City ‘brasileiro’ e Gyökeres moldando Arsenal: Como o drible virou decisivo na Premier League
Em um campeonato cada vez mais direto, equipes e jogadores redescobrem o duelo individual como forma de quebrar defesas e ganhar território no terço final
Durante anos, o drible foi tratado quase como um excesso estético na Premier League — algo tolerado, mas raramente central. Nesta temporada, o cenário mudou. Com mais times apostando em transições rápidas, bolas longas e ataques verticais, o jogo voltou a criar espaços para o um contra um, especialmente pelos lados do campo.
O resultado é uma liga onde o enfrentamento individual voltou a ter peso real na progressão ofensiva. Dados da “Opta” de tentativas de drible por 90 minutos e de dribles bem-sucedidos dentro da área ajudam a explicar por que alguns ataques funcionam melhor do que outros, e por que certos estilos estão ficando para trás.
Manchester City acelera e Guardiola usa drible como identidade
Nenhuma equipe representa melhor essa mudança do que o Manchester City. Com média de 25,6 dribles por 90 minutos, o time de Pep Guardiola lidera a Premier League e registra o maior número da liga desde 2018/19. Mais do que volume, há eficiência: são 2,3 dribles certos dentro da área por jogo, mais que o dobro de Liverpool e Chelsea.
O City é hoje mais rápido e agressivo no um contra um. Jeremy Doku simboliza essa virada, com 9,7 tentativas por 90 minutos (ninguém dribla mais). Rayan Cherki e Phil Foden ampliaram esse repertório, enquanto Tijjani Reijnders oferece conduções mais longas por dentro. Não por acaso, quatro assistências de Cherki surgiram diretamente após duelos individuais.

No extremo oposto está o Crystal Palace. Pela segunda temporada seguida, o clube ocupa a lanterna da liga em tentativas de drible. Sob Oliver Glasner, a equipe trocou a criatividade no um contra um por ataques em profundidade, priorizando corridas às costas da defesa.
O problema é que, sem jogadores capazes de ganhar duelos curtos, o Palace perdeu uma de suas principais válvulas de escape — algo que ficou evidente na sequência de sete jogos sem vitória desde dezembro.
Curiosamente, na eliminação para o Macclesfield pela FA Cup, o Palace tentou 22 dribles, número muito acima da sua média recente, como se tivesse sido forçado a jogar fora do próprio script.
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Liverpool, Arsenal, United e a busca por soluções
O Liverpool mantém números estáveis em tentativas totais de drible, mas perdeu impacto dentro da área. A saída de Luis Díaz pesou: era ele quem mais desequilibrava em espaços curtos. Mohamed Salah também vive um momento estatisticamente raro, com sua pior taxa de sucesso em dribles desde que chegou à Inglaterra.
O Arsenal segue caminho semelhante. A equipe reduziu suas conduções de bola e aumentou o uso de bolas longas, sinalizando uma opção clara por um jogo mais direto. Viktor Gyökeres até aparece entre os líderes em tentativas de drible na área, mas com baixíssimo aproveitamento, revelando dificuldades no último toque e no controle sob pressão física.
No Tottenham, a lesão de Mohammed Kudus expõe um problema antigo: falta quem quebre linhas com a bola. Kulusevski, Maddison e Son já cumpriram esse papel em outras temporadas, mas hoje o elenco depende de lampejos de reforços que ainda não se firmaram.
No Manchester United, o drible é mais promessa do que realidade coletiva. A chegada de Matheus Cunha trouxe condução e agressividade — seus números individuais são bons —, e Amad Diallo também oferece soluções. Ainda assim, o time registra uma de suas piores marcas de dribles certos por 90 minutos na era Premier League.
Matheus was his dynamic self on Monday ⚡️ pic.twitter.com/LMY6y4pAue
— Manchester United (@ManUtd) December 10, 2025
Isso pode mudar. Com Michael Carrick assumindo interinamente, cresce a expectativa por um modelo que valorize mais a largura do campo e a liberdade posicional, características presentes em seu trabalho no Middlesbrough.
Em uma liga que voltou a premiar quem sabe ganhar duelos individuais, driblar deixou de ser detalhe. Na Premier League atual, é identidade, ferramenta tática e, muitas vezes, a diferença entre atacar e apenas circular a bola.



