri respondeu que alguns clubes estrangeiros estavam interessados, mas ele se recusou a sair por causa do filho pequeno. Decidiu ficar até janeiro, mas não foi vendido e nem emprestado.

Durante o exílio, foi pego dirigindo alcoolizado e teve sua carteira de motorista suspensa. Na entrevista ao podcast, admitiu o erro e disse que estava tentando aproveitar outro lado da vida como um escape para os seus problemas que iam muito além da questão profissional. O seu avô, avó e cachorro morreram, e o pai foi diagnosticado com leucemia.

– Foi um enorme sinal de alerta para mim. Eu fiquei na cela (de prisão) por 23 horas ficando sóbrio e estava pensando: “O que diabos você está fazendo, cara?”. Foi quando eu comecei a buscar ajudar de fora para tudo aquilo – disse.

Os problemas não acabaram ali, porém. Ele ainda teve mercado na Premier League em 2019/20, mas sofreu uma lesão no tornozelo em uma briga no lado de fora de uma casa noturna e deu uma cabeçada no espanhol Jota, então seu companheiro de Aston Villa, em março 2020. Ele não conseguiu jogar com frequência nem pelo Villa, nem pelo Burnley, no qual havia passado os meses anteriores.

O Chelsea havia há muito tempo desistido de Drinkwater, tanto como um integrante do elenco, quanto um jogador que poderia render alguma coisa no mercado de transferências. À espera do fim do seu contrato, fez 11 jogos pelo Kasimpasa, da Turquia, e finalmente voltou a se sentir um jogador de futebol em 2021/22, participando de 33 rodadas da Championship, 31 como titular. Seu contrato terminou algumas semanas depois e ele foi bem sincero sobre os problemas no Chelsea.

– Estou aliviado porque está claro que não era uma situação boa para mim ou para o clube. Estou bravo pela maneira como tudo aconteceu e como eu fui tratado. Não com rancor. Eu fico pensando se eu joguei fora esses cinco anos. Se eu tivesse ficado no Leicester, se eu não tivesse me machucado, se o clube tivesse me tratado de maneira diferente. São vários ‘E se?”. É frustrante, 100%. Não ache que eu ainda não estou queimando por dentro, mas, por outro lado, vou continuar me batendo por isso porque não posso mudar – afirmou, à Sky Sports.

Tanto nessa conversa com a Sky em 2022, quanto na entrevista ao podcast em que anunciou a aposentadoria, Drinkwater abordou francamente os problemas pessoais e se juntou ao cada vez maior grupo de jogadores e ex-jogadores que enfatizam o quanto é importante cuidar da saúde mental: “Qualquer um que pensa que ganhar muito dinheiro resolverá todos os problemas está errado. A saúde mental é mais importante que a física. Foi o momento mais obscuro que eu tive. Era como se eu estivesse me afogando e esqueci como se nada”.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
Botão Voltar ao topo