Inglaterra

Como Stevie Wonder ajudou a resgatar a história do primeiro jogador profissional negro

Primeiro jogador profissional negro da história do futebol, Arthur Wharton completaria hoje 150 anos. Sua história por muito tempo esteve esquecida, sendo lembrada em alguns momentos pontuais, como nos anos 1980, quando um historiador chamado Ray Jenkins começou a pesquisar sobre sua vida, e em 1996, quando outro historiador, Phil Vasili, publicou um livro sobre Wharton. A última tentativa de trazer de novo à tona os feitos do ganês foi bem-sucedida e culminou na estátua de quase cinco metros de altura que hoje faz parte do Centro de Treinamento da seleção inglesa. A história por trás da homenagem gira em torno do esforço de um artista que, fascinado por Wharton, percorreu um longo caminho para colocar mais uma vez em evidência sua façanha, tendo ajuda fundamental de uma figura emblemática: Stevie Wonder.

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Shaun Campbell, um artista de 54 anos da cidade de Darlington, primeiro lar de Wharton após sua mudança para a Inglaterra nos anos 1880, foi convidado para, em 2007, dar uma palestra na prefeitura de Middlesbrough sobre a história dos negros na música, como parte das celebrações do Mês da História Negra, anualmente comemorado em outubro no Reino Unido. Lá, Campbell viu de relance um planfeto com o nome de Wharton caído no chão. Pegou o papel e começou a ler sobre a história do primeiro jogador profissional negro no futebol. “Eu não conseguia acreditar no que estava lendo. Este jovem conquistara tanto, e o fizera em Darlingtoon, no Condado de Durham, a cidade em que eu morava”, relembra ele em entrevista ao Guardian.

Tocado pela façanha de Wharton, Campbell pintou um quadro do ex-goleiro em seu ateliê, aberto ao público, como forma de expor a história do ganês. Uma das pessoas a ver a produção do quadro foi até o jornal local Northern Echo, e dias depois a tentativa de resgate da história de Wharton pelo artista era conhecida por um público ainda maior. O periódico chegou a publicar que Campbell começara uma campanha em torno de Wharton, o que ainda não era verdade, mas, levado por seu interesse no personagem e pela repercussão da matéria, o artista decidiu fazê-lo.

Em setembro de 2008, em Birmingham para participar de uma feira de troca de  móveis, uma oportunidade caiu do céu para impulsionar o projeto de Campbell. “Junto com meu ingresso (para a feira), havia um panfleto para um show do Stevie Wonder. Eu pensei: ‘Vou ficar, assistir ao show, será ótimo’. Então pensei melhor: se alguém no mundo entende a importância de se abraçar a diversidade cultural e a igualdade para todos, este alguém é ele”, conta Campbell.

À época, o artista já havia conseguido o apoio de George Boateng, também ganês e capitão do Middlesbrough, na campanha de conscientização da história de Wharton. Com uma figura proeminente a seu lado, o encontro com Stevie Wonder foi possibilitado. Os dois subiram ao palco ao lado da lenda da Motown, que concedeu a Campbell o microfone para que o artista contasse brevemente a história do ex-goleiro. O espaço dado não foi a única contribuição do músico, que também recomendou que o artista expandisse a campanha, fazendo-a não apenas sobre a criação de uma estátua, mas também de conscientização sobre a história do jogador. Nascia então, em 2009, a Fundação Arthur Wharton.

Em 2009, a Uefa fez uma doação de £17.500 à campanha. Mais tarde, foi a vez de a FA e a Fifa também declararem apoio à causa de Campbell. O artista ainda percorreu um longo caminho com uma miniatura da estátua, conseguindo a ajuda de figuras importantes no futebol, como Rio Ferdinand, Theo Walcott e Viv Anderson.

Todo o esforço de Shaun Campbell pelo resgate foi recompensado, com a inauguração em outubro do ano passado da estátua de Arthur Wharton não apenas em Darlington, mas em St. George’s Park, moderno centro de treinamento da seleção inglesa. Mais do que uma homenagem, a escultura é um lembrete diário dos feitos possíveis quando oportunidades iguais são dadas. Algo essencial para o momento de centro atrito pelo qual passa o futebol do país.

Na época da criação da estátua em St. George’s Park, contamos aqui na Trivela a história de Arthur Wharton, que você pode conferir abaixo.

O primeiro negro a se tornar jogador profissional ganhou uma bela homenagem na Inglaterra

Por Leandro Stein

As estátuas em frente a estádios ou centro de treinamentos servem para contar a história de grandes personagens do futebol. Muitos deles tornados mitos. E outros deles pouco conhecidos, mas que deveriam ser mais respeitados. Por isso mesmo, a Football Association teve uma iniciativa louvável ao inaugurar um monumento em homenagem a Arthur Wharton, primeiro jogador negro da história a se tornar profissional. A estátua fica exposta em St. George’s Park, a moderna base construída pela FA à seleção inglesa.

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Wharton nasceu em Accra, atual capital de Gana, que então se chamava Costa do Ouro e era uma das posses imperiais dos britânicos. Filho de um descendente de escoceses e granadinos e de uma nobre tribal, o garoto viajou aos 17 anos para se formar como missionário cristão na Inglaterra, mas logo se apaixonou pelo futebol. Primeiro começou jogando pelo Darlington até chegar ao Preston North End, um dos melhores times do país durante a década de 1880, se juntando ao time já profissionalizado como amador. Era goleiro, mas também quebrava o galho atuando na linha, como ponta.

Mais do que jogador de futebol, Wharton era multidesportista. Competia também no atletismo, no ciclismo e no críquete. Dono de uma capacidade física impressionante, ele chegou a ser recordista mundial dos 100 metros rasos pela Associação Atlética Amadora, completando a prova em 10 segundos. Justamente para se dedicar ao atletismo é que ele deixou o Preston, meses antes da conquista da primeira edição do Campeonato Inglês pelos Invincibles. Entretanto, a proposta de ganhar dinheiro com o futebol o levou de volta aos gramados.

Em 1889, o Rotherham ofereceu um contrato profissional a Wharton, o primeiro a um jogador negro. Permaneceu cinco anos no clube, disputando por duas temporadas a segunda divisão inglesa. Na sequência da carreira, o ganês rodou por outros clubes do país, entre eles o Sheffield United, pendurando as chuteiras em 1902. Morreu pobre, em 1930, com problemas de alcoolismo. Sua memória, no entanto, é para sempre lembrada. Além da estátua no St. George’s Park, Wharton também possui um pequeno busto na sede da Fifa.

The statue of Arthur Wharton that has been unveiled at St. George's Park, Burton-upon-Trent. PRESS ASSOCIATION Photo. Picture date: Thursday October 16, 2014.See PA story SOCCER Burton. Photo credit should read Martin Rickett/PA Wire. RESTRICTIONS: Use subject to FA restrictions. Editorial use only. Commercial use only with prior written consent of the FA. No editing except cropping. Call +44 (0)1158 447447 or see www.paphotos.com/info/ for full restrictions and further information

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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