Inglaterra

Big Sam se meteu em uma grande encrenca que lhe custou o cargo dos seus sonhos

Sam Allardyce conseguiu o emprego que sempre quis. Os anos em que passou treinando clubes do segundo escalão para baixo da Inglaterra valeram-lhe um convite para se tornar técnico da seleção inglesa, prontamente aceito pelo veterano de 61 anos. No entanto, o sonho durou 67 dias e um único jogo – 1 a 0 sobre a Eslováquia. Sua demissão, confirmada nesta terça-feira pela Federação de Futebol da Inglaterra, não teve nada a ver com derrotas para a Islândia, incompatibilidade com os jogadores ou qualquer coisa referente à bola. Foi por um escândalo extracampo.

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Uma investigação do jornal Telegraph sobre corrupção no futebol inglês gravou Big Sam oferecendo conselhos para ajudar supostos empresários do extremo oriente – que, na verdade, eram repórteres disfarçados – a burlarem a regra que proíbe terceiros de serem donos de direitos econômicos de jogadores. Essa prática já havia sido banida na Inglaterra em 2008, no rescaldo de toda a polêmica envolvendo Tevez, Mascherano e o West Ham, antes de a Fifa estendê-la para o resto do mundo, em maio do ano passado.

Foi negociado um acordo entre Allardyce e os repórteres para que o técnico da seleção inglesa fosse o embaixador de uma empresa que gostaria de abocanhar uma fatia do já bilionário mercado de transferências da Premier League. Ele receberia £ 400 mil por ano para viajar quatro vezes para Cingapura e Hong Kong e ser o principal palestrante de eventos com investidores que desejariam ganhar dinheiro com jogadores.

Aos seus supostos futuros empregadores, Allardyce afirmou que a “ridícula” regra que impede investidores de serem donos de jogadores “não seria um problema”. Disse que a prática ainda era possível em “toda a América do Sul, Portugal, Espanha e Bélgica” e que alguns agentes “continuam fazendo isso o tempo inteiro”. Lembrou o caso de Enner Valencia, contratado por ele no West Ham, mas o jogador equatoriano teve que ser comprado “por inteiro” antes de assinar com o time londrino.

Sugeriu, como forma de driblar a proibição, que as empresas empreguem os agentes de jogadores e façam um acordo com eles para dividir a comissão. Ou seja, dos 10% que o empresário geralmente tem direito em cima do valor da transferência, ele ficaria com 5% e 5% iria para o fundo de investimento. “O que é muito por aproximadamente duas horas de trabalho”, disse, segundo o Guardian.

A Federação de Futebol da Inglaterra requisitou ao Telegraph a transcrição completa das gravações e prometeu investigar o caso. Nesta terça-feira, o presidente Greg Clarke e o executivo-chefe Martin Glenn realizaram reuniões de emergência em Wembley para discutir o caso. Allardyce viajou de Bolton para Londres para apresentar a sua versão e brigar para continuar no cargo dos seus sonhos. No entanto, foi mal sucedido na empreitada e encerrou sua passagem como o técnico menos longevo da história da seleção inglesa, com exceção de interinos e provisórios.

A investigação do Telegraph colocou Allardyce diante de uma grande encrenca ética. Seria um conflito de interesses que ele recebesse aproximadamente 13% do seu salário anual de £ 3 milhões para dar conselhos a investidores sobre a contratação de jogadores que ele tem o poder de convocar e escalar, como técnico da seleção inglesa. Isso, no entanto, foi o menor dos problemas porque ele repetiu diversas vezes que teria que checar com a FA antes de concordar em fazer qualquer coisa.

Por outro lado, Allardyce de fato deu conselhos sobre como contornar uma regra da qual a sua empregadora foi pioneira, chegando ao ponto de chamá-la de ridícula. E, se ele sabe que existem agentes realizando operações irregulares e executando manobras para mascará-las, por que nunca denunciou?

Se existe uma entidade do futebol mundial que liga bastante para as aparências, seja ou não hipócrita em algumas ocasiões, esta é a FA, que considera o técnico da seleção inglesa como uma espécie de embaixador do futebol do país. Exige uma postura ilibada que não combina com conflitos de interesses e desvios éticos, por mais que nada de ilegal seja comprovado. John Terry, por exemplo, perdeu duas vezes a braçadeira de capitão do time – outro cargo de alto valor simbólico para os cartolas ingleses – por um caso extraconjugal com a mulher de um ex-companheiro de time e por acusações de racismo.

Isso, acima de tudo, foi o empurrãozinho que derrubou Big Sam, como mostra o comunicado oficial da FA sobre a demissão do técnico. “A conduta de Allardyce não foi apropriada para um técnico da Inglaterra”, afirmou a entidade. “A prioridade da FA é proteger os interesses amplos do jogo e manter os altos padrões de conduta no futebol. O técnico do time principal masculino da Inglaterra é uma posição que precisa demonstrar forte liderança e respeito pela integridade do jogo todas as vezes”.

“Ele aceita que cometeu um erro significativo de julgamento e pediu desculpas. No entanto, pela natureza séria das suas ações, a FA e Allardyce decidiram encerrar o contrato com efeito imediato”, completou a FA. Gareth Southgate será o técnico das próximas quatro partidas, contra Malta, Eslovênia, Escócia e Espanha, enquanto os cartolas ingleses procuram um novo treinador.

Allardyce, por sua vez, mostrou-se “profundamente decepcionado” com o que aconteceu e confirmou que pediu desculpas pelas suas ações. “Apesar de eu ter deixado claro durante as conversas que qualquer arranjo teria que ser aprovado pela FA, reconheço que fiz comentários que causaram constrangimentos. Na reunião, eu esclareci o que disse e o contexto em que as conversas aconteceram. Eu também me arrependo dos comentários que fiz em relação a indivíduos”, disse. Ele teceu comentários depreciativos em relação a seu antecessor no cargo, Roy Hodgson, e seu assistente Gary Neville.

E, assim, encerrou-se muito rapidamente o trabalho de Sam Allardyce na seleção inglesa, uma escolha que era contestável, do ponto de vista técnico e futebolístico, antes mesmo de aparecerem escândalos éticos. Afinal, Big Sam sempre foi um técnico mediano, de brigas contra o rebaixamento e meio de tabela. A Inglaterra quer mais? Terá outra chance de mostrar que sim na condução da busca pelo próximo técnico que, a FA espera, consiga durar mais do que dois meses.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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