“Beautiful game” à Scolari

Afirmar que os times de Luis Felipe Scolari são bons na defesa e econômicos no ataque é estereótipo. Em 1996, o técnico fez do Grêmio o melhor ataque do Brasileirão, o mesmo ocorreu com o Palmeiras na primeira fase da edição de 1998 do torneio. Mesmo assim, o técnico ficou com a fama de retranqueiro em seu país. Assim, causou estranheza a idéia de Roman Abramovich de levar o gaúcho para o Chelsea com a missão de dar beleza ao futebol azul.
Pois Felipão, agora na versão “Big Phil”, tem mostrado mais uma vez sua incrível capacidade de adaptação. Neste início de temporada, o técnico tem feito exatamente o que o patrão e a torcida azul esperavam: o Chelsea tem adotado uma formação bastante ofensiva, priorizando a força do meio-campo como elemento para impor seu jogo diante do adversário.
Isso ficou muito evidente no duelo contra o Manchester City, o primeiro adversário razoavelmente complicado – pelo menos em teoria – dos Blues na Premier League 2008/9. Neste jogo, os londrinos entraram em campo em um 4-1-3-2. O único setor sem muitas modificações em relação ao esperado era a retaguarda: Bosingwa, Ricardo Carvalho, Terry e Ashley Cole formaram a linha defensiva, sendo que os laterais tinham alguma – não total – liberdade para avançar.
O meio-campo é que trouxe algo diferente: Obi Mikel foi o único volante, protegendo sozinho a defesa e tendo diante de si o trio Lampard, Deco e Malouda (esse último, aberto pela esquerda). Em alguns momentos, Joe Cole deixava o papel de segundo atacante para ficar como meia aberto pela direito, formando uma linha de quatro armadores em que dois podiam atuar até como pontas. Na frente, Anelka era o único atacante de ofício.
As duas variantes (4-1-3-2 e 4-1-4-1) lembravam a Espanha campeã da Eurocopa, ainda que o estilo de jogo das duas equipes seja muito diferente (os espanhóis, por exemplo, usavam menos as pontas e trocavam mais passes na entrada da área adversária). Com esse sistema de jogo, as tabelas entre os Lampard, Deco e Joe Cole se tornaram a base do jogo azul.
Aí, bastou um desses jogadores – Lampard – estar em fase iluminada para o futebol do Chelsea se soltar. O meia comandou as ações da equipe, marcando, conduzindo a bola desde a intermediária, abrindo o jogo, trocando passes com Deco e decidindo no ataque. Parecia o meia que foi o terceiro melhor do mundo na eleição da Fifa em 2005, não o jogador que vivia de lampejos nas duas últimas temporadas.
É evidente que esse Chelsea que joga bonito é ainda um projeto. No próximo fim-de-semana, os Blues enfrentam o Manchester United e Felipão terá de pensar se realmente é viável ter apenas um volante protegendo a zaga. O treinador parece estar atento a isso, tanto que já tem usado Belletti nessa posição e especula a contratação de Mineiro como tampão para Essien, contundido no início da temporada.
Outro problema do técnico brasileiro é lidar com eventuais mudanças no meio-campo. Se parece natural que Anelka saia com o retorno de Drogba no ataque, ainda não se sabe exatamente o que fazer depois que Ballack se recuperar de contusão. Em um setor que funcionou bem nessas primeiras partidas, a entrada do alemão pode ser delicada, ainda que ele tenha talento de sobra para justificar sua presença no 11 titular.
Como faltam ainda nove meses para o final da temporada, há tempo de sobra para o Chelsea acertar e errar. No entanto, o princípio de praticar um futebol ofensivo e empolgante parece pautar as decisões nesse início de temporada. Mesmo com o “retranqueiro” Felipão comandando o time no banco de reservas.
Manchester United perde clássico, não favoritismo
Liverpool x Manchester United é, para muitos, o maior clássico do futebol inglês. Os dois clubes vêem da mesma região da Inglaterra, são os maiores campeões do Campeonato Inglês e têm duas das maiores torcidas do país. Assim, o que ocorre em um duelo dos dois times vermelhos não pode ser ignorado jamais.
Isso posto, o Liverpool ganha um grande impulso com a vitória por 2 a 1 no último sábado. Além de quebrar um tabu de sete anos sem vencer o rival em casa, o time de Merseyside provou que tem condições de enfrentar – e bater – em um dos favoritos reais ao título. O que talvez indicasse que a luta pelo campeonato seria viável.
Não tão cedo. Os Reds mostraram grande determinação para virar a partida, mesmo com Fernando Torres e Gerrard começando a partida na reserva (poupados para a estréia na Liga dos Campeões). Assim, o protagonismo caiu sobre Carragher e Mascherano, fundamentais para passar o espírito batalhador à equipe. Ofensivamente, Kuyt e Babel (que entrou no segundo tempo no lugar do inoperante Riera) deram fluidez às jogadas pelas laterais e comandaram as ações ofensivas.
No entanto, é inegável que o Liverpool teve ajuda providencial da atuação apagada do adversário. Van der Sar estava em uma tarde particularmente insegura, soltando bolas fáceis – uma delas resultou no gol de empate dos Reds, marcado contra por Brown após saída desastrada do goleiro holandês – e o meio-campo com Scholes, Anderson e Carrick não funcionou. O trio ofensivo Berbatov-Tevez-Rooney teve alguns momentos interessante, mas também mostrou carecer e entrosamento.
É difícil e errado projetar o que o Manchester United faria se tivesse Cristiano Ronaldo em campo e uma equipe mais concentrada. No entanto, isso serve para deixar em suspenso a avaliação do Liverpool. Ainda que os Reds sejam um dos grandes da Inglaterra no momento, ainda parece ter menos força que o rival. O modo de compensar isso é se entregar em campo como no último sábado. Mas é possível fazer isso por dez meses?



