Inglaterra

Como “You’ll Never Walk Alone” se tornou um hino da torcida do Liverpool

Gerry Marsden, líder do grupo Gerry and the Pacemakers, morreu neste dia 3 de janeiro de 2021, aos 78 anos, vítima de uma infecção no coração. A banda ficou conhecida pela música “You’ll Never Walk Alone”, que se tornou um hino para a torcida do Liverpool. Segundo a família, ele não chegou a se contaminar com a COVID-19. Deixa sua esposa, Pauline, com quem era casado desde 1965, e duas filhas, Yvette e Victoria. Contamos aqui como a música do seu grupo tornou-se símbolo de um dos maiores clubes do mundo.

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O texto que você vai ler a seguir é parte do especial sobre os 125 anos do Liverpool. Nele contamos sobre como surgiu essa famosa seção da arquibancada de Anfield Road, incluindo a história de como a música do grupo de Liverpool ganhou a importância que tem hoje.

Um hit, uma torcida, a eternidade

Stephen F. Kelly, autor do livro The Kop: Liverpool’s Twelfth Man, tentou traçar as origens da cantoria anárquica da Spion Kop. A melhor explicação que encontrou foi uma fórmula simples: o sucesso do Liverpool nos anos sessenta combinado com o mais puro tédio. Como o time de futebol brilhava sob o comando de Bill Shankly, as pessoas precisavam chegar horas antes do apito inicial. Como não tinham nada para fazer, começavam a cantar as músicas que tocavam nos alto-falantes – Anfield foi um dos primeiros estádios ingleses a ter um DJ -, geralmente os dez maiores hits do momento, do décimo ao primeiro, em uma espécie de contagem regressiva até a bola rolar. Sabem qual banda da cidade mandava bem nos anos sessenta? Um quarteto formado por John, Paul, George e Ringo.

Outra música que entrou nas paradas de sucesso daquela época foi uma versão de uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para um musical da Broadway, chamado Carousel. Na peça, quem a entoava era um personagem chamado Nettie Fowler, primo da protagonista, porque o que seria do futebol sem suas maravilhosas coincidências? A banda liverpuldiana Gerry and the Pacemakers gravou-a para um dos seus discos, depois de convencer o gerente Brian Epstein e o produtor George Martin, colaboradores dos Beatles, que achavam-na “lenta demais”. Em 13 de outubro de 1963, ela estreou no top 10 e, portanto, seria tocada em Anfield no jogo seguinte. Seis dias depois, o Liverpool venceu o West Brom, por 1 a 0, gol de Gordon Milne. Esta partida, da campanha do primeiro título inglês dos Reds desde 1945, e o primeiro depois do rebaixamento, foi provavelmente a primeira vez que a Kop cantou You’ll Never Walk Alone.

A música passou quatro semanas na primeira posição e nove no top 10. O sucesso levou a banda Gerry and the Pacemakers a se apresentar no famoso Ed Sullivan Show, onde, por acaso, os Beatles lançaram-se mundialmente. O Liverpool estava em turnê nos Estados Unidos e os jogadores foram ao estúdio acompanhar o show. “Eu disse ao Ed: vamos chamar os rapazes para o palco e vamos todos cantar You’ll Never Walk Alone. Cantamos a música para 66 milhões de pessoas ao redor dos Estados Unidos”, disse Gerry Marsden, o líder da banda, ao site oficial do clube. Ao sair do palco, foi abordado por Bill Shankly: “Gerry, meu filho, eu lhes dei um time de futebol, e você nos deu uma música”.

You’ll Never Walk Alone transcendeu as paradas britânicas e se firmou como um hino da torcida do Liverpool, a ponto de ser incorporada ao escudo do clube e aos portões de Anfield. Mesmo depois de sair de moda, era pedida antes das partidas. A letra traduz como poucas a poderosa relação entre uma torcida e seu clube de futebol: “Vá em frente / Vá em frente / Com esperança no coração / E você nunca caminhará sozinho / Você nunca caminhará sozinho“.

Claro que as arquibancadas do Liverpool não inventaram a cantoria em estádios, mas havia algo diferente no barulho que emanava da Spion Kop, como relata Kelly, em seu livro:

“Havia uma tradição de canções comunitárias em Anfield, desde os anos do pós-Guerra, mas era algo geralmente organizado. Cantos comunitários em Wembley também eram uma tradição nacional; qualquer torcedor de futebol sabia que, depois de balançar o papel com as letras para as câmeras da televisão, você começaria a acompanhar o hino da final da Copa da Inglaterra, Abide with Me. Obviamente, havia também o Cardiff Arms Park (estádio de rúgbi em Gales), onde a cantoria do público foi elevada à forma de arte e a batalha de hinos de Land of my Fathers Bread of Heaven era sempre capaz de derramar lágrimas e inspirava o time galês a alcançar glórias cada vez maiores. Mas o canto na Kop era diferente. Não era organizado. Não havia um maestro, um condutor, e as músicas eram as favoritas do povo na época”.

Stephen F. Kelly, no livro The Kop: Liverpool’s Twelfth Man

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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