Inglaterra

Chelsea: Elenco expõe falhas de Rosenior e clube define perfil ‘ideal’ para novo técnico

Bastidores indicam desgaste entre treinador e jogadores, e vestiário passa a influenciar próximos passos do clube londrino

A demissão de Liam Rosenior escancarou um problema que vinha sendo tratado nos bastidores do Chelsea: mais do que ideias modernas ou discurso alinhado com o projeto, o elenco quer alguém que imponha respeito imediato. A informação, publicada pelo jornal “The Guardian”, revela um grupo que perdeu a conexão com o jovem treinador antes mesmo de o trabalho ganhar corpo — um sintoma claro de um vestiário que não comprou a liderança.

A busca pelo próximo comandante, que será o sexto técnico permanente desde o início da era BlueCo — consórcio de investimentos e empresa controladora (holding) do clube londrino —, ocorre em meio a um ambiente de desgaste interno.

Apesar de Rosenior ser bem avaliado no trato pessoal, faltou algo essencial no mais alto nível: autoridade. A percepção entre jogadores era de que ele travava uma batalha desigual desde o primeiro dia, sobretudo por ser visto como inexperiente para lidar com atletas consolidados e com status elevado.

Por que o elenco do Chelsea não ‘se conectou’ com Rosenior?

Rosenior cumprimenta Enzo Fernández após jogo do Chelsea
Rosenior cumprimenta Enzo Fernández após jogo do Chelsea (Foto: Mark Pain / Imago)

Internamente, o diagnóstico é direto: Rosenior tentou se aproximar demais e acabou perdendo o controle. O técnico de 41 anos adotava uma postura mais amigável nos bastidores, promovia reuniões individuais com frequência e buscava criar pontes com o elenco.

Na prática, isso não funcionou. Parte dos jogadores enxergava suas abordagens como excessivas e pouco eficazes, além de considerar sua comunicação falha em momentos-chave. No português claro, era visto como um comunicador desajeitado.

O desgaste ficou mais evidente em episódios de indisciplina e tensão. Um dos casos mais emblemáticos envolveu Enzo Fernández, que acabou suspenso internamente por dois jogos após questionar o projeto esportivo do Chelsea e abrir margem para uma possível saída rumo ao Real Madrid. A situação ganhou proporções maiores justamente pelo peso do jogador dentro do grupo — ele já havia usado a braçadeira de capitão na ausência de Reece James.

O episódio não só expôs fragilidades na condução de conflitos, como também gerou ruído entre diferentes núcleos do elenco. Segundo o periódico britânico, jogadores de língua espanhola, por exemplo, demonstraram menor adesão ao trabalho de Rosenior. Marc Cucurella e o próprio Enzo estariam entre aqueles que viam com ressalvas a capacidade do treinador.

Além disso, havia uma comparação inevitável com o antecessor. Enzo Maresca, demitido no início do ano, era considerado um nome forte internamente. Sua passagem deixou a sensação de que o time havia regredido, além de resultados, em organização e clareza de ideias. Nos bastidores, há quem atribua parte do caos da temporada à deterioração da relação entre o italiano e a diretoria, que acabou respingando no ambiente geral.

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Novo perfil no radar e desafios da diretoria

Coproprietários do Chelsea, Todd Boehly e Behdad Eghbali, entre o diretor esportivo Paul Winstanley
Coproprietários do Chelsea, Todd Boehly e Behdad Eghbali, entre o diretor esportivo Paul Winstanley (Foto: Paul Terry / Sportimage / Imago)

A queda de Rosenior força o Chelsea a recalibrar sua estratégia. A aposta recente em treinadores promissores, alinhados a um modelo mais colaborativo com a estrutura esportiva, perde força diante do contexto atual. Agora, o clube busca alguém com histórico consolidado, capaz de assumir o controle de um elenco jovem, talentoso e, ao mesmo tempo, instável.

Existe um entendimento claro dentro do grupo: é preciso alguém com prestígio no futebol, que tenha bagagem para lidar com diferentes perfis e que consiga equilibrar desenvolvimento com cobrança. A avaliação interna aponta que muitos jogadores ainda estão em processo de amadurecimento, mas vêm sendo expostos a exigências elevadas sem o suporte ideal.

Enquanto isso, o interino Calum McFarlane assume até o fim da temporada, tentando ao menos conter a sequência negativa. A quinta derrota consecutiva na liga — que praticamente encerrou as chances de classificação para a Champions League — foi o ponto final para Rosenior.

No mercado, alguns nomes já circulam. Andoni Iraola, de saída do Bournemouth, surge como um dos alvos, embora exista incerteza sobre seu interesse em assumir o projeto. Outros treinadores também aparecem como possibilidades, como Cesc Fàbregas, que vem ganhando experiência no futebol italiano, além de Xabi Alonso e Xavi Hernández, ambos livres no mercado.

Há ainda alternativas mais consolidadas na Premier League, como Marco Silva, atualmente no Fulham. Fora da Europa, o nome de Filipe Luís também entrou no radar após sua brilhante passagem recente pelo Flamengo.

O grande desafio, no entanto, vai além da escolha. Convencer um treinador de peso a assumir o Chelsea neste momento não será simples. O clube vive um período de cobranças elevadas, instabilidade interna e um elenco que ainda busca identidade.

A próxima decisão, portanto, não será somente sobre quem chega, mas sobre qual direção o projeto pretende seguir — e, principalmente, se haverá alinhamento real entre campo e bastidores.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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