Por que De Zerbi no Tottenham é ideia maluca até mesmo para quem o ama
Italiano chega com proposta ofensiva radical, mas pode ser tarde demais para os Spurs
Roberto De Zerbi é o novo técnico do Tottenham, o terceiro somente nesta temporada. Se essa fosse uma notícia de julho de 2025, no início da temporada, poderia ser considerada uma das melhores contratações da Premier League. Agora, no entanto, esse já não é o caso.
O italiano substituirá Igor Tudor, que teve uma sequência muito negativa de cinco derrotas em sete jogos, e tentará salvar o time do rebaixamento no campeonato inglês faltando sete rodadas. Se Tudor já romperia o que Thomas Frank vinha construindo nos Spurs, De Zerbi será um passo ainda maior.
Por que é difícil defender De Zerbi no Tottenham
É inegável que um treinador como o italiano em um grande clube da Premier League se tornaria automaticamente animador. De Zerbi é um “romântico” do futebol: gosta da bola, da habilidade e do domínio agressivo. Sempre foi tido como o treinador do jogo esteticamente agradável.
Ainda assim, também é difícil defender a contratação do treinador a essa altura do campeonato. Os londrinos estão a apenas um ponto da zona de rebaixamento. São sete derrotas nos últimos dez jogos e a última vitória, um 3 a 2 contra o Atlético de Madrid na Champions League, foi praticamente irrelevante por conta da eliminação.
Mais do que isso, o time montado pelo Tottenham não parece estar próximo de atingir o estilo que De Zerbi propaga. E pior: alguns dos principais jogadores para chegar a esse padrão estão machucados, como Dejan Kulusevski, James Maddison, Rodrigo Bentancur e Mohamed Kudus.
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A missão de De Zerbi, então, é quase impossível. Levar um estilo arriscado, que pede paciência para construir desde trás, com goleiro amplamente envolvido e um time que propositalmente pisa na bola para chamar a pressão, a um time desesperado para não cair.
Ainda assim, é uma contratação fiel ao lema do clube, “To dare is to do” (“Ousar é agir”, em tradução literal). O italiano chega com uma das ideias de jogo mais ousadas e detalhadas do futebol europeu contemporâneo.
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Posse, manipulação e caos controlado: Como o Tottenham deve jogar com De Zerbi
Após experiências marcantes por clubes como Sassuolo, Brighton e Olympique de Marseille, De Zerbi construiu reputação como um técnico capaz de elevar o nível coletivo por meio de conceitos táticos complexos e, muitas vezes, arriscados.
No Brighton, levou o clube a um histórico sexto lugar na Premier League e a classificação para a Europa League pela primeira vez na história. No Marseille, foi vice-campeão francês com um futebol ofensivo que chamou atenção pela intensidade e pela estética. Agora, o desafio é aplicar essa mesma identidade em Londres.
As equipes de De Zerbi partem, em geral, de uma estrutura base em 3-2-5 com a bola — um desenho que, à primeira vista, remete ao de Pep Guardiola, mas com objetivos distintos.
Enquanto Guardiola busca controlar o jogo pela circulação constante e pela ocupação racional dos espaços, De Zerbi utiliza a posse como uma ferramenta de manipulação do adversário. O objetivo não é apenas ter a bola, mas induzir o rival ao erro.
Existem diferentes formas de chegar ao gol adversário, mas acho a do Shakhtar a mais interessante do mundo.
Aproximações exageradas, priorização do meio e a intenção de ser pressionado para chegar ao último terço “mais limpo”.
Preparei isso aqui 👇
— Guilherme Ramos (@guilhermer_amos) September 1, 2021
O conceito-chave aqui é atrair a pressão adversária de forma deliberada. A equipe troca passes curtos e aparentemente arriscados na defesa, convidando o oponente a avançar suas linhas. Quando isso acontece, o time buscará romper essa pressão com passes verticais ou diagonais rápidas, explorando os espaços deixados.
O resultado é um futebol imprevisível, muitas vezes brilhante, mas que também carrega riscos evidentes.
Amplitude máxima e ocupação agressiva da área
Outro pilar fundamental está no uso dos pontas. Diferentemente de equipes que trabalham com extremos mais interiores, De Zerbi exige jogadores colados à linha lateral, abrindo o campo ao máximo.
Essa amplitude cria espaço para infiltrações pelo centro e permite que o time ataque com cinco jogadores na última linha. O objetivo é simples: esticar a defesa adversária até o limite e criar situações de superioridade nos corredores.
Os laterais também desempenham papel híbrido. Dependendo do lado, podem avançar em sobreposição ou se juntar à linha defensiva, formando uma saída com três jogadores, o que mantém o equilíbrio estrutural.
Apesar da forte ênfase na posse, o jogo de De Zerbi não é necessariamente lento. Pelo contrário: a verticalidade aparece no momento exato, geralmente após atrair a pressão.
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Esse comportamento explica por que suas equipes produzem números ofensivos elevados. Tanto Brighton quanto Marseille figuraram entre os melhores em métricas como posse de bola, chances criadas e gols esperados em suas temporadas nacionais.
Por outro lado, há um custo claro. O alto número de jogadores envolvidos no ataque deixa espaços nas transições defensivas. Não por acaso, suas equipes frequentemente aparecem entre as que mais sofrem gols em contra-ataques e ataques diretos.
Como o elenco dos Spurs se encaixa na ideia
A implementação desse modelo no Tottenham dependerá diretamente da adaptação do elenco. E mesmo com as dificuldades, há peças que parecem encaixar de forma natural. No meio-campo, jogadores como Archie Gray e Lucas Bergvall têm o perfil que o italiano gosta: jovens, técnicos, móveis e inteligentes posicionalmente.
Na defesa, Djed Spence pode atuar como peça-chave na transição para uma linha de três, enquanto Pedro Porro oferece versatilidade ao poder ocupar zonas interiores.
Mais à frente, Xavi Simons surge como o perfil criativo ideal para atuar entrelinhas, enquanto Richarlison pode se beneficiar da agressividade exigida no último terço. Já Cristian Romero encaixa no modelo pela intensidade defensiva e capacidade de defender em campo aberto.
A grande incógnita está nos dribladores de um contra um, peça essencial no sistema de De Zerbi para quebrar defesas. Nesse sentido, o retorno de Mohammed Kudus pode ser determinante. Mas também no grande acúmulo de meio-campistas que, a princípio, não casam com o estilo: João Palhinha e Connor Gallagher, por exemplo, foram contratações recentes e não são o estilo de jogador para a proposta.
We are pleased to announce the appointment of Roberto De Zerbi as our new Men’s Head Coach on a long-term contract, subject to work permit.
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— Tottenham Hotspur (@SpursOfficial) March 31, 2026
Apesar do encaixe teórico, há um fator que pode pesar contra: o tempo. O modelo de De Zerbi é notoriamente complexo e exige repetição, treino e entendimento coletivo.
No próprio Brighton, o treinador precisou de algumas semanas para consolidar suas ideias, passando seus primeiros jogos sem vitória. A adaptação no Tottenham pode seguir caminho semelhante, mas com o agravante: se não vencer rápido, o time será rebaixado.
Curiosamente, os Spurs voltam a uma situação em que há paralelos com o início de Ange Postecoglou no clube. Posse de bola, pressão alta e ataque pelos lados já fazem parte do repertório recente da equipe naquela época, o que pode facilitar a transição.
Se conseguir implementar sua filosofia, De Zerbi pode transformar o Tottenham em uma das equipes mais interessantes e imprevisíveis da Premier League. O risco é alto e deve resultar em história: ou em uma catástrofe para o rebaixamento, ou na guinada que pode mudar o rumo do clube para os próximos anos.