Champions LeagueInglaterra

Chelsea e City são dois clubes com história que foram impulsionados a potências pelos seus donos bilionários

Ambos tem trajetórias parecidas: erráticas, com momentos de glória e de penúria, mas que construíram lastro para que os clubes fossem comprados no século 21

Não aconteceu muita coisa em 29 de abril de 1970. A página da Wikipedia sobre a data informa que as forças norte-americanas invadiram o Cambódia, durante a Guerra do Vietnã. Os nascimentos mais notáveis foram a atriz Uma Thurman e o tenista André Agassi. A manchete da Folha de S. Paulo era sobre as comemorações de Corpus Christi em Brasília. Um pouco abaixo, o treinador da Tchecoslováquia dizia estar preparado para enfrentar o Brasil na estreia da Copa do Mundo do México – era fake news: levou 4 a 1. Foi um dia mais leve de notícias, exceto se você fosse jornalista esportivo na Inglaterra. Em 29 de abril de 1970 dois times do país foram campeões quase ao mesmo tempo. Um deles era o Chelsea. O outro, o Manchester City.

É um dia importante de se resgatar às vésperas de ambos se enfrentarem na final da Champions League. São tidos por muitos como clubes pequenos artificialmente engordados por investimentos externos. E se é verdade que nunca foram tão relevantes ou poderosos antes de Roman Abramovich e xeique Mansour, não chega a ser uma análise correta. A mais precisa é dizer que eram clubes com história e trajetória errática que foram elevados pelos seus novos donos. Também vale ponderar que dezenas de agremiações inglesas têm alguma história. São, afinal de contas, mais de 150 anos de futebol organizado.

Mas Chelsea e City não foram escolhidos por acaso ou porque coincidentemente um magnata russo e a realeza dos Emirados Árabes gostam da cor azul. Havia um certo lastro de tradição, estrutura e potencial mercadológico sobre o qual construir. Estão nas duas regiões mais fortes do futebol do país, Londres e o Noroeste, onde moram os dois maiores campeões, Manchester United e Liverpool. Fazia sentido fortalecer um dos três principais clubes da capital ou construir uma rivalidade local com o time que dominava a Premier League desde o início.

Antes do gol de Agüero, sabe, o do milagre, o Manchester City fazia parte daquele grupo de clubes famosos por espetaculares tragédias, por sempre dar um jeito de estragar tudo. Curiosamente, também é historicamente bem regular. A cada dez anos, às vezes mais próximo de 15 ou 20, montava um time que conseguia fazer alguma coisa. Foi campeão inglês antes e depois da Segunda Guerra Mundial (1936/37 e 1967/68), com três vices com bastante intervalo entre si (1903/04, 1920/21 e 1976/77). Conquistou a Copa da Inglaterra em quatro décadas diferentes (19, 30, 50 e 60) e também chegou à final no começo dos anos 80. Beliscou uma Copa da Liga Inglesa em 1975/76 e, no auge de seus poderes pré-petróleo, levou seu até agora único título europeu, a Recopa de 1969/70 – no dia em que Médici recebeu cardeais e políticos na Alvorada para um almoço de Corpus Christi.

O Chelsea está na rica região oeste de Londres e tinha um currículo até mais tímido que o do Manchester City antes da criação da Premier League. Havia conquistado apenas um Campeonato Inglês, em 1954/55. Seu próximo período de força foi a virada para a década de setenta, quando venceu a Recopa Europeia, pegando o City na semifinal, e a Copa da Inglaterra de 1970 – no dia em que Emmanuel e Elizabeth Agassi colocaram no mundo um vencedor de oito torneios de Grand Slam. Mas depois disso foi três vezes rebaixado à segunda divisão. Em uma delas, precisou de cinco tentativas para voltar e se notabilizou por ter uma das torcidas mais violentas da Inglaterra nos anos oitenta, o que, no auge do hooliganismo, significava ser bastante violenta.

Recuperou-se na hora certa para embarcar no bonde da Premier League e foi um dos primeiros clubes a aproveitar a Lei Bosman de maneira despudorada com as contratações de Gullit, Zola, Di Matteo, Lebouef e Le Saux. Quebrou um jejum de 26 anos sem ser campeão com a Copa da Inglaterra de 1997 e estava estabilizado no pelotão de frente da tabela, bem posicionado para ser o escolhido de Roman Abramovich.

Naquele 29 de abril, não é correto dizer que a Inglaterra estava dividida. A final da Copa da Inglaterra entre Chelsea e Leeds atraiu toda a atenção. Com 28,5 milhões de espectadores, é o quinto evento mais assistido da história da televisão britânica. Perde para a decisão da Copa de 1966, o funeral da princesa Diana, o histórico documentário da família real em 1969 e o retorno da nave Apollo 13 ao Planeta Terra. Enquanto isso, cerca de 8 mil pessoas estavam bem confortáveis no estádio Prater, de Viena, cujo recorde de público está na casa dos 90 mil, para assistir ao Manchester City derrotar o polonês Górnik Zabrze. A audiência britânica teve acesso apenas aos melhores momentos, na calada da noite, no segundo canal da BBC.

Este sábado será diferente. Os olhos do mundo inteiro estarão voltados ao Estádio do Dragão onde dois clubes com trajetórias erráticas, agora transformados em potências com torcedores em todo o planeta, disputarão o troféu mais importante do futebol europeu.

Joe e Alli

 

Joe Mercer (esq) e Malcolm Allisson treinando o Manchester City (Foto: Imago/One Football)

O Manchester City era o time da igreja. Foi fundado em 1880 pela Paróquia de São Marcos por iniciativa do reitor Arthur Connell e sua filha Anna. A motivação foi humanitária. Manchester havia sido um dos polos da Revolução Industrial. Muitos homens se mudaram para lá em busca de emprego, mas não havia para todo mundo. Enfrentavam o ócio bebendo e tretando entre si. A ideia era lhes dar uma atividade mais saudável. Mudou de nome para Ardwick, em homenagem a um viaduto, e se transformou em Manchester City em 1894.

Chegou à primeira divisão na virada do século e não demorou muito para conquistar o seu primeiro título. Foi uma baita temporada em 1903/04, com a vitória por 1 a 0 sobre o Bolton na decisão da Copa da Inglaterra e o vice-campeonato nacional. O protagonismo voltou nos anos 30, com Peter Doherty, outra conquista da FA Cup e seu primeiro Campeonato Inglês. Também se tornou um caso único de clube inglês que foi rebaixado na temporada imediatamente seguinte a ser campeão da liga nacional.

O futebol era meio estranho naquela época. O City havia sido campeão com um ataque fenomenal de 107 gols, mas a defesa fora vazada 61 vezes. Não era um número tão alto para 1937 e 42 rodadas. Ainda foi a sexta melhor do campeonato. Mas na campanha seguinte esse número subiu para 77, a terceira retaguarda mais vulnerável, e os gols secaram para apenas 80. Teve a segunda pior campanha. Pelo menos, houve somente mais uma temporada na Inglaterra antes de tudo ser paralisado por causa da Segunda Guerra Mundial, e o City retornou à elite assim que o futebol foi retomado, em 1946.

O seu momento de maior brilho aconteceu, como tantas vezes na Inglaterra, por meio de uma comissão técnica especial. Uma dupla dinâmica nos moldes de Brian Clough e Peter Taylor ou Bill Shankly e Bob Paisley. Joe Mercer era o treinador principal, o rosto do clube, o diplomata. Tinha um passado vitorioso como capitão do Arsenal e uma personalidade mais tradicional, digamos assim, em comparação à de seu fiel escudeiro. Malcolm Alisson teve a carreira de jogador interrompida precocemente por uma tuberculose. Era o cara da criatividade. Uma mente sempre em funcionamento combinada com um comportamento errático. Fã de champanhe, charutos e mulheres. Basta dizer que, enquanto a maioria dos senhores de 72 anos está no sofá vendo televisão, passou 20 horas preso por ter quebrado a porta da casa de uma ex-companheira.

Começou a carreira no Charlton, no qual teve vida curta porque tinha uma língua longa. Não fazia muito tempo que a equipe havia conquistado sua primeira e única Copa da Inglaterra e contava com vários jogadores de seleção, mas o garotão não estava satisfeito com os treinamentos de Jimmy Trotter, um dos membros da comissão técnica, que consistiam apenas em correr. Em uma das sessões, expressou a sua opinião de uma maneira bem sutil. “Senhor Trotter, o seu treinamento é um lixo”, afirmou, segundo entrevista ao Guardian. No dia seguinte, chamado ao escritório do técnico Jimmy Seed, foi informado que seria transferido ao West Ham – pelo qual acabou fazendo mais de 200 jogos.

É previsto na Constituição do Reino Unido que todo texto em inglês o descreva como “flamboyant”, que significa extravagante, exibido. Lançou moda na década de setenta, quando saiu debaixo da asa de Mercer, comandando seus times com um chapéu Panamá. A combinação era perfeita. Mercer era a figura paterna, o administrador de vestiário. Allisson, tido como um pioneiro à frente do seu tempo, ficava responsável pelas táticas e pela aplicação de novos métodos de treinamento. E, como costuma acontecer nessa dinâmica, era o bad cop do good cop de Mercer. “Eu atacava as situações como um touro, cheio de agressividade, ambição e desprezo por qualquer um que estivesse no meu caminho. E Joe vinha atrás, recolhendo os pedaços, tranquilizando os feridos e os ofendidos, com aquele seu charme”, afirmou, segundo o site do clube.

A dupla aterrissou em Maine Road em 1965 e imediatamente conquistou a Segunda Divisão. Em seguida, durante um intervalo de três anos, eles levaram todos os títulos nacionais à disposição: o Campeonato Inglês de 1967/68, a Copa da Inglaterra de 1968/69 e a Copa da Liga Inglesa de 1969/70. O título da liga valeu a primeira oportunidade de disputar a Copa dos Campeões. E Allison estava ambicioso: “O Manchester City não jogará na Europa como alguns desses times que eu vi enfrentarem o Manchester United (campeão contra o Benfica naquela mesma temporada). Eu prometo que o City atacará essas pessoas como elas não são atacadas desde os tempos do velho Real Madrid. Acho que muitos desses europeus são covardes. Eles venceram apesar de seus técnicos, não por causa deles”.

O City foi eliminado na primeira rodada pelo Fenerbahçe.

Mas conseguiu atacar bem os europeus na Recopa de 1969/70. Era um time que contava com muitos integrantes do Hall da Fama do Manchester City antes da administração dos Emirados Árabes, como Colin Bell, Alan Oakes (682 jogos pelo clube), Francis Lee, Mike Sumerbee, Joe Corrigan, Mike Doyle e Neil Young (não aquele, outro). A trajetória passou por Athletic Bilbao, Lierse (Bélgica), Acadêmica e o Schalke 04 na semifinal. A decisão foi contra o Górnik Zabrze, que havia dominado o futebol da Polônia nos anos sessenta e conquistaria a liga nacional nos dois anos seguintes também. Fez quartas de final da Copa dos Campeões em 1967/68. Young e Lee, de pênalti, marcaram ainda no primeiro tempo para encaminhar a vitória por 2 a 1 e o único título europeu do Manchester City – pelo menos até o sábado.

A parceria terminou ali, em meio a uma disputa de poder nos bastidores do clube e o desejo de Allisson de se tornar técnico principal. Teve seu desejo atendido. Mercer foi pouco depois para o Coventry e seria técnico interino da Inglaterra após a saída de Alf Ramsey. Allisson teve duas passagens de uma temporada no comando do Manchester City, ambas marcadas por gastos excessivos e resultados insatisfatórios. O Manchester City teve mais um período legal no final da década de setenta, com outra Copa da Liga Inglesa e um segundo lugar na liga, com a ajuda dos gols de Brian Kidd e treinado por Tony Book, antes de embarcar em um sobe e desce de divisões até a fundação da Premier League. Aquela Copa da Liga de 1975/76 seria o seu último troféu pelos próximos 35 anos.

Ted, Tommy e Dave

Terry Venables comemora o título da Copa da Liga com Tommy Docherty (Foto: Imago/One Football)

Se você quiser uma ironia, o Chelsea nasceu como clube de um milionário – para os padrões de 1905. O empresário Gus Mears, alheio ao conceito de não colocar a carroça na frente dos bois, comprou Stamford Bridge, então um estádio de atletismo, para transformá-lo em um palco de um outro esporte, em crescimento. Da mesma região, no oeste de Londres, o Fulham foi convidado a ocupá-lo, mas se recusou. Restou a Gus e seu irmão Joseph a única solução lógica: fundar um clube do zero. Foi batizado com o nome de um dos distritos da redondeza. O estádio fica entre Fulham e Chelsea.

Foi aceito na segunda divisão da Football League e demorou apenas duas temporadas para chegar à elite. Já tinha uma torcida relativamente grande, ficava em uma região muito rica de Londres e, claro, era dono de um bom estádio. Em um momento no qual o poder de compra era diretamente relacionado a receitas de bilheteria, foi capaz de contratar jogadores talentosos logo de cara. O principal foi George Hilsdon, “A Metralhadora”, que estreou fazendo cinco gols e se tornou o primeiro da história do Chelsea a atingir a marca centenária.

Conquistas, porém, não rolaram. O melhor foi uma final da Copa da Inglaterra, a última antes da paralisação para a Primeira Guerra Mundial. Passou a segunda metade da década de vinte na segunda divisão antes de se estabelecer de vez na primeira com uma série de campanhas de meio de tabela até tudo parar de vez novamente, para que derrotassem Hitler. O período pós-guerra começou promissor. Em uma ode aos aliados, o Chelsea recebeu o Dínamo Moscou para um amistoso presenciado por 100 mil pessoas em 13 de novembro de 1945. Segundo o site do clube, 74.496 delas foram pagantes, algumas desembolsando até £ 5, o equivalente ao salário semanal médio daquela época.

Deve ter dado uma boa renda, mas não deu um bom time. O Chelsea flertou com o rebaixamento e quase efetivou o matrimônio em 1950/51 quando empatou em pontos com Sheffield Wednesday e Everton no pé da tabela, escapando na média de gols. A revolução, porém, estava prestes a começar e levaria o nome de Ted Drake. Drake foi atacante do Arsenal em dois títulos ingleses nos anos trinta. Chegou assim que Herbert Chapman foi embora, mas tirou proveito da estrutura deixada pelo pai do WM para ser até hoje o quinto maior artilheiro da história dos Gunners. Treinou o Reading antes de chegar ao Chelsea em 1952.

Quase todo clube inglês de certa relevância tem aquele cara creditado por modernizar infraestrutura e métodos de treinamento. Alguns deixaram sua marca também em patrimônios imateriais. Foi o caso de Drake que, além de revoluções estruturais, também modificou o escudo do Chelsea e mudou seu apelido, de “The Pensioners”, pela relação próxima com um hospital da região, para “The Blues”, por motivos óbvios. Com Drake no comando e Roy Bentley fazendo os gols (foi artilheiro do time em quase toda a década), o Chelsea terminou o Campeonato Inglês de 1954/55 com quatro pontos a mais que o Wolverhampton, a grande potência dos anos 50 no país.

O título valeria vaga na edição inaugural da Copa dos Campeões da Europa. O Chelsea não participou porque acatou a decisão da Federação Inglesa de não mandar um representante. Das categorias de base, surgiu o espetacular talento de Jimmy Greaves, mas o clube voltou ao purgatório do meio da tabela. A diretoria sentiu que deveria dar uma agitada na estrutura da comissão técnica e, sem envolver Drake na decisão, contratou Tommy Docherty, terminando sua carreira de jogador pelo Arsenal, para ser um dos assistentes. Greaves saiu para o Milan no começo da temporada 1961/62 depois de anotar 124 gols em 157 partidas pelos Blues.

Sem seu principal artilheiro, o começo de temporada foi terrível, e Drake acabou demitido em setembro. Docherty assumiu de maneira interina e foi oficializado no cargo em janeiro de 1962. Não conseguiu evitar o rebaixamento, mas estabeleceu bases para um futuro mais brilhante. Promoveu Peter Bonetti a goleiro titular, deu as chaves do meio-campo ao garoto Terry Venables e formou a dupla de ataque com Bobby Tambling – maior artilheiro da história do clube até ser superado por Frank Lampard – e Barry Bridges. Outra boa decisão foi recrutar Dave Sexton para assistente.

O novo estilo de jogo do Chelsea, baseado em uma espinha dorsal jovem e energética, com influência das seleções brasileiras de 1958 e 1962, foi um sucesso na segunda divisão. O acesso teria chegado com mais tranquilidade não fosse o pior inverno na Inglaterra em muitos anos que paralisou o campeonato por semanas. O Chelsea não retornou bem em fevereiro e precisou arrancar resultados importantes na reta final para subir. Em um deles, contra o Stoke City, o garoto Ron Harris pegou tão pesado com um veterano Stanley Matthews que os próprios torcedores dos Blues passaram a vaiar as suas entradas. Não foi apelidado de Ron “Chopper” Harris à toa – chopper seria um cutelo de cortar carne. A volta foi confirmada com uma enfática goleada por 7 a 0 sobre o Portsmouth.

Agora, o Chelsea era a epítome da juventude em uma década de ebulição cultural e social. A começar pelo próprio treinador que contrastava com tiozões como Matt Busby, Bill Shankly e Bill Nicholson. Em 1964/65, a BBC começou a mostrar melhores momentos da rodada no sábado à noite, e as mágicas dos Diamantes de Docherty, como o time ficou conhecido, alcançaram outros cantos do país. E eles estavam prontos para tentar fazer história. Quando março chegou, ainda podiam conquistar os três títulos domésticos à disposição. A Copa da Liga já estava na fatura. Disputariam a semifinal da Copa da Inglaterra contra o Liverpool e estavam na briga pelo título inglês com Leeds e Manchester United.

A primeira decepção foi no Villa Park de Birmingham onde gols de Peter Thompson e Willie Stevenson mantiveram o Liverpool no caminho de seu primeiro título de FA Cup na história. No Campeonato Inglês, tudo começou a degringolar em Blackpool. A três rodadas do fim, o Chelsea estava a dois pontos da liderança e teria três jogos fora de casa, todos no Noroeste, no intervalo de uma semana. Docherty decidiu que a delegação ficaria concentrada em Blackpool. Outra derrota para o Liverpool tornou a partida seguinte, contra o Burnley, de vida ou morte. Mas o tédio falou mais alto.

Em uma bela noite, oito jogadores do Chelsea saíram do hotel para aproveitar a noite, deixando a porta da escada de incêndio aberta para poderem voltar sem que ninguém percebesse, bem depois do toque de recolher. O plano perfeito não considerou um porteiro noturno que percebeu a porta aberta e relatou a Docherty as suas suspeitas. O treinador ficou acordado esperando o retorno dos travessos. Sentindo que a sua autoridade estava abalada, tomou uma decisão drástica: mandou todos de volta para Londres. Entre eles, havia sete titulares, nomes como Venables e George Graham, grande contratação da temporada. O resto acabou levando 6 a 2 do Burnley.

A briga pelo título terminou ali, e a relação de Docherty com o núcleo duro do elenco nunca mais foi a mesma. Inclusive e especialmente com seu capitão Venables. Mesmo assim, a temporada seguinte foi boa nas copas. O Chelsea disputou futebol europeu pela primeira vez, na Taça das Cidades com Feiras. Levou a semifinal contra o Barcelona ao terceiro jogo decisivo – no qual foi goleado pro 5 a 0 no Camp Nou. O mercado seguinte foi de reformulação, com as vendas de Venables ao Tottenham, Graham ao Arsenal e Bridges ao Birmingham. O time reformulado caiu um pouco no Campeonato Inglês, mas conseguiu chegar à final da Copa da Inglaterra pela primeira vez desde 1915. Derrota para o Tottenham de Greaves e Venables.

Docherty teve um comportamento errático durante uma viagem de pré-temporada para Bermudas antes da temporada seguinte. Estava com uma língua tão afiada contra árbitros e autoridades da federação local que seu comportamento foi relatado à Federação Inglesa, que se reuniria em outubro para tomar uma decisão disciplinar. Quando saiu que Docherty havia sido suspenso por um mês, o Chelsea havia ganhado apenas dois jogos pelo Campeonato Inglês. A junção das duas coisas gerou a demissão, com a qual ele lidou com um misto de classe e ironia. Convocado à sala da direção para receber a notícia, desapareceu por um instante e retornou com uma caixa de champanhe para brindar com seus algozes.

Anos depois, Docherty começava a reconstruir o Manchester United após a aposentadoria de Matt Busby e o rebaixamento da segunda divisão quando se apaixonou pela esposa de um dos seus fisioterapeutas e foi demitido para “preservar a reputação do clube”. Eles se casaram e ficaram juntos pelo resto das suas vidas. “Sou o único treinador que foi demitido por ter se apaixonado”, disse, ao Independent, em 2014.

O sucessor de Docherty foi um velho conhecido. Dave Sexton havia deixado a comissão técnica para começar sua carreira no Leyton Orient. Não durou muito tempo e ele voltou à trajetória de assistente. Trabalhou com Vic Buckingham no Fulham e estava no Arsenal quando foi convocado pelo Chelsea. Tinha um perfil bem diferente. Era mais sisudo, mais quieto, mais chato do que a personalidade enérgica do antigo chefe. Mas tinha uma mente daquelas, treinada pelos poemas de Robert Frost e, quando já tinha 50 anos, estudando filosofia em uma universidade. Ele fez parte de um grupo de jogadores do West Ham que passavam horas discutindo tática e se tornariam treinadores relevantes na Inglaterra, como Malcolm Allison e Frank O’Farrell. Construindo sobre a base deixada pelo antecessor, com nomes como Peter Osgood, Bonetti, Charlie Cooke e Ron Harris, Sexton levaria o Chelsea a glórias sem precedentes.

Duas delas: a primeira Copa da Inglaterra e o primeiro título europeu. Em 1970, diante dos olhos de todo o país, David Webb marcou aos 14 minutos do primeiro tempo da prorrogação, em Old Trafford, o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Leeds de Don Revie. No ano seguinte, o Chelsea ganhou do Real Madrid em uma final europeia – o que ainda hoje é um feito, mas imagina o simbolismo naquela época, pouco depois da sequência de títulos na Copa dos Campeões? Os dois jogos decisivos da Recopa foram disputados no estádio Karaiskakis, na Grécia. Ignacio Zoco arrancou o empate aos espanhóis na primeira perna, aos 45 minutos do segundo tempo. Na volta, dois dias depois, John Dempsey e Osgood deixaram o Chelsea em vantagem antes do intervalo. Fleitas descontou, mas o título ficou na Inglaterra pelo segundo ano seguido.

E daí, veio a queda. O Chelsea gastou muito dinheiro para construir uma nova arquibancada em Stamford Bridge. Isso significou um orçamento de transferências muito menor o que invariavelmente significa também tensões com o treinador e com as principais estrelas. Sexton foi demitido em 1974. Osgood e Ian Hutchinson foram vendidos, mas o time já vinha se desfazendo pouco a pouco. Os anos setenta foram terríveis. Houve dois rebaixamentos, naquela temporada, 1974/75, e em 1978/79. Depois de Sexton, cinco pessoas treinaram o time antes da virada da década.

A decadência do Chelsea foi acompanhada por uma degradação estrutural do futebol inglês, com estádios caindo aos pedaços e o ápice do hooliganismo entre os anos setenta e oitenta. Os Blues tiveram protagonismo nesse movimento também – no pior sentido possível. As firms de torcedores azuis ganharam a fama de estarem entre as mais violentas do país. A Chelsea Headhunters foi identificada pelo governo britânico como simpatizante do Partido Nacional Britânico, um movimento político de extrema-direita abertamente racista e segregacionista. Em 1992, fundou o Combat 18 para ser seu braço de segurança. Era muito nazista: o nome era homenagem a Adolf Hitler, cujas iniciais são a primeira e a oitava letra do alfabeto.

As tensões raciais se intensificaram na Inglaterra durante a década de oitenta e isso naturalmente respingou no futebol. Um dos casos mais infelizes envolveu Paul Canoville, do Chelsea, ofendido pelos seus próprios torcedores. “Eu comecei a ouvir o abuso enquanto andava pela lateral do campo pela primeira vez. ‘Seu negro, seu golliwog (um boneco de pano negro), volte para casa seu negro’. Eu esperava isso nas ruas, mas não em um estádio profissional. Quando me troquei para entrar, as ofensas ficaram mais altas. Muitos torcedores do Chelsea estavam fazendo isso, xingando, jogando bananas. Entrei no jogo, mas, juro por Deus, queria sair imediatamente”, afirmou, em entrevista ao Independent.

Em crise financeira, sob ameaça de ser despejado de Stamford Bridge, com um projeto esportivo aos pedaços e a imagem manchada por torcedores violentos e racistas, não espanta tanto que Ken Bates tenha conseguido comprar o clube por £ 1 em 1982.

O jogo de £ 7 bilhões

Gullitt, apresentado pelo Chelsea

A última rodada da Premier League de 2002/03 começou com Chelsea e Liverpool empatados em 64 pontos e jogando entre si em Stamford Bridge. A partida valia o quarto lugar e uma vaga na Champions League. As duas competições haviam sido fundadas na década anterior, revolucionando as suas antecessoras, e a imprensa inglesa ainda se acostumava aos valores pornográficos que elas geravam. Aquele confronto direto foi um dos primeiros tratado como “o jogo de £ 20 milhões”, receitas que viriam pela disputa do torneio europeu.

O Chelsea, novamente com as contas em frangalhos, desesperadamente precisava daquele dinheiro. E eu juro que desespero não é exagero nesse caso. O clube havia contratado um contador da Enrst & Young para ser o executivo-chefe e tocar um processo de reestruturação econômica chamado Trevor Birch. Birch havia jogado bola na base do Liverpool, mas tinha mais talento com números do que com os pés. Para enfatizar a importância daquela partida, convocou um veterano do exército norte-americano para dar um discurso motivacional sobre a Guerra do Vietnã. O efeito que aquilo teria em um elenco formado por exatamente zero pessoas nascidas nos Estados Unidos era duvidoso.

Antes do jogo, foi o próprio Birch quem deu a preleção aos jogadores, talvez o único contador da história a ter essa honra em um grande clube europeu. Havia sido deixado bem claro aos jogadores a importância daquela partida. Eles não sabiam, porém, que em vez de £ 20 milhões aquele jogo poderia valer até £ 7 bilhões.

Essa história consta no livro A Liga: Como a Premier League Se Tornou o Negócio Mais Rico e Revolucionário do Esporte Mundial, que traça a fundação da Premier League. Ele também traz um breve relato de como Roman Abramovich entrou no futebol. O oligarca russo se interessou assistindo às quartas de final entre Real Madrid e Manchester United em Old Trafford. Começou a prospectar quais clubes estariam à disposição para serem comprados. Chegou a visitar o Tottenham, mas não ficou muito satisfeito com a região em que o clube estava sediado, o norte de Londres. O Chelsea, no rico oeste, era mais atrativo. Mas se era para brincar de futebol, Abramovich queria fazê-lo na Champions League, o que tornou aquela última rodada mais decisiva ainda ao Chelsea.

Sami Hyypia abriu o placar aos 11 minutos do primeiro tempo, mas Desailly e Jesper Gronkjaer trataram de virar o jogo antes do intervalo, provavelmente para não correrem o risco de trombarem com mais um veterano de guerra nos vestiários. O acordo entre Ken Bates e Roman Abramovich foi fechado pouco depois, em uma rápida reunião. O clube cheio de dívidas que havia sido comprado por £ 1 foi, ainda cheio de dívidas, vendido por £ 140 bilhões.

Bates havia revitalizado o Chelsea. Retornou à primeira divisão em 1984 e emendou duas temporadas em sexto lugar. O clube teve uma recaída com um novo rebaixamento, mas voltou imediatamente. Isso foi muito importante porque não perdeu o bonde da Premier League. Foi um dos fundadores do novo Campeonato Inglês no qual o dinheiro da Sky jorraria sem precedentes. Ao mesmo tempo, as fronteiras europeias foram escancaradas pela Lei Bosman, que permitia a livre circulação de jogadores da União Europeia. O Chelsea soube aproveitar os dois movimentos.

A contratação de Glen Hoddle para ser treinador em 1993 havia gerado algum sucesso. A final da Copa da Inglaterra, em sua primeira temporada, foi a primeira desde aquela em 1970. Ainda estava difícil tirar o time do meio da tabela da Premier League, mas, no mercado de verão de 1995, Hoddle ganharia uma baita ajuda: Ruud Gullit.

A internacionalização do futebol inglês já estava em curso. Eric Cantona encantava as arquibancadas de Old Trafford. O Manchester United também tinha Peter Schmeichel, e o Tottenham, Jürgen Klinsmann. Gullit, porém, foi um grande marco desse processo porque, bicampeão europeu e vencedor da Bola de Ouro, era uma superestrela ainda maior. O primeiro jogador honrado pela revista France Football a pisar gramados ingleses desde Kevin Keegan em 1980. A chegada de estrangeiros pegou de vez naquela temporada 1995/96 que culminaria com a realização da Eurocopa na Inglaterra.

A seleção inglesa parou nas semifinais, e Hoddle foi convocado para substituir Terry Venables no comando. O posto de técnico no Chelsea foi ocupado pelo próprio Gullit como jogador-treinador. Com as chaves do cofre e mente cosmopolita, ele atacou com tudo o mercado europeu. Trouxe nomes como Gianluca Vialli, Gianfranco Zola, Roberto di Matteo, Frank Lebouef, Graeme Le Saux e Gustavo Poyet. Foi sucedido por Vialli, que comandou o primeiro time titular sem britânicos da história da Premier League em 1999.

Com Gullitt e Vialli, o Chelsea não conquistou a Premier League, poucas vezes chegou perto, mas recuperou a sua fama de ser um clube copeiro. Entre 1996 e 2000, conquistou cinco taças, incluindo dois internacionais: duas Copas da Inglaterra, uma Copa da Liga Inglesa, a Recopa Europeia e a Supercopa da Uefa. Claudio Ranieri assumiu o time na virada do século e, se levou apenas uma Supercopa da Inglaterra, chegou a mais uma decisão de FA Cup e arrancou a vaga na Champions League que seria o estopim da venda a Roman Abramovich e de um futuro em que o clube popular do oeste de Londres, cheio de altos e baixos durante um século de existência, finalmente se estabeleceu como uma das potências do país.

Nós não estamos realmente aqui

John Terry e Robinho, dois símbolos (por diferentes motivos) dos novos rumos de Chelsea e City (Foto: Imago/One Football)

Prestwich é uma cidade no distrito de Bury, região da Grande Manchester, e tem um pub chamado Forester’s. Em algum momento no começo dos anos noventa, um grupo que o frequentava estava em Amsterdã curtindo a beleza dos canais quando descobriu que um de seus amigos, que por um ou outro motivo não havia feito a viagem, morreu em circunstâncias trágicas. No fim de semana seguinte, Phil, sobrenome desconhecido, subiu em uma cadeira no pub. A expectativa era que fizesse algum tipo de discurso, mas ele simplesmente começou a cantar: “Se você beber, você morre / Se você não beber, você morre / Então é melhor estar bêbado do que sóbrio quando morrer / Como o fã do homem invisível / Nós não estamos realmente aqui”.

A história foi contada em um livro por um desses amigos, Don Price, torcedor feroz do Manchester City. A ideia era desmistificar as origens de uma música que ganhou tração nas arquibancadas do clube a partir da década de noventa. Outras versões dizem que ela surgiu em uma viagem de torcedores à Irlanda ou em um jogo contra o Millwall, no qual a torcida do City estava proibida de entrar no The Den. O próprio site oficial do clube adota a versão de Price como a mais plausível. Mas não dá para descartar que o apreço pela ironia, a força-motriz de tantos ingleses, a tenha impulsionado. Porque quando ela passou a ser cantada, o City não estava em lugar nenhum. Quer dizer, estava mal. Muito, muito mal.

E isso é dizer alguma coisa de um clube que já havia entrado em uma irrelevância terrível. Desde a segunda e desastrosa passagem de Malcom Alisson como treinador principal, em 1979/80, foi finalista da Copa da Inglaterra na temporada seguinte e, depois, um absoluto nada por duas décadas. Foi duas vezes rebaixado à segunda divisão nos anos oitenta, e os torcedores ficaram até chocados quando descobriram que Howard Kendall, lendário treinador do Everton, assumiria o clube para a temporada 1989/90. Ficaram um pouco menos chocados e muito mais irritados quando ele abandonou o barco para retornar aos Toffees em pouco mais de um ano. Mas, com Peter Reid como jogador-técnico, o City conseguiu duas boas campanhas, em quinto lugar, antes da fundação da Premier League.

Mera ilusão. Após quatro anos, o City foi rebaixado à segunda divisão, com um feito de fazer inveja a dirigentes brasileiros: teve cinco treinadores na mesma temporada. E, pior, imediatamente caiu à terceira pela primeira vez em sua história. Retornou na primeira tentativa, mas não é que foi um passeio. Ficou em terceiro lugar e teve que passar pelos playoffs. Em 30 de maio, disputou a final contra o Gillingham.

Foi a mais pura loucura em Wembley.

O jogo estava empatado em 0 a 0 até os 37 minutos do segundo tempo, quando Carl Saba recebeu, cara a cara com o goleiro, e marcou de bico. O narrador classificou o momento como o “melhor da história do Gillingham”. Cinco minutos depois, teve um que o superou: Saba tocou de calcanhar para Robert Taylor invadir a área, bater forte e fazer 2 a 0. Faltavam três minutos, mais os acréscimos. Kevin Horlock pegou a sobra de uma boa movimentação do ataque do City para descontar, na marca de 45 minutos. Paul Dickov ficou responsável pelo milagre. Aos 50, ele dominou pela direita da grande área e, caindo, acertou o ângulo. Partida empatada. Nos pênaltis, o City conseguiu a suada vaga para disputar a segunda divisão. No meio daquela semana, o rival Manchester United havia passado por uma situação, digamos, parecida. Com gols de Ole Gunnar Solskjaer e Teddy Sheringham nos acréscimos, virou a final da Champions League contra o Bayern de Munique e, também campeão da Premier League e da FA Cup, conquistou a Tríplice Coroa.

“O que mudou para o City foi que (o dono) Peter Swales assumiu o clube em 1973, encerrando o período de domínio porque ele separou a parceria entre Joe Mercer e Malcolm Allison”, afirmou o acadêmico Gary James, torcedor do City e autor de vários livros sobre o clube ao The Athletic. “O City teve seus momentos no resto da década de setenta – venceu o Milan na terceira rodada da Copa da Uefa de 1978 -, mas vieram os anos oitenta e fomos partidos ao meio. Swales pegou um clube de sucesso e nos transformou em um clube endividado na segunda divisão. Começamos os anos noventa chegando em quinto lugar duas vezes seguidas, mas depois passamos pelo nosso pior período. A Premier League nos deixou para trás e, para piorar, nosso maior rival passava pelo maior período da sua história. E não era apenas eles. Na mesma época, nós víamos times locais como o Oldham e o Bolton chegando a finais. Onde estávamos?”.

Eles não estavam realmente ali.

Após o espetacular acesso contra o Gillingham, o City subiu imediatamente à Premier League e voltou imediatamente à segunda divisão. O sobe e desce terminou na temporada 2001/02 e, talvez pela primeira vez em mais de 100 anos de história, finalmente deu sorte. A mudança do Maine Road para o estádio da Cidade de Manchester, construído para os jogos da Commonwealth de 2002, foi importante. Era um momento em que muitos clubes ingleses perceberam a necessidade de reformar seus estádios ou construir outros completamente novos. Em vez de desviar dinheiro de orçamentos de transferência ou comprometer seu futuro financeiro com empréstimos, o City recebeu um estádio novo e caro quase de presente da prefeitura de Manchester. Teve que investir um pouco para adequá-lo ao futebol e fechou um acordo bem suave para utilizá-lo.

O sucesso de Roman Abramovich havia aberto as portas a investidores estrangeiros e, de repente, o Manchester City era muito atraente. Tinha uma torcida apaixonada que não o abandonara nem nos piores momentos, história e tradição, um estádio novo que não afetou suas finanças, estava em uma região importante do futebol inglês e estabilizado na primeira divisão. Quem apareceu com a mala cheia de dinheiro foi o tailandês Thakshin Shinawatra, magnata das telecomunicações e que havia sido primeiro-ministro do país. Ele pagou £ 82 milhões para se tornar proprietário do clube, pouco mais da metade do que Abramovich havia desembolsado pelo Chelsea.

Em um primeiro momento, a torcida do Manchester City gostou de Shinawatra. O exemplo de Abramovich deixou todo mundo na expectativa por um investimento parecido que atrairia grandes craques. Ele também se esforçou para ser aceito. Apelidado de “Frank” – Shinawatra = Sinatra -, ele chegou a organizar uma festa para 8.000 pessoas em uma praça da cidade, na qual tentou, sem muito sucesso, cantar Blue Moon, um dos principais hinos das arquibancadas do clube.

No entanto, esse carisma foi um pouco prejudicado porque ele também era acusado de violações de direitos humanos quando comandou a Tailândia. Teria ordenado mais de 2.000 execuções extra-judiciais em meio a uma guerra às drogas. Em 2006, durante visita à ONU, foi deposto pelos militares. Foi um dos primeiros golpes à credibilidade do famoso teste da Premier League que avalia se uma pessoa é “adequada” para comprar um clube. Ao mesmo tempo em que a imprensa inglesa começou a bater um pouco mais nessa tecla, os ativos de Shinawatra na Tailândia foram congelados por uma decisão judicial que o sentenciou a dois anos de prisão por ter se envolvido em um negócio imobiliário irregular.

Sem dinheiro, Frank ficou muito menos popular. Os investimentos que havia feito, como as contratações de Elano e Vedran Corluka, saíram de empréstimos. O clube estava endividado e apresentou prejuízos financeiros relevantes em maio de 2008, ao fim da primeira temporada de propriedade tailandesa. Shinawatra contratou um ex-executivo da Nike, Garry Cook, para tocar as operações do clube e procurar um novo comprador. Por meio de Amanda Staveley, famosa no círculo financeiro inglês por intermediar dinheiro do Golfo e envolvida na tentativa de compra do Newcastle pela Arábia Saudita recentemente, o City chegou ao xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, que, como Abramovich, havia ficado interessado em investir no futebol inglês após assistir à final da Champions League entre Chelsea e Manchester United em Moscou, naquele mesmo mês de maio.

O livro A Liga: Como a Premier League Se Tornou o Negócio Mais Rico e Revolucionário do Esporte Mundial também traz uma história de bastidor maravilhosa desse negócio. Mais estranho do que pagar quase o dobro por um clube que havia deteriorado rapidamente de valor em um ano foi a única exigência de Mansour: o City tinha que contratar uma super-estrela imediatamente. O problema? No momento em que o negócio estava prestes a ser concretizado, a janela de transferências fecharia em 24 horas.

De certa maneira, era um sonho. Garry Cook e Pairoj Piempognsant, braço direito de Shinawatra, tinham fundos praticamente ilimitados para contratar qualquer jogador do mundo. A treta era convencer algum clube a vender uma estrela sem tempo hábil de substitui-la. Em meio ao caos, houve até uma proposta de € 50 milhões por Lionel Messi feita por acidente – o Barcelona recusou. Depois de prospectar a Europa inteira, a cúpula do City se concentrou em dois nomes: Dimitar Berbatov e Robinho. O desafio era que ambos estavam prestes a assinar com outros clubes ingleses, Manchester United e Chelsea, respectivamente.

O United não deu sopa ao azar. Cobriu a proposta superior do City e enviou um comitê de boas-vindas ao aeroporto para receber Berbatov que incluía Alex Ferguson. Berbatov tinha suas idiossincrasias, mas não chegaria a dizer na cara de Ferguson que preferia assinar com o City a ser o centroavante do Manchester United. Cook enviou uma proposta de £ 32,5 milhões ao Real Madrid, outra tão atraente quanto a Robinho, e esperou o telefone tocar. O acordo com Abu Dhabi já começava a vazar na imprensa inglesa e ele sentia que tudo dependeria da resposta daquele ponta brasileiro de 24 anos.

Robinho topou.

Também havia acusações de violação de direitos humanos contra a família do xeique Mansour que governa os Emirados Árabes, mas esse pelo menos indubitavelmente tinha dinheiro e gastou ainda mais do que Abramovich para transformar o Manchester City no clube que ele é hoje.

E assim, Chelsea e City entraram na nova década quase de mãos dadas. A história de ambos ao longo do futebol inglês é muito parecida. Durante boa parte de um século, ficaram com a cara encostada na janela assistindo a rivais dominando o futebol inglês, eventualmente conseguindo entrar na briga e até vencê-la, às vezes tão longe que mesmo sonhar com protagonismo era impossível. Mas tudo pelo que passaram criou lastro suficiente para serem alvos atraentes de investimento estrangeiro no momento em que a Premier League se abriu de vez, e agora, com donos bilionários no comando, a trajetória paralela que percorreram se encontra neste sábado, na Cidade do Porto.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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