Nove batalhas de Manchester: relembre os duelos entre City e United pela FA Cup
Manchester City e Manchester United se enfrentarão pela primeira vez numa final, mas possuem grandes histórias em outras fases da Copa da Inglaterra
Adversários na final da FA Cup neste sábado, Manchester City e Manchester United transportarão pela décima vez o dérbi da segunda cidade mais populosa da Inglaterra para o torneio mais antigo e tradicional do futebol do país. Nas páginas anteriores desse duelo mais que centenário, que vem desde o tempo em que os dois clubes atendiam por outros nomes, o United venceu a maioria dos jogos (seis contra três), mas coube ao City as vitórias em fases mais agudas (duas semifinais). E através do tempo os jogos carregaram histórias de rivalidade, polêmica, belos gols e sobretudo resultados surpreendentes, como manda um bom clássico. Relembramos a seguir, acompanhadas do contexto de época, as nove batalhas travadas até aqui.
Newton Heath 5×1 Ardwick (1891)
No fim do século XIX, o futebol ainda estava sendo formatado como o jogo que conhecemos hoje. O ano de 1891, por exemplo, viu a introdução das redes nos gols e a criação da regra do pênalti para faltas cometidas dentro de uma distância de 12 jardas – ou 11 metros – do gol (ainda não havia, no entanto, a delimitação da grande área, que só viria em 1902). Também havia nessa época ligas concorrentes no futebol inglês: a Football League e a Football Alliance, da qual ainda faziam parte o Newton Heath e o Ardwick, dois clubes de Manchester.
Ambas as ligas haviam sido criadas recentemente: a Football League em 1888 e a Football Alliance um ano depois. Esta, no entanto, teria vida curta, sendo absorvida pela primeira em 1892, com seus clubes passando a integrar a estrutura da outra. Já a FA Cup, conhecida na época apenas por “English Cup”, havia sido introduzida 20 anos antes, porém o formato com fases classificatórias preliminares, igual ao adotado hoje, surgiu em 1888/89. E foi numa dessas etapas que aconteceu o primeiro duelo entre os rivais de Manchester pelo torneio.
Mas quem era quem? O Manchester United ainda era conhecido pelo nome completo de Newton Heath Lancashire & Yorkshire Railway, que costumava ser abreviado para Newton Heath LYR ou só Newton Heath. Era a grande força da cidade, que organizava copa própria. Já o Manchester City, fundado como St. Mark’s em 1880, havia sido renomeado Ardwick ao se mudar para a região de mesmo nome e para o campo de Hyde Road em 1887. E vencera a Copa de Manchester pela primeira vez em 1891, batendo o rival na final por 1 a 0.

A derrota na final foi de fato um grande motivador para o Newton Heath, que esperava a revanche no confronto disputado em seu campo de North Road no dia 3 de outubro de 1891 (valendo pela temporada 1891/92 da competição). O time começou pressionando, mas não conseguiu marcar. Até que o Ardwick enfim teve sua chance justamente num pênalti. Mas o goleiro John Slater fez brilhante defesa e impediu a abertura da contagem pelo adversário. Logo em seguida, em um contragolpe, o Newton Heath fez 1 a 0 com John Sneddon.
Daí em diante, a porteira foi aberta: Alf Farman recebeu passe de William Sharpe e ampliou no segundo tempo, antes de Roger Doughty marcar o terceiro. O Ardwick diminuiu com Jack Pearson cobrando falta e ensaiou uma reação. Mas Alf Farman, outra vez, e Alf Edge mandaram mais duas finalizações para o fundo das redes – agora sim o termo enfim poderia ser usado – e completaram a goleada de 5 a 1 a favor do futuro Manchester United, que nas etapas seguintes superaria o Heywood e o South Shore, antes de cair diante do Blackpool.
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Manchester City 3×0 Manchester United (1926)
O segundo duelo, mais de 35 anos depois do pioneiro, encontrou os dois clubes com seus nomes definitivos e em suas casas mais longevas. O primeiro a ser rebatizado foi o Ardwick, que passou a se chamar Manchester City em 1894. O clube também deixou o campo de Hyde Road em 1923, construindo o estádio de Maine Road, chamado de “Wembley do norte” devido à sua capacidade – chegaria a receber mais de 84 mil torcedores numa partida contra o Stoke em 1934, ainda hoje o recorde nacional para um clube em seu próprio estádio.
O Newton Heath, por sua vez, seria despejado do campo de North Road em 1893, mudando-se para o de Bank Street, onde ficaria até 1910, quando enfim se transferiu para um estádio maior que construíra em Old Trafford. No meio do caminho o clube também mudaria de nome, passando a se chamar Manchester United em 1902, após quase fechar as portas por crise financeira. Mas o dérbi de 27 de março de 1926 válido pela semifinal da FA Cup seria jogado, como mandava o regulamento, em campo neutro: Bramall Lane, em Sheffield.
O que também havia mudado era o status dos dois clubes. Se no início o United/Newton Heath se colocava como o mais poderoso da cidade, no período entreguerras (das temporadas 1919/20 a 1938/39) o City assumiu esse posto com o declínio do rival. Nas 20 temporadas completas do período, os azuis estiveram na elite em 17 e o United só em 11. Além disso, foram campeões em 1937, vices em 1921, figuraram cinco vezes no Top 5 e 12 vezes no Top 10. Já os Red Devils só terminaram na metade de cima da tabela da liga uma vez.
A maior disparidade foi observada na temporada 1933/34: o City foi o quinto colocado na primeira divisão, enquanto o United amargou o 20º posto na segunda, escapando da queda para a terceira por um ponto. A única vez em todo o período na qual o United ficou entre os 10 primeiros na elite – e ainda à frente do City com ambos na mesma divisão – ocorreu exatamente em 1925/26, ao ficar em nono. Mesmo assim, os azuis chegavam para o confronto vindos de aplicarem um 6 a 1 dentro de Old Trafford no dérbi anterior pela liga, em janeiro.

O duelo foi saudado pela imprensa local como “um evento histórico”, mas a escolha de Bramall Lane para receber o jogo gerou mal-estar depois do vazamento da informação de que o City havia abordado o técnico do Sheffield United, John Nicholson, com uma proposta para ocupar o cargo nos azuis, vago desde a saída de David Ashworth em novembro. O local também foi considerado pequeno para sediar o clássico, visto que a procura por ingressos por torcedores do City superava em três vezes o número de bilhetes destinados ao clube.
Curiosamente, no mesmo dia o United anunciou que tinha ingressos sobrando e que os venderia a qualquer interessado. Rapidamente a cota foi esgotada. Assim, com sua torcida em maioria, o City dominou o jogo e saiu na frente aos 14 minutos com um gol de cabeça de Tommy Browell. O United contestou o gol, alegando que não havia cruzado a linha, mas a imprensa da época afirmou que o lance foi válido. Irritados, os jogadores dos Red Devils começaram a recorrer a jogadas mais ríspidas, provocando a reprovação do público.
O auge desse comportamento aconteceu quando o beque Frank Barson deu uma entrada dura no médio Sam Cowan, do City. O lance passaria impune pelo árbitro, mas renderia posteriormente uma suspensão de oito semanas ao jogador dos Red Devils. O mesmo Barson acabaria castigado naquela partida ao falhar no lance do segundo gol dos azuis, ao permitir a finalização de Tommy Browell aos 30 minutos da etapa final. E o golpe de misericórdia viria dois minutos depois, quando o centroavante Frank Roberts marcaria o terceiro gol.
Com a vitória, o City se tornaria o primeiro clube de Manchester a disputar uma final em Wembley, mas seria derrotado pelo Bolton. Na liga, curiosamente, o clube acabaria rebaixado após perder para o Newcastle na última rodada, retornando à elite dois anos depois. Por ironia, o feito de ser derrotado na final da copa e rebaixado na mesma temporada se repetiria 43 anos depois com o Leicester, batido na decisão da taça de 1969 exatamente pelo City.
Manchester City 2×0 Manchester United (1955)
Após a Segunda Guerra, o cenário tornou a se inverter. Mesmo com o United sendo obrigado a mandar seus jogos em Maine Road por alguns anos enquanto reconstruía Old Trafford, destruído por bombardeiros alemães durante o conflito, os Red Devils logo recuperaram o protagonismo. E esse resgate, por ironia, seria feito por um ex-jogador do City: o escocês Matt Busby, que atuara pelo rival entre 1928 e 1936, sendo campeão da FA Cup em 1934, antes de assumir o comando no lado vermelho da cidade em fevereiro de 1945.
Entre a temporada de retorno da liga, em 1946/47, e a anterior ao desastre aéreo de Munique, 1956/57, o United conquistou três vezes a liga, terminou quatro vezes em segundo lugar e só ficou uma vez abaixo de quinto – e sempre acima do City. Porém, quando os rivais se encontraram pela quarta fase da FA Cup em Maine Road no dia 29 de janeiro de 1955, os azuis atravessavam boa fase no dérbi, chegando a nove partidas seguidas sem perder para o rival entre janeiro de 1952 e setembro de 1955 e vencendo todos os duelos em casa.
O destaque daquele City, além do corajoso goleiro alemão Bert Trautmann, era o sistema de jogo de inspiração húngara adotado pelo técnico escocês Les McDowall, no qual o atacante Don Revie funcionava como uma espécie de falso nove, recuando em relação à linha de frente para puxar a marcação, abrir espaço e criar jogadas. Já o United de Matt Busby levaria a campo oito jogadores que se envolveriam no desastre aéreo de Munique, dali a três anos, incluindo Duncan Edwards, Roger Byrne e Tommy Taylor, vitimados no acidente.
Com Maine Road recebendo mais de 74 mil torcedores, a partida foi marcada pela expulsão do zagueiro Allenby Chilton, do United. Ken Barnes, médio do City naquele dia, comentou em sua autobiografia: “Hoje em dia os jogadores são expulsos por qualquer coisa, mas naquele tempo era raro. Era preciso ter um cadáver, ou ao menos uma silhueta de giz, para haver uma expulsão. Não me lembro de o lance ter sido nada que não fosse visto semana sim, semana não. Na verdade, eu estava perto do árbitro e falei para não expulsá-lo”.
Antes da expulsão, o City já havia inaugurado o placar quando Joe Hayes escorou na pequena área um cruzamento vindo da linha de fundo pelo lado esquerdo aos 15 minutos da etapa final. Com um a mais, a equipe de Les McDowall selaria a classificação a dois minutos do fim: após cobrança de escanteio, o goleiro do United, Ray Wood, não conseguiu segurar a bola, que sobrou para Don Revie – ele mesmo, o futuro técnico do Leeds e da seleção inglesa – pegar de primeira e mandar às redes, decretando o 2 a 0 para o êxtase da torcida da casa.
Após despachar o rival, o City ainda superaria o Luton, o Birmingham e o Sunderland e chegaria à decisão. Mas, como em 1926, seria novamente derrotado, desta vez pelo Newcastle. No ano seguinte, no entanto, levantaria o caneco vencendo o Birmingham na final. Quanto ao dérbi, duas semanas após aquele confronto copeiro de janeiro de 1955, os Citizens, ainda não satisfeitos, iriam a Old Trafford para sapecar um 5 a 0 no United.
Manchester United 3×0 Manchester City (1970)
Este foi talvez o confronto mais marcado pela inversão de expectativas. O United vinha em declínio desde a conquista da Copa dos Campeões em 1968. O volante Nobby Stiles e o atacante escocês Denis Law sofreram com lesões ao longo daquela temporada 1969/70 e eram baixas para o duelo, assim como outro grande ídolo do período, o ponta norte-irlandês George Best. Matt Busby havia deixado o comando ao fim da temporada anterior, tornando-se diretor. Seu lugar era ocupado de maneira não muito convincente por Wilf McGuinness.
O City, por outro lado, estava em alta: comandado pela dupla Joe Mercer-Malcolm Allison, tinha sido campeão inglês em 1968, da FA Cup em 1969 e naquela temporada levantaria os canecos da Recopa Europeia e a Copa da Liga – na qual, inclusive, havia despachado o rival nas semifinais em ida e volta, em dezembro. Um mês antes, em Maine Road, também havia derrotado os Red Devils por um inapelável 4 a 0 no primeiro confronto pela liga – mais adiante, em março, levaria a melhor mais uma vez no segundo, em Old Trafford, por 2 a 1.
Apesar de o United estar numa posição ligeiramente acima na tabela da liga e de a partida daquele 24 de janeiro de 1970 pela quarta fase da competição estar marcada para o estádio dos Red Devils, o City era considerado nítido favorito. Em campo, porém, o United foi amplamente superior em todos os aspectos. Com o capitão Tony Book escalado sem condições físicas ideais e uma partida indiferente de seus atacantes, o City foi presa fácil desde o início, quando o United teve um gol salvo em cima da linha e outro anulado por impedimento.
Pouco antes do intervalo, o United abriu o placar quando Bobby Charlton foi derrubado na área e o ponta Willie Morgan converteu o pênalti. Na etapa final, aos sete minutos, uma reposição do goleiro Alex Stepney encontrou o atacante Brian Kidd ganhando na corrida da defesa do City e batendo cruzado para ampliar. E aos 19, uma falta batida pelo City na barreira gerou um contra-ataque letal do United, que terminou com Brian Kidd arrancando sozinho e tocando por cobertura sobre o goleiro Ken Mulhearn para selar a classificação.
Personagem do jogo, Kidd teria longa história associada à dupla de Manchester. Depois de atuar pelo United até o rebaixamento em 1974, ele passaria dois anos no Arsenal antes de retornar à cidade para defender o City por três temporadas. E após pendurar as chuteiras, seria recrutado por Alex Ferguson para comandar a base dos Red Devils e posteriormente ser seu auxiliar, ficando mais uma década em Old Trafford. Mais tarde, ele também exerceria os mesmos cargos no City entre 2009 e 2013, chegando a ser técnico interino.
Manchester United 1×0 Manchester City (1987)
Este confronto pela terceira fase da competição foi o primeiro dérbi de Alex Ferguson, que viera do Aberdeen para assumir o comando do United em novembro de 1986, no lugar de Ron Atkinson. Mas se os Red Devils viveram período de altos e baixos naqueles anos 1980, o City amargava um declínio prolongado que se estenderia também pela década seguinte. Para se ter uma ideia, entre março de 1981 e outubro de 2002, os azuis só venceriam o rival uma única vez – ainda que por goleada: 5 a 1 em Maine Road em setembro de 1989.
O confronto copeiro, marcado para 10 de janeiro de 1987, seria disputado em Old Trafford, onde o United não perdia para o City desde o fatídico 27 de abril de 1974, quando um gol de calcanhar de Denis Law (que retornara aos azuis para encerrar a carreira depois de fazer história nos Red Devils) selou, junto com outros resultados do dia, o rebaixamento da equipe vermelha. Mas em 1987 era o City que contava com uma equipe frágil e fadada ao descenso – o segundo em cinco temporadas – ao fim de uma campanha melancólica.
O único gol daquela partida, válida pela terceira fase da competição, foi marcado aos 19 minutos da etapa final. O zagueiro Steve Redmond, do City, não conseguiu afastar a jogada pela lateral e a bola voltou ao United, que armou uma triangulação entre Norman Whiteside, Gordon Strachan e Peter Davenport. Este caiu na área num choque com um defensor, mas o árbitro mandou o lance seguir. A bola então sobrou para Whiteside chutar rasteiro, entre o surpreso goleiro Perry Suckling e a trave, garantindo a passagem dos Red Devils.
Manchester United 2×1 Manchester City (1996)
O United passou toda a década de 1990 sem perder o dérbi. Com efeito, a metade final daquele decênio foi provavelmente o período de maior discrepância entre os rivais na história, superando a vantagem do City nos anos 1920 e 1930. Basta lembrar que em 1998/99, enquanto os Red Devils celebravam a conquista tríplice da Premier League, da FA Cup e da Liga dos Campeões, os Citizens pagavam seus pecados na Division Two, a terceira divisão da época, obtendo o acesso à segunda numa dramática decisão de playoffs contra o Gillingham.
Mesmo assim, nesse confronto pela quinta fase da competição disputado em Old Trafford no dia 18 de fevereiro de 1996, os Red Devils quase se complicaram contra o enfraquecido rival. A reação só começou a vir num lance carregado de polêmica protagonizado pelo árbitro Alan Wilkie e que entrou para o anedotário do dérbi. O City saiu na frente logo aos dez minutos de partida quando Georgi Kinkladze fez um ótimo passe para o alemão Uwe Rösler arrancar pelo meio da zaga do United e finalizar encobrindo Peter Schmeichel.
Empurrado pela sua torcida, o United se viu na obrigação de reagir. E depois de o goleiro alemão Eike Immel fazer ótima defesa numa cabeçada, os Red Devils ganharam outro escanteio. E aí veio o lance controverso, um pênalti apitado pelo árbitro por um agarrão na área que surpreendeu até os jogadores do United. Eric Cantona se apresentou e converteu a cobrança, deixando tudo igual aos 38 minutos. Foi o que bastou para que o abafa dos donos da casa se tornasse quase inevitável. A dúvida era por quanto tempo o City aguentaria.
A resistência cedeu aos 32 minutos da etapa final: Ryan Giggs gingou na frente da marcação e fez o passe à frente para Phil Neville. O lateral desceu pela esquerda, foi à linha de fundo, cruzou para trás e o ponteiro Lee Sharpe pegou de primeira, na veia, sem chances para Immel. O desfecho da temporada para os Citizens traria mais um rebaixamento: a equipe ficaria à frente dos também condenados Queens Park Rangers e Bolton, mas seria superado no saldo de gols por Coventry e Southampton, com quem compartilhava a pontuação.
Já o United engrenaria uma sequência de vitórias que o fariam ultrapassar o Newcastle na ponta da Premier League, algo considerado impensável em certa altura da temporada. E, para completar a celebração, a equipe de Alex Ferguson conquistaria também a FA Cup, eliminando Southampton e Chelsea e batendo o Liverpool por 1 a 0 na final em Wembley. Além de completar a segunda dobradinha da história do clube, a nona conquista da copa levava os Red Devils a destronarem o Tottenham do posto de maior vencedor da competição.
Manchester United 4×2 Manchester City (2004)
Na virada do século, o City havia feito o caminho de volta da terceira para a primeira divisão, mas tornaria a cair depois de só uma temporada, a de 2000/01. O acesso definitivo, que o estabilizaria até hoje na elite, viria em 2002. Em maio do ano seguinte, o clube se despediria do velho estádio de Maine Road, mudando-se para o novo City of Manchester (mais tarde, Etihad) Stadium. Nessa primeira campanha na nova casa, o time mesclando jovens e veteranos treinado por Kevin Keegan chegaria inicialmente a brigar na parte de cima da tabela.
O United, por sua vez, vivia outro tipo de transição, após ter conquistado o título da liga no ano anterior. Aquela seria a primeira temporada sem o ídolo e prata da casa David Beckham, vendido ao Real Madrid, e a primeira com Cristiano Ronaldo, trazido do Sporting. Se na liga a equipe não mostrou fôlego para acompanhar o passo dos Invincibles do Arsenal, terminando em terceiro, o foco passou para a FA Cup, torneio em que os rivais de Manchester se encontraram pela quinta fase, no dia 14 de fevereiro de 2004, em Old Trafford.
Naquela altura, o City já vinha em declínio, aproximando-se da zona de rebaixamento, da qual, no entanto, conseguiria manter sempre uma distância segura. Favorito, o United saiu na frente aos 33 minutos quando Paul Scholes apareceu na pequena área para escorar um cruzamento de Ryan Giggs da esquerda. Mas quatro minutos depois, quando Gary Neville foi expulso após acertar uma cabeçada em Steve McManaman, num lance em que o lateral havia tentado cavar um pênalti, parecia ter equilibrado a disputa e deixado o jogo em aberto.
Assim, nos primeiros 25 minutos da etapa final, o City forçou o goleiro Tim Howard a praticar três grandes defesas. Mas acabou castigado quando Cristiano Ronaldo cruzou da direita e o holandês Ruud Van Nistelrooy surgiu na segunda trave para concluir. Daí em diante, os gols saíram a granel. Dois minutos depois, Cristiano Ronaldo fez o terceiro. Aos 32, o alemão Michael Tarnat diminuiu para o City. Aos 34, Van Nistelrooy voltou a ampliar finalizando em cima da linha. E aos 41, Robbie Fowler descontou de novo para o City, fechando o placar.
O United, que já havia superado Aston Villa e Northampton nas fases anteriores, venceria mais adiante o Fulham nas quartas de final, encerraria o sonho da dobradinha dos Gunners no campo neutro do Villa Park nas semifinais e arrebataria o título diante do Millwall por 3 a 0 no Millenium Stadium, em Cardiff. Seria a quinta e última conquista de Alex Ferguson na competição.
Manchester City 1×0 Manchester United (2011)
Esse foi o primeiro dérbi de Manchester disputado em Wembley na história e o segundo por uma semifinal, depois de 1926. E como daquela vez, 85 anos antes, deu City. Entre o confronto anterior e esse, o clube havia sido adquirido pelo tailandês Thaksin Shinawatra e revendido um ano depois ao Abu Dhabi United Group, fundo de investimentos liderado pelo xeique emiratense Mansour bin Zayed Al Nahyan. E para aquela temporada 2010/11, a equipe dirigida desde a campanha anterior pelo italiano Roberto Mancini receberia reforços de peso.
O pacote de contratações incluía os defensores Jérôme Boateng (Hamburgo) e Aleksandar Kolarov (Lazio), os meias Yaya Touré (Barcelona), James Milner (Aston Villa) e David Silva (Valencia) e os atacantes Mario Balotelli (Internazionale) e Edin Džeko (Wolfsburg). Destes, no entanto, apenas Kolarov, Yaya Touré, David Silva e Balotelli estariam entre os titulares no dérbi do dia 16 de abril de 2011. Já do lado do United, que liderava a liga com campanha consistente, a grande baixa era Wayne Rooney, substituído pelo búlgaro Dimitar Berbatov.
E Berbatov seria o primeiro personagem do jogo, ao perder duas chances claras quase seguidas – na primeira, detido por Joe Hart e na segunda, finalizando por cima do gol na pequena área. Ainda na etapa inicial, o City responderia criando quatro chances: uma com Gareth Barry acertando a rede pelo lado de fora; outra com Balotelli num chute forte de longe obrigando Van der Sar a uma boa defesa; uma finalização de primeira, por cima, do zagueiro Joleon Lescott após cobrança de escanteio; e um chute de Vincent Kompany que roçou a trave.
O City, no entanto, teria de esperar a etapa final para converter sua superioridade em gol. E ele viria após uma lambança na defesa do United, com erros sucessivos de saída de bola de Van der Sar e do volante Michael Carrick, que perderia a jogada para Yaya Touré. O marfinense invadiria a área e tocaria por entre as pernas do goleiro holandês, decretando a vitória dos Citizens. O United teria sua melhor chance numa falta batida por Nani que parou no travessão. Mas logo ficaria sem Paul Scholes, expulso por entrada dura em Pablo Zabaleta.
Após a vitória no dérbi, o City avançaria para sua primeira final da competição em 30 anos, na qual derrotaria, também em Wembley, o Stoke por 1 a 0 com outro gol de Yaya Touré. Seria a quinta conquista da FA Cup pelo clube, pondo fim a uma seca de títulos que vinha desde a vitória na Copa da Liga em 1976 diante do Newcastle no mesmo palco. O United, por sua vez, superaria o revés menos de um mês depois ao confirmar seu 19º título da liga, tornando-se de maneira isolada o maior campeão inglês, à frente do Liverpool.
Manchester City 2×3 Manchester United (2012)
O primeiro – e ainda o único – dérbi pela FA Cup disputado no rebatizado Etihad Stadium. Os dois rivais já haviam duelado naquela temporada pela Community Shield, em Wembley, com vitória do United por 3 a 2, mas o confronto que chamou mesmo a atenção foi o seguinte, pela Premier League, no dia 23 de outubro de 2011, no qual o City repetiu o feito de 1926 e amassou o United dentro de Old Trafford por 6 a 1. E a chance do troco dos Red Devils veio rápido, pouco mais de dois meses depois, em 8 de janeiro, pela FA Cup.
Ao fim da temporada anterior, o United perdera a experiência de Edwin Van der Sar, Gary Neville e Paul Scholes, que se aposentariam (embora este último logo voltasse), enquanto o City exibiria um esquadrão fortíssimo, mantendo seus astros da campanha anterior mais o reforço do atacante argentino Sergio Agüero. Os azuis voltariam a vencer a liga naquela temporada, superando o rival no saldo de gols na última rodada e encerrando um jejum de 44 anos. Mas no duelo da copa, o rival levaria a melhor, mesmo jogando como visitante.
O duelo outra vez seria marcado por uma expulsão controversa, fazendo lembrar o episódio de Allenby Chilton em 1955: o zagueiro e capitão do City, Vincent Kompany, levaria o cartão vermelho aos 12 minutos do primeiro tempo após uma dividida com Nani. Dois minutos antes, o United já havia aberto o placar quando Rooney abriu o jogo na direita para Antonio Valencia e apareceu na área para cabecear, vencendo o goleiro Costel Pantilimon. No prejuízo, o City tentou reagir num chute de Agüero, mas Anders Lindegaard fez bela defesa.
E os azuis partiriam para o intervalo em situação ainda mais delicada, quase irreversível, depois que Danny Welbeck ampliou para o United aos 30 com um bonito voleio após bola mal afastada pela defesa e, dez minutos mais tarde, o mesmo Welbeck foi derrubado na área por Kolarov. Na cobrança, Pantilimon salvou o chute de Rooney, mas não a cabeçada do atacante no rebote. Com a desvantagem de três gols e um jogador a menos, a missão do City parecia impossível, mas o time se reorganizou e fez um grande segundo tempo.
Logo aos três minutos, Kolarov cobrou falta no canto de Lindegaard e diminuiu. Aos 18, a reação prosseguiu quando Scholes perdeu a bola na lateral esquerda para Milner, que centrou rasteiro buscando Kun Agüero. A primeira finalização do argentino foi salva por Lindegaard, mas o rebote voltou a seus pés para marcar o segundo do City. Os azuis ainda protestaram um possível pênalti quando um cruzamento de Kolarov tocou no braço de Phil Jones, mas o árbitro ignorou, assim como fizera em outro lance de Kolarov em Valencia.
Se para o City, o consolo para aquela derrota seria o fim do jejum da liga, para o United, apesar do resultado, a temporada seria decepcionante. Além de perder o campeonato no saldo de gols, cairia na FA Cup logo na fase seguinte diante do Liverpool e na Copa da Liga para o Crystal Palace. Já na Liga dos Campeões, a eliminação viria ainda na fase de grupos, com o terceiro lugar na chave (atrás de Benfica e Basel) encaminhando a equipe para a Liga Europa, na qual, após tirar o Ajax, cairia nas oitavas de final diante do Athletic Bilbao.



