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Premier League: Por que os valores das contratações não vão parar de subir

Até agora, nada indica que o mercado encontrou seu teto, apenas que o recorde de ontem tende a se tornar a base de amanhã

O mercado de transferências do futebol bateu todos os seus próprios recordes em 2025. A janela de 2026, que ainda vai fechar em seis semanas, já constrói um caso convincente de que o parâmetro do ano passado também não vai sobreviver.

Segundo o Relatório Global de Transferências da Fifa, os clubes gastaram um recorde de 13,08 bilhões de dólares (R$ 66,3 bilhões) em taxas de transferências no futebol durante 2025, um aumento de 52,3% em relação a 2024 e 35,6% acima do recorde anterior, estabelecido em 2023.

Foi a primeira vez que os gastos globais superaram a marca de 10 bilhões de dólares (R$ 50,7 bilhões), com um recorde de 24.558 transferências internacionais concluídas ao longo do ano e 1.214 clubes pagando taxas.

A janela de 2026 abriu em 15 de junho para os clubes da Premier League. Em meados de julho, com a Copa do Mundo ainda em andamento, o recorde britânico de transferências já havia sido quebrado duas vezes em poucos dias.

Mercado da bola

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Morgan Rogers: a janela de transferências que já reescreveu a história

O Manchester City pagou ao Nottingham Forest 116 milhões de libras (R$ 789 milhões) pelo meio-campista Elliot Anderson, tornando o jogador de 23 anos o britânico mais caro da história. O recorde durou menos de duas semanas.

Em seguida, o Chelsea acertou um acordo de 117 milhões de libras (R$ 796 milhões) com o Aston Villa por Morgan Rogers, de 23 anos, superando a taxa de Anderson e estabelecendo um novo recorde britânico. Rogers assinou contrato de sete anos com o time de Xabi Alonso após contribuir com 14 gols e 12 assistências em 55 partidas pelo Villa na temporada passada, além de conquistar 22 convocações pela seleção inglesa.

Morgan Rogers em ação pelo Aston Villa
Morgan Rogers em ação pelo Aston Villa (Foto: Lee Keuneke / Every Second Media / IMAGO)

O Tottenham investiu mais de 185 milhões de libras (R$ 1,26 bilhão) somente em dois meio-campistas, pagando 85 milhões de libras (R$ 578 milhões) ao West Ham pelo português Mateus Fernandes antes de fechar um acordo de até 100 milhões de libras (R$ 680 milhões) com o Newcastle por Sandro Tonali. O negócio por Fernandes quebrou o recorde anterior do próprio Tottenham, estabelecido apenas 24 horas antes do acerto com o Tonali.

As três transferências mais caras da janela de 2026 envolvem apenas negociações entre clubes da própria Premier League. Esse detalhe, por si só, mostra onde está o centro de gravidade do mercado.

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O papel desproporcional da Premier League nos gastos do mercado

Nenhuma liga remodelou o mercado global de transferências de forma tão decisiva quanto a Premier League, e a janela de 2026 reforça essa posição em todos os níveis.

Os clubes da Premier League gastaram mais de 3 bilhões de libras (R$ 20,4 bilhões) somente na janela de 2025, segundo a Deloitte, superando o recorde anterior de 2,4 bilhões de libras (R$ 16,32 bilhões), estabelecido em 2023, por aproximadamente 650 milhões de libras (R$ 4,42 bilhões) e representando 51% do total de gastos brutos entre as cinco principais ligas da Europa.

Esses gastos são sustentados por uma receita que nenhuma outra competição doméstica consegue igualar. Segundo a 35ª edição do Annual Review of Football Finance, da Deloitte, o mercado europeu de futebol atingiu 40,2 bilhões de euros (R$ 234,3 bilhões) em 2024-25, superando a marca de 40 bilhões de euros pela primeira vez, com os clubes da Premier League gerando 7,25 bilhões de euros (R$ 42,3 bilhões), quase o dobro dos 3,8 bilhões de euros (R$ 22,15 bilhões) produzidos por La Liga e Bundesliga juntas.

O presidente de La Liga, Javier Tebas, tem sido um dos críticos mais ativos, classificando a Premier League como um “mercado dopado” e alertando que taxas infladas podem desestabilizar o futebol europeu como um todo.

Quando o Chelsea consegue levantar cerca de 130 milhões de libras (R$ 884 milhões) com a venda de Marc Cucurella, Andrey Santos e Tyrique George para financiar a compra de Rogers por 117 milhões de libras (R$ 796 milhões), a lógica autossustentável dos gastos da Premier League fica evidente.

Os clubes vendem entre si a preços recordes e usam o dinheiro para financiar o próximo recorde.

Tonali aplaude torcedores do Newcastle
Tonali aplaude torcedores do Newcastle (Foto: Lee Keuneke / Every Second Media / Imago)

Por que os valores das transferências continuam subindo

Receitas mais altas permitem que os clubes gastem mais. Os clubes vendedores sabem disso e cobram o preço de acordo. Direitos de transmissão, premiação de competições da Uefa, formatos ampliados e o Mundial de Clubes da Fifa aumentaram o volume de dinheiro no futebol de elite.

O Relatório Global de Transferências da Fifa confirma que taxas acima de 20 milhões de dólares (R$ 101,4 milhões) representaram apenas 3,8% de todas as transferências em 2025, mas responderam por quase 50% do total gasto. A concentração de dinheiro no topo é deliberada, não acidental.

Contratos mais longos também deslocaram o poder de negociação para os clubes vendedores. Um jogador contratado por cinco anos aos 21 anos, como foi o caso de Rogers no Villa e de Fernandes no West Ham, dá ao clube vendedor uma vantagem enorme. O West Ham foi rebaixado da Premier League, mas ainda assim exigiu 85 milhões de libras (R$ 578 milhões) por Fernandes. E conseguiu.

A demanda por jogadores mais jovens com alto valor de revenda também se intensificou. Anderson tem 23 anos, Rogers tem 23, Fernandes tem 22 e Tonali tem 26. Os clubes não estão apenas comprando jogadores, estão comprando ativos que se valorizam e podem ser revendidos com lucro.

A regulação financeira mudou a forma, não o tamanho do mercado de transferências

As Regras de Sustentabilidade Financeira da Uefa e da Premier League foram criados para incentivar a disciplina financeira. Eles mudaram a forma como os clubes estruturam seus negócios, não o quanto acabam gastando.

A principal ferramenta continua sendo a amortização: em vez de lançar uma taxa de transferência como custo integral em um único ano, os clubes a distribuem ao longo do contrato do jogador para fins contábeis. O Chelsea explorou essa brecha oferecendo contratos de até oito anos, reduzindo significativamente seus custos anuais reportados. A Uefa reagiu limitando a amortização a cinco anos, independentemente da duração do contrato, regra que a Premier League depois também adotou.

Uma contratação de 117 milhões de libras (R$ 796 milhões) em um contrato de cinco anos ainda aparece nos balanços do clube como aproximadamente 23 milhões de libras (R$ 156,4 milhões) por ano. Transferências caras continuam totalmente viáveis dentro das regras, e os clubes se adaptaram.

O Chelsea firmou um acordo de quatro anos com a Uefa por violar as regras financeiras e será submetido às normas financeiras da entidade mesmo sem disputar competições europeias em 2026-27. Ainda assim, o clube fechou a transferência britânica mais cara da história apenas quatro dias após o início da temporada.

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Receitas recordes, prejuízos persistentes

O aumento nas taxas de transferência não resultou em balanços financeiros mais saudáveis no futebol. O relatório European Club Finance and Investment (Finanças e Investimentos em Clubes Europeus), da Uefa, projeta que os clubes de elite da Europa vão registrar prejuízo agregado antes de impostos de aproximadamente 1,1 bilhão de euros (R$ 6,41 bilhões) em 2025, apesar de receitas que devem superar 30 bilhões de euros (R$ 174,9 bilhões) pela primeira vez.

Cerca de 50% dos clubes da primeira divisão deve registrar lucro antes de impostos em 2025, acima dos 38% de 2024, mas os prejuízos no topo do futebol europeu continuam significativos.

O Chelsea registrou um prejuízo antes de impostos de 355 milhões de libras (R$ 2,41 bilhões) em 2024-25, o maior déficit anual já reportado por um clube inglês. O número foi registrado antes do acordo por Rogers ser fechado. Os custos com salários de funcionários que não são jogadores subiram 42% entre 2021 e 2024 entre os clubes europeus, com os salários de equipes administrativas e comerciais subindo 14% somente em 2025, segundo a Uefa.

O futebol tem redefinido constantemente o que significa uma transferência recorde. A marca de 100 milhões de libras (R$ 680 milhões) já pareceu excepcional. Rogers e Anderson já a superaram neste mercado. O acordo por Tonali ainda pode alcançá-la.

Elliot Anderson em ação pela seleção inglesa
Elliot Anderson em ação pela seleção inglesa (Foto: Thor Wegner / DeFodi Images / IMAGO)

Tim Bridge, da Deloitte, alertou que a expansão das competições da Uefa e da Fifa trouxe benefícios financeiros, mas que um mercado cada vez mais saturado “corre o risco de priorizar o ganho de curto prazo em detrimento da prosperidade de longo prazo”. Seus analistas projetam que o crescimento das receitas entre as cinco principais ligas da Europa vai desacelerar em 2025-26 e 2026-27, com algumas ligas devendo estagnar ou até recuar.

Se o crescimento das receitas perder força, a pressão sobre os clubes para manter o ritmo recorde de transferências vai se intensificar. A janela de 2026 ainda tem seis semanas antes de fechar. Vários dos maiores negócios do mercado ainda não foram anunciados. Até agora, nada indica que o mercado encontrou seu teto, apenas que o recorde de ontem tende a se tornar a base de amanhã.

Foto de Axel Clody

Axel ClodyColaborador

Axel acompanha de perto todas as principais histórias do mundo do futebol, embora mantenha um carinho especial pelos clubes do norte da França — do Lens ao Lille, passando por Dunkerque — desde que se mudou da região

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