Inglaterra

Bons costumes

 Dois incidentes que aconteceram na última semana voltaram a jogar uma sombra antiga sobre a Inglaterra. No primeiro, que provavelmente seria esquecido logo se não fosse o segundo, Ashley Cole foi pego dirigindo a mais de 160 km/h em uma estrada com limite de 80, e perdeu a habilitação por quatro meses. No seguinte, John Terry perdeu uma ação legal contra um jornal que pretendia publicar – e acabou publicando – a história de seu caso extra-conjugal com uma modelo, ex-namorada de seu companheiro de seleção Wayne Bridge.

Pois é, em princípio, por mais que este assunto tenha dado barulho na Inglaterra, você não o leria aqui. Não estou nem um pouco preocupado com quem come quem, nem com a vida particular de qualquer jogador, por mais estrela que ele seja. O problema é que Terry é casado. Bridge é seu companheiro de seleção. E o zagueiro do Chelsea é o capitão da seleção.

Não é só, aliás, uma questão de quem come quem. Terry tentou impedir a imprensa de publicar a história recorrendo a uma lei criada para a defesa dos direitos humanos. Ou seja: o zagueiro não se contenta em não pensar no que faz, mas também se esforça para não pensar em como reagir ao que faz.

Para quem não se lembra, a Inglaterra viveu em 2006 situação parecida com a do Brasil. O oba-oba em torno da concentração era imenso, e as namoradas dos jogadores, perto deles ou não, chamavam a atenção o tempo todo, mesmo quando estavam fazendo compras. Não foi por outro motivo que Fabio Capello avisou logo depois que a equipe se classificou para a Copa que, na África, não haveria mulheres perto dos jogadores.

No Brasil, poucos lembram quem é o capitão da seleção – no caso, um jogador que já agrediu um companheiro de time com uma cabeçada, diga-se. Na Inglaterra, entretanto, leva-se isso a sério, e o capitão deve ser o líder, e o símbolo, do time. Daí que não pega nada bem para um time que quer deixar no passado a fama de ser formado por um bando de milionários hedonistas que não estão nem aí para a Inglaterra ter como capitão um cara que traiu a mulher com a namorada do companheiro de time.

O caso de Ashley Cole, companheiro de Terry também no Chelsea, só ajuda a trazer de volta a história. E vale lembrar também que, há alguns meses, Terry foi acusado de intermediar visitas ao centro de treinamentos do Chelsea por 10000 libras. Quem fazia o “rolo” era um amigo dele, ou seja, supõe-se que o dinheiro ficava com o amigo. A falta de qualquer limite ético, entretanto, é gritante.

Capello tem pela frente uma saia-justa gigantesca. Se deixar Terry como capitão, passará a mensagem de que seu comportamento não é assim tão grave, e abrirá uma brecha no trabalho mental que vem fazendo desde que assumiu o cargo. Se trocar o capitão, porém, corre o risco de alienar uma das figuras mais importantes – e influentes – do elenco.

É tudo o que a Inglaterra não precisava a poucos meses da Copa do Mundo. Por outro lado, Capello tem uma ótima oportunidade para deixar claro que tipo de grupo pretende levar ao Mundial.

 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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