Inglaterra

Bielsa transformou a sorte e o destino do Leeds, de volta à Premier League após 16 anos

O primeiro desafio do Leeds talvez tenha sido o maior, ter sucesso no que muitos falharam: convencer Marcelo Bielsa a treinar o seu time. A lista de exigências é sempre enorme e, para começar a conversa, todas precisam ser cumpridas. Ele tem que sentir que o sim é inevitável. O casamento era de risco. Um treinador famoso por suas idiossincrasias em um clube famoso por suas idiossincrasias – idiossincrasia aqui servindo de eufemismo para uma saudável loucura. Havia apenas duas opções: daria muito certo ou daria muito errado. Nesta sexta-feira, com a derrota do West Brom para o Huddersfield, o Leeds encerrou um exílio de 16 anos da Premier League. Está de volta. Ou seja, deu muito certo.

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Quando estava negociando a renovação do seu contrato, ao fim de uma temporada dolorida em que o Leeds somou apenas um ponto nas últimas quatro rodadas, foi superado pelo Sheffield United na segunda posição de acesso direto e perdeu para o Derby County nos playoffs, Bielsa tinha uma nova lista de demandas, mas também um diagnóstico muito claro. Segundo o The Athletic, apresentou uma tonelada de números aos diretores e suas soluções. Sabia o que faltava para subir: melhor finalização, melhores empréstimos e menos lesões. “E precisamos de mais sorte. Não podemos ter tanto azar novamente”, acrescentou.

Os últimos dois jogos são uma indicação de que a maré realmente virou. Duas vitórias por 1 a 0 construídas por um gol de Pablo Hernández aos 44 minutos do segundo tempo contra o Swansea e um contra diante do Barnsley. Mas, principalmente, foi um time mais regular. Nem a queda de rendimento entre dezembro e fevereiro – apenas duas vitórias em 11 jogos – tirou o Leeds das duas primeiras posições. A paralisação pode ter ajudado a mitigar a queda física que os times de Bielsa muitas vezes experimentam na reta final das temporadas, mas ele já vinha se recuperando antes disso.

Ocupa uma das vagas de acesso direto para a Premier League desde a 17ª rodada e, desta vez, a ocupará até o fim. Durante os anos em que o Leeds agonizou nas divisões inferiores desde a queda, em 2003/04, quando foi de semifinalista da Champions League a rebaixado em tempo recorde, parecia que isso nunca aconteceria. O clube ficou em frangalhos financeiramente. A estratégia insana de investir o dinheiro que receberia por participações na Champions que ainda não estavam asseguradas encontrou um obstáculo quando o Leeds parou de participar da Champions. Virou até verbete na Wikipedia sobre o que uma administração não deve fazer: “Doing a Leeds”.

E foi daí para baixo. Precisou liquidar o seu time, vendendo nomes como Rio Ferdinand, Mark Viduka, James Milner e Harry Kewell, e passou três anos na terceira divisão. Com exceção de uma participação nos playoffs, em 2005/06, ainda antes da queda à League One, ficou no purgatório da Champioship. Teve duas campanhas em sétimo lugar e seis no meio da tabela, sem chance de subir, sem muito risco de cair. Sem emoção, indiferente, apenas existindo, o pesadelo de uma torcida apaixonada como a do Leeds.

Esse foi um dos motivos que levou a cidade a embarcar no Bielsismo sem restrições porque a única certeza é que não seria chato. Mesmo que fosse um desastre, seria um desastre empolgante. Bielsa acredita que os torcedores merecem mais do que apenas resultados. Merecem a beleza, merecem as emoções. Para ele, o futebol serve para dar alegrias a pessoas que não têm muitas alegrias na vida cotidiana, e isso combina perfeitamente com o perfil operário da cidade de Leeds. O último degrau que leva à estátua de Billy Bremmer em Elland Road diz: “O time antes de si mesmo, sempre”. Bielsa tem o mesmo lema. O time acima de tudo. Não está na forma que ele exige? Fora. Não está correndo tanto quanto ele quer? Fora. Não está com a atitude certa? Fora.

E não importa muito quem você seja. O Leeds contratou o promissor atacante Jean-Kévin Augustin do RB Leipzig em janeiro, mas o colocou para jogar apenas três vezes, 48 minutos no total. Simplesmente não se adaptou ao regime de Bielsa. Ao fim da temporada passada, a diretoria queria vender o jovem Jack Clarke para o Tottenham por € 11 milhões. Bielsa bateu o pé para que ele ficasse, uma das suas exigências para renovar contrato, e acabou aceitando um meio termo. Aprovou a transferência, mas queria que o ponta retornasse por empréstimo. Deu tudo certo. Exceto que Bielsa concedeu apenas 19 minutos em campo para Clarke entre agosto e janeiro e, insatisfeito com os termos, o Tottenham o chamou de volta.

Mas não dá para contestar a eficiência dos métodos de Bielsa. Não no Leeds. O futebol ofensivo, intenso, bonito com a posse de bola, baseado em um sistema coletivo de pressão incessante, transformou o Leeds em um time raro na Championship. E, como nem sempre aconteceu na carreira do argentino, gerou também resultados. Seu aproveitamento é superior a 50%. A vitória por 3 a 0 sobre o Fulham, no fim de junho, foi a 50ª pelo Leeds em 93 partidas. Nenhum treinador do Leeds chegou a essa marca tão rapidamente. Nem Don Revie, lendário treinador que comandou a era dourada do Leeds nos anos sessenta e setenta.

Com o acesso confirmado, a Premier League saliva com a sua nova aquisição. Bielsa será mais uma atração em uma liga já cheia de atrações. Travará duelos com o pupilo Pep Guardiola e outros grandes treinadores que ajudou a influenciar. E provavelmente o fará em um estado raro da sua carreira: tendo acabado de ser campeão. Falta um ponto nas últimas duas partidas ou um tropeço do Brentford para assegurar o título da Championship, seu primeiro no futebol de clubes desde o Clausura de 1998 com o Vélez Sarsfield – ganhou a medalha de ouro com a Argentina no meio do caminho.

Nunca faltou paixão ou conhecimento a Marcelo Bielsa. Qualquer relato da época em que militou no futebol precisará citá-lo pela importância na formação de tantos grandes treinadores, pelos seus pensamentos e ideais, pelo fetiche pela análise minuciosa que tanto cultiva. Um personagem tão grande, porém, precisa de uma lista de feitos maior, mesmo que ele, pessoalmente, não dê importância para isso. O acesso com o Leeds, a relação com a torcida e a cidade, entrarão como um de seus maiores feitos.

O Leeds perdeu três de seus ídolos nos últimos meses. Norman Hunter, Jack Charlton e Trevor Cherry não sobreviveram para ver o retorno à primeira divisão. A torcida merecia esse acesso. Merecia também pela intensidade com que amou o clube, mesmo em seus períodos mais sombrios, e o futebol, como a vida, é cíclico. Outra lenda foi acrescentada à vasta lista de um dos clubes mais relevantes da Inglaterra. A lenda de Marcelo “El Loco” Bielsa.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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