Inglaterra

Boa escolha, Ten Hag tem enormes e numerosos desafios para se dar bem como técnico do Manchester United

O holandês de 52 anos foi anunciado nesta quinta-feira como o novo treinador do United, a partir da próxima temporada

A segunda goleada sofrida para o Liverpool nesta temporada da Premier League parece ter sido a ignição para o Manchester United intensificar o seu processo de reconstrução. Ou pelo menos gerar notícias suficientes para o torcedor pensar mais no futuro do que no presente. O interino Ralf Rangnick falou com todas as letras que o clube precisará trazer até 10 novos jogadores, os dois principais olheiros foram demitidos e o novo técnico foi finalmente anunciado: Erik ten Hag assumirá na próxima temporada, com contrato até 2025 e opção por mais um ano.

Ten Hag venceu um longo processo seletivo que começou com a demissão de Ole Gunnar Solskjaer em novembro. O diretor de futebol John Murtough e o diretor técnico Darren Fletcher lideraram as entrevistas. Luis Enrique esteve entre os especulados, mas não manifestou interesse de deixar a seleção espanhola antes da Copa do Mundo. Julen Lopetegui, do Sevilla, foi citado por Jorge Mendes, super empresário e próximo de Cristiano Ronaldo. Zinedine Zidane sempre esteve ligado ao cargo, sem um interesse concreto, talvez de olho na França ou no PSG.

No fim, a escolha se afunilou entre Mauricio Pochettino, atualmente no comando dos parisienses, e Ten Hag, ex-técnico do segundo time do Bayern de Munique e condutor de um dos melhores projetos da Europa desde 2017. O seu Ajax ganhou duas vezes a dobradinha nacional e está prestes a levar mais uma edição da Eredivisie. Também chegou à semifinal da Champions League de 2018/19, a minutos de se classificar à final, antes de uma grande reviravolta do Tottenham.

Isso tudo foi atingido com características que apelam ao que o Manchester United precisa. O time de Ten Hag tem uma identidade que dialoga com a do próprio Ajax. Os mercados foram competentes, e os jogadores contratados melhoraram e se desenvolveram, ao contrário do que acontece com muitos reforços dos Red Devils. Tantas vezes o time de Amsterdã apresentou um futebol encantador e ofensivo à altura de um clube com a tradição do Ajax – e também do Manchester United.

Segundo o Guardian e o Manchester Evening News, Ten Hag impressionou a cúpula de futebol do United com sua “paixão, entusiasmo e energia” para começar a resolver os muitos problemas estruturais em Old Trafford. O executivo chefe Richard Arnold entrou no final do processo, e a decisão de contratar Ten Hag foi unânime entre os três. Também não deve ter doído que a sua multa rescisória é cerca de dez vezes menor do que a de Pochettino em seu contrato com o PSG.

Por Southampton e Tottenham, Pochettino demonstrou muitos dos pontos positivos de Ten Hag e teoricamente seria uma escolha mais atraente por ter treinado estrelas do futebol mundial e ter experiência na Inglaterra. O trabalho muito pouco impressionante que faz em Paris deve ter atrapalhado um casamento que sempre pareceu inevitável. Ten Hag também é mais alinhado a Ralf Rangnick, que assumirá um papel de consultor quando a temporada terminar.

“Será difícil deixar o Ajax após anos incríveis e posso garantir os torcedores que estou completamente comprometido e focado em terminar esta temporada com sucesso antes de ir ao Manchester United. Eu conheço a história deste grande clube e a paixão dos torcedores e estou absolutamente determinado a desenvolver um time capaz de entregar o sucesso que eles merecem. É uma grande honra ser nomeado técnico do Manchester United e estou muito empolgado pelo desafio”, afirmou Ten Hag.

O desafio é gigantesco. A reformulação que o Manchester United precisa não se resolve em uma janela de transferências. O estilo de jogo que Ten Hag pregou no Ajax não se aprende da noite para o dia. Ele precisará de tempo e terá que mostrar sinais promissores quase imediatamente para consegui-lo. Desde a aposentadoria de Alex Ferguson, o único técnico que conseguiu alguma paciência foi Solskjaer, pelo seu rico passado no clube e pela identificação com o próprio Ferguson. Nem nomes fortes como Louis van Gaal ou José Mourinho escaparam de fortes críticas ao primeiro sinal de turbulência.

Talvez o maior obstáculo: Ten Hag não é um nome forte, por mais que seu trabalho no Ajax seja admirado por quem acompanha futebol europeu de perto (nota: pouca gente na Inglaterra acompanha futebol europeu de perto), nem é identificado com o Manchester United. Começará com apoio da diretoria e do consultor Rangnick, mas terá que convencer outras instituições, como a arquibancada e ex-jogadores que comentam jogos na televisão, de que vale a pena investir tempo em sua visão.

O contexto pode lhe dar força. O Manchester United levou 9 a 0 do seu grande rival nacional nos dois turnos, o maior placar agregado da história do clássico, não será campeão pelo quinto ano seguido, maior jejum desde 1977-1983, e a vaga na próxima Champions League está em sério risco. É provavelmente o ponto mais baixo da sua história desde a saída de Ferguson. Parece haver consciência de que continuar fazendo a mesma coisa esperando resultados diferentes é loucura. Da boca de Rangnick saem comparações com o processo que o Liverpool passou sob Jürgen Klopp – que imediatamente mudou a cara do time e chegou a duas finais em sua temporada de estreia.

De primeira, muitas decisões difíceis aguardam-no. Cristiano Ronaldo faz uma temporada de muitos gols, mas não está ficando mais jovem. Qual a melhor maneira de contribuir coletivamente ao time? Se o português não gostar da resposta, como será essa conversa? Há contratos chegando ao fim, notavelmente de Paul Pogba e Edinson Cavani. Jogadores encostados terão que ser negociados. Marcus Rashford, antes um incontestável pilar para o futuro, está em má fase e surgiu um burburinho forte de que pode ser negociado.

O entra e sai de jogadores será crucial para Ten Hag começar bem o seu trabalho. O elenco do Manchester United está longe de ser uma unidade coesa e completa. Segundo o Guardian, o holandês exigiu palavra final em transferências, junto com o executivo, o que é ótimo porque a política de recrutamento do clube nos últimos anos foi um desastre. Por outro lado, aumenta a pressão sobre ele se as apostas começarem a dar errado – e algumas sempre dão, ainda mais se forem mesmo contratados cerca de dez jogadores.

O trabalho de Ten Hag no Ajax o credencia a dar o salto para o Manchester United. Durante os últimos anos, ele foi muito especulado em ligas mais ricas, mas nunca mostrou muito interesse em deixar Amsterdã para trás. Se agora topou é porque se sente preparado. Potencial ele tem, e a escolha pelo menos aponta um norte para um dos maiores clubes do mundo. Mas para chegar até lá precisará fazer várias coisas direitinho daqui para a frente e digamos que seu histórico recente não inspira muita confiança. Todos os erros a que tinha direito já foram cometidos.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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