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Como a crise financeira da Rússia afeta o futebol local e o da Inglaterra

O torcedor médio de Arsenal e Chelsea não têm o costume de acompanhar a cotação do rublo, mas deveria começar. A grave crise financeira pela qual passa a Rússia pode afetar decisivamente o futuro dos dois clubes. Semana passada, em apenas um dia, o rublo caiu 11% em relação ao dólar, a queda diária mais acentuada desde 1998, quando o país passou por outra crise significativa. Isso significou uma perda de R$ 27 bilhões para os membros da oligarquia mais rica da região.

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O que o futebol inglês têm a ver com isso? Dois membros dessa oligarquia são Roman Abramovich, dono do Chelsea, e Alisher Usmanov, proprietário de 30% das ações do Arsenal. Abramovich perdeu U$ 450 milhões (R$ 1,2 bilhão) em 48 horas, e Usmanov, U$ 809 milhões (R$ 2,2 bilhões). O rublo acumula uma desvalorização superior a 50% em 2014, e há previsões de que a economia da Rússia pode recuar até 5% ano que vem. Tudo isso devido às sanções econômicas impostas pelo ocidente depois da anexação da Crimeia, península no nordeste da Ucrânia, e da presença de tropas russas em territórios ao leste do país vizinho, principalmente em Donetsk. Vladimir Putín é acusado de influenciar os rebeldes russos que tentam se separar do governo de Kiev.

A economia russa também é muito dependente da venda de petróleo e gás natural. Segundo a BBC, a redução de U$ 1 no preço do barril do óleo representa uma perda de U$ 2 bilhões de receita. Imagina a felicidade da Rússia, portanto, com a recente desvalorização do Brent (referência no mercado energético). Na última segunda-feira, o barril fechou em U$ 60,11 para entrega em fevereiro. Se o valor do barril no mercado internacional baixar de U$ 60, o próprio banco central russo prevê recuo de 5% na economia.

O petróleo começou a perder valor este ano devido ao excesso de produção. Os países da Opep, liderados pela Arábia Saudita, colocam 30 milhões de barris por dia no mercado e já avisaram que não vão tirar o pé do acelerador, mesmo com os preços despencando. Têm uma reserva monetária grande o bastante para serem teimosos. A exploração cada vez maior dos Estados Unidos de gás e petróleo de xisto também aumentou a oferta. Isso tudo aliado a uma demanda menor, causada pelas recessões da Europa e do Japão e aos desafios da Índia e da China para continuarem crescendo como antigamente.

O primeiro impacto disso no futebol foi obviamente na Rússia. A construção e reformas dos estádios da Copa do Mundo continuam com o mesmo orçamento, mas a organização está cada vez mais pressionada a demonstrar que não está havendo excesso de gastos. A federação local está com dificuldades para pagar uma dívida milionária com o treinador da seleção Fábio Capello, e os clubes andam com dificuldades para lidar com os salários das suas estrelas internacionais, geralmente negociados em euros. Para se ter uma ideia, o brasileiro Hulk recebe 7 milhões de euros por ano, o que correspondia a 26 milhões de rublos em 1° de janeiro de 2014 e a 42,3 milhões semana passada. Veja outros casos:

O salário dos jogadores dependem da cotação do rublo (via Inside World Football)
O salário dos jogadores dependem da cotação do rublo (via Inside World Football)

Voltando à Inglaterra, difícil saber por quanto tempo a economia russa ficará debilitada, ou qual o impacto real nas finanças de Abramovich e Usmanov. Eles têm muito dinheiro, e o mercado pode ser tão volátil quanto a carreira de Fernando Torres, mas, no mínimo ambos devem apertar os cintos, como fez o primeiro quando perdeu metade da sua fortuna para a mulher no divórcio. Ajustes para o elenco em janeiro? Não são necessários e melhor Mourinho nem tocar no assunto. Mas Wenger, interessado em ao menos um zagueiro, pode ter mais dificuldades para tirar dinheiro do conselho.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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