Inglaterra

Como Amorim transformou o Manchester United e, enfim, dá esperança ao torcedor

Red Devils vivem bom momento na Premier League e, se comparados com a temporada passada, mudaram o estilo de jogo

O Manchester United começou mal a atual temporada. Apesar da pré-temporada com resultados promissores, foram três jogos sem vitórias para abrir o calendário, incluindo a eliminação para o Grimsby, na Copa da Liga. A partir daí, a pressão sobre Ruben Amorim aumentou.

Desde o deslize, as coisas mudaram. São cinco vitórias em sete jogos — e, apesar das duas derrotas sofrendo seis gols somados, foram três resultados positivos contra líderes, como Chelsea, Sunderland e Liverpool.

Ao olho desatento, não parece que Amorim fez grandes mudanças. A chegada de Senne Lammens no gol ajudou, e pode-se dizer que Diogo Dalot na ala-esquerda tem ido melhor do que Patrick Dorgu. Mas é toda a estrutura dos Red Devils que teve alterações — e o elenco já vinha sendo moldado para isso.

Ruben Amorim diminuiu os riscos e a paciência do Manchester United

André Onana chegou ao Old Trafford como um dos grandes goleiros do mundo para substituir David De Gea e, ainda por cima, promover melhora substancial na saída de bola do United. O camaronês nunca se firmou, nem com os pés, nem com as mãos.

A saída do muito criticado Onana abriu espaço para mudanças não só em quem defende a meta, mas na forma como o time constrói. E esse é o ponto mais impactante entre as mudanças promovidas pelo treinador português. Primeiro com Altay Bayindir e principalmente com Lemmens.

Senne Lammens em atuação pelo Manchester United (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)
Senne Lammens em atuação pelo Manchester United (Foto: IMAGO)

Se antes a ideia era construir com passes curtos desde a defesa e manter a posse de bola segura para progredir pelo chão, agora é o contrário. O Manchester United é o time com mais passes de goleiro na Premier League — e, segundo dados do “The Athletic”, 50% dos passes dos goleiros da equipe são longos.

Isso simboliza um aumento de 76% em passes longos dos goleiros em comparação com a temporada passada. E por mais que Bayindir buscasse lançamentos em 47% dos seus passes, Lammens elevou isso a outro nível. Contra o Liverpool, por exemplo, o belga tentou 45 bolas longas no jogo, apenas duas a menos do que todo o elenco dos Reds.

E o início da construção ser longo é resultado de uma mudança de filosofia geral. Nessa temporada, Amorim tem promovido um time mais rápido e direto de modo geral. Em 2025/26, é o terceiro time que mais tenta bolas longas na Premier League, e a diferença com a última campanha é notável:

No campeonato inglês, o Manchester United foi de:

  • 5º time com mais sequências de 10 ou mais passes na temporada passada para apenas o 11º atualmente;
  • 5º time mais lento ao 8º mais rápido, em termos de velocidade em ataques;
  • 6º em passes por sequência para apenas o 14º.

Sem passes arriscados na área

Sem um goleiro que prioriza o jogo curto, a ideia de construir com passes dentro da área e enfrentar a pressão pelo chão caiu por terra em Old Trafford. E a diferença é gritante: na temporada passada, o United era quem mais trocava passes dentro da própria área na Premier League; agora, depois do Arsenal, é quem tem menos.

Isso ajudou a equipe de Amorim a resolver um problema do ano passado. Em 2024/25, os Red Devils foram o terceiro time que mais perdeu a bola no seu primeiro terço. Agora, é o segundo time que menos perde a bola nesse setor — evidentemente, porque pouco a tem por ali.

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Mudança no elenco transformou o ataque

As mudanças táticas também são acompanhadas pela montagem do elenco. Pouco se fala que o mercado do Manchester United foi pautado justamente nessa transição de estilos:

  • Matheus Cunha é um atacante versátil, de boa estatura e que pode ser alvo de lançamentos, mas também é ótimo em conduções em velocidade;
  • Bryan Mbeumo é um dos pontas velocistas de maior sucesso na última temporada que viveu grande momento justamente em um Brentford em que o buscava em transições rápidas e inversões para situações de um contra um;
  • Benjamin Sesko, com 1,95m, é o estereótipo do centroavante referência para ser pivô, mas também é explosivo para atacar as costas da defesa com velocidade.
Rúben Amorim, técnico do Manchester United (Foto: Imago)
Ruben Amorim, técnico do Manchester United (Foto: Imago)

Se antes o trio de ataque do United era composto por nomes como Joshua Zirkzee, Bruno Fernandes, Christian Eriksen e Mason Mount, a mudança é notável: a preferência por jogadores técnicos e mais “pausados” deu espaço para atacantes diretos.

As estatísticas também caminham para esse lado. Nenhum time na Premier League tentou mais inversões de jogo do que o United, segundo dados do “The Athletic”, que tem em Mbeumo o principal alvo.

Até a direção dos cruzamentos mudou

Em uma Premier League com bolas paradas cada vez mais influentes, o Manchester United melhorou nesse sentido. Principalmente porque seus cruzamentos agora são, em imensa maioria, na direção da área — ou seja, o batedor está “de pé trocado”.

Antes, não havia um canhoto para cobrar escanteios na direita, e acabavam sendo sempre Bruno Fernandes ou Christian Eriksen, destros, os cobradores. Isso parece banal, mas é impactante. E mudou com a chegada de Mbeumo.

Na temporada passada, 63% dos escanteios vindos da direita eram ou cruzados com direção para fora ou cobrados curtos. Agora, 80% das cobranças são em direção à área. Como efeito disso, o United marcou três gols de bola parada em 0,49 gol esperado (xG).

As mudanças de Amorim foram planejadas. O mercado do Manchester United foi moldado para isso. Provavelmente a ideia inicial, de novembro de 2023, quando o português chegou, não fosse jogar direto dessa forma, mas é fato que ele soube mudar o rumo para fazer a equipe crescer.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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