Copa da Inglaterra

Um marco na história do futebol: Há 150 anos, a Copa da Inglaterra coroava seu primeiro campeão

O Wanderers venceu o Royal Engineers na decisão e o idealizador da FA Cup teve a honra de ser também o primeiro capitão campeão

A FA Cup é um enorme orgulho do povo inglês. O torneio basicamente inaugura a história do futebol competitivo e finca bases à modalidade, mais de uma década antes que o profissionalismo fosse adotado. O torneio teve papel central na popularização do esporte e no seu próprio desenvolvimento, pela forma como estimula o crescimento das equipes e expande sua penetração. Pois o passado glorioso da Copa da Inglaterra coroou seu primeiro campeão há exatos 150 anos. O Wanderers seria a primeira força dominante do certame e teve a honra de ficar com a taça inaugural, vencendo o Royal Engineers por 1 a 0 em 16 de março de 1872. Curiosamente, o capitão da equipe era justamente o idealizador do torneio.

O pai da Copa da Inglaterra se chama Charles W. Alcock, ele mesmo jogador naqueles primórdios e capitão do primeiro selecionado formado por ingleses – além de figura relevante na história do críquete. Secretário da Football Association, criada em 1863 com a unificação das regras do futebol, Alcock deu a ideia de que uma competição fosse estabelecida entre os times que compunham a entidade. Até então, o futebol se restringia a amistosos e pequenos torneios regionalizados. Não existia uma disputa que envolvesse a maior parte dos clubes do Reino Unido, e de maneira contínua.

Charles W. Alcock

Alcock oficializou sua proposta em julho de 1871. Sugeriu que a competição seguisse o formato de mata-matas e que fosse aberta a todos os times associados. Além disso, um troféu seria oferecido aos campeões, seguindo o que se praticava na Harrow School, a prestigiosa escola onde Alcock se formou e que tinha competições esportivas internas entre suas casas. Em poucas semanas, a ideia foi ratificada. A FA Cup (então chamada de Challenge Cup) contaria com equipes formadas por 11 jogadores, em partidas com duração de 90 minutos – o que hoje parece óbvio, mas que na época ainda não estava quantificado nas Regras do Jogo. Além disso, se uma partida terminasse empatada, haveria a realização de um replay. Dois indivíduos, cada um indicado por uma das equipes em campo, arbitrariam os duelos – um de cada lado, nas laterais, como os atuais bandeiras.

A princípio, apenas 12 dos 50 clubes filiados à Football Association se inscreveram na Copa da Inglaterra. Após três desistências, outros seis times se juntaram ao torneio, fechando o número de participantes em 15. A maior parte das equipes já não existe mais. Um nome que chama atenção é o do Crystal Palace, que possui ligações longínquas com o atual clube da Premier League. Dentre aqueles que seguem suas atividades de maneira ininterrupta no Campeonato Inglês, o mais relevante é o Maidenhead United, hoje na quinta divisão. Ainda assim, o participante mais notável era o Queen’s Park, primeiro clube da Escócia e ligado à FA naqueles primórdios. Era a única equipe ao norte da Grã-Bretanha, enquanto a maioria se concentrava mesmo na região de Londres e poucas eram de outras áreas no centro-sul do território. Os principais times do norte da Inglaterra já estavam com o calendário cheio de amistosos marcados e, por isso, não quiseram participar.

O primeiro troféu da FA Cup

O pontapé inicial da FA Cup 1871/72 aconteceu em 11 de novembro. Porém, apenas quatro partidas da primeira fase realmente foram realizadas. Desistências e até mesmo a indefinição do mando de campo provocaram classificações automáticas. A segunda fase teve mais um W.O., além de time escalando apenas oito jogadores e jogo remarcado por falta de luz natural. Já a terceira fase definiu os quatro semifinalistas. A essa altura, por conta de problemas com as arbitragens divididas entre os oponentes, um árbitro neutro passou a ser chamado. A reta final da competição também incluiria novidades das Regras do Jogo, como a cobrança de escanteio e a marcação de falta por toque de mão. Outras coisas básicas ainda não existiam, como pênaltis e o travessão. Os laterais, por exemplo, eram cobrados por quem chegasse primeiro até a bola.

As semifinais não estiveram isentas de problemas. O Queen’s Park, que não tinha disputado um jogo sequer até então, por classificações automáticas e entraves sobre o mando de campo, abandonou a competição. Os escoceses até enfrentaram o Wanderers em Londres, mas o empate por 0 a 0 demandava um novo jogo. Sem condições de bancar outra viagem à cidade para o replay, o forte time de Glasgow desistiu do torneio. Já o Royal Engineers se provou em campo. Após o empate por 0 a 0 com o Crystal Palace, a classificação seria definida com os 3 a 0 do reencontro.

O Royal Engineers

Os dois finalistas estavam ligados à aristocracia britânica. O Wanderers era formado por ex-alunos abastados dos colégios públicos locais, incluindo Harrow School e Forest School. O próprio Charles W. Alcock era um dos fundadores da agremiação. O então chamado Forest participou da criação da Football Association em 1863 e, a partir do ano seguinte, passou a se chamar Wanderers (“Andarilhos”) em alusão ao fato de que não possuía um estádio fixo. O clube londrino depois se estabeleceria de maneira mais frequente no Kennington Oval, principal estádio da Inglaterra na época e templo do críquete até os dias atuais. Já o Royal Engineers era composto por membros do Corpo de Engenheiros Reais, setor do exército britânico encarregado de projetos de engenharia. Seus jogadores eram militares e tantos deles já veteranos de guerra.

A decisão da Copa da Inglaterra de 1871/72 guardaria até mesmo um duelo de estilos. O Wanderers praticava o mais puro futebol dos primórdios do esporte, com um padrão baseado nas longas conduções e na correria dos chutões para frente. Já o Royal Engineers estava, ao lado do Queen’s Park, entre os primeiros responsáveis pelo desenvolvimento do chamado “jogo de combinação” – priorizando passes e toques mais curtos, que demandavam mais entrosamento. Até por isso, eram considerados favoritos para a final. O craque do Royal Engineers era Henry Renny-Tailyour, que chegou a participar das seleções de Inglaterra e de Escócia naqueles primórdios – tanto no futebol quanto no rúgbi. Do outro lado, a figura mais proeminente do Wanderers era exatamente Charles W. Alcock, capitão do time e também destaque na defesa.

O Wanderers

O Kennington Oval foi o palco da primeira final da Copa da Inglaterra. As arquibancadas receberam 2 mil espectadores, num momento em que o futebol no sul da Inglaterra era considerado uma atividade de elite e tinha menos popularidade que no norte, ligado às camadas operárias. Não à toa, o preço do ingresso foi considerado “exorbitante” para a época e o público se concentrou nos próprios círculos próximos dos jogadores. Alfred Stair, jogador do Upton Park, seria o árbitro da primeira decisão da FA Cup – e também das duas seguintes. Foi escolhido por sua “honestidade”, como tesoureiro da FA. Em campo, as duas equipes entraram com formações ofensivas, como mandava a época. O Wanderers estava escalado num 1-1-8, enquanto o Royal Engineers era um pouco mais precavido em seu 2-1-7.

Apesar do favoritismo, o Royal Engineers precisaria jogar com um a menos desde os primeiros minutos. Edmund Creswell sofreu uma fratura na clavícula durante uma disputa e permaneceria em campo apenas para fazer figuração. A vantagem logo seria aproveitada pelo Wanderers, que marcou o gol da vitória por 1 a 0 aos 15 minutos. A jogada seria construída por uma arrancada de Walpole Vidal, considerado o “Príncipe dos Dribladores” pela maneira como enfileirava os adversários na base da habilidade. A bola chegaria limpa para Morton Betts finalizar sem muito ângulo, se tornando o primeiro herói do torneio. O atacante, outro membro da Harrow School, tinha defendido anteriormente o Harrow Chequers e, por isso, usou o pseudônimo de AH Chequer na final. Posteriormente, atuaria pela seleção inglesa em uma partida, em 1877.

A primeira medalha da FA Cup

Na época, os times trocavam o lado do campo após o gol. Com isso, o Royal Engineers passaria a atuar a favor do vento e de costas para o sol. Entretanto, a vantagem numérica pesou muito mais que o fator climático e o Wanderers seguiu melhor na partida. Os Andarilhos tiveram um gol anulado no primeiro tempo e pressionaram o goleiro William Merriman, que evitou uma diferença maior no placar com grandes defesas. O Royal Engineers ainda tentou uma reviravolta final, sem sucesso. O troféu inédito ficaria mesmo com o Wanderers, embora a cerimônia de entrega só tenha acontecido um mês depois.

“O Wanderers apresentou algumas das melhores jogadas, individualmente e coletivamente, que já foram vistas no Jogo de Associação”, escreveu o jornal The Field, elogiando ainda o nível de intensidade aplicado pelos times no Kennington Oval. Seria um jogo “duro e veloz, mas justo”. O troféu seria entregue por E. C. Morley, presidente da Football Association, numa cerimônia especial num restaurante de Londres. Os campeões foram presenteados também com um distintivo de seda oferecido pela entidade. Já as medalhas de ouro foram entregues pelo próprio Wanderers aos seus 11 atletas.

O Royal Engineers até deu a volta por cima com o título de 1875, em grandes atuações de Renny-Tailyour para coroar o “jogo de combinação”. O Wanderers, de qualquer maneira, se estabeleceu como a força dominante na primeira década do torneio. Os Andarilhos foram bicampeões em 1873, além de levarem um tricampeonato emendado de 1876 a 1878. Três dessas finais teriam a participação de Arthur Kinnaird, primeira grande lenda da Copa da Inglaterra e que seria presidente da FA por 33 anos. Um século e meio depois, Kinnaird seria retratado como protagonista da série The English Game, da Netflix. Ao lado de Charles W. Alcock, é um dos símbolos do Wanderers como primeiro esquadrão do futebol e também um símbolo da FA Cup.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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