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BBC dá um soco no queixo do Estádio Olímpico, o elefante branco de Londres-2012

Custos altos bancados pelo poder público, projetos equivocados e um acordo nebuloso. Poderia ser a história de algum estádio construído para a Copa do Mundo de 2014, mas trata-se do Estádio Olímpico de Londres, levantado para a Olimpíada de 2012 no leste da cidade. Após uma longa novela, ele foi cedido por 99 anos para o West Ham, em um acordo que causou arrepios a quem tem cuidado do dinheiro público. Com uma excelente matéria sobre o assunto, a BBC deu um soco no queixo desse contrato, que prevê quase nenhuma contrapartida para a prefeitura e muitas vantagens para o clube e seus donos. Não à toa, pelo que o Estado ainda terá que gastar para passá-lo à frente, estão chamando-o de elefante branco.

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Custo de conversão

O estádio custou £ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões) e será praticamente doado, o que configura um grande problema, mas o grande absurdo da história é que o contribuinte inglês terá que desembolsar mais £ 272 milhões (quase R$ 1,5 bilhão no alto câmbio de atualmente, ainda assim, equivalente ao custo do Mané Garrincha, o mais caro da Copa do Mundo de 2014). E o West Ham não paga nada dessa conta, apenas as £ 15 milhões (R$ 82 milhões) pelo acordo de 99 anos. A reforma nem será tão satisfatória porque o comitê do legado de Londres exige que se mantenha o design do estádio e a pista de corrida, porque a cidade pretende sediar eventos de atletismo no estádio. Mas o campo acaba ficando muito longe do gramado. Isso tudo porque o Estádio Olímpico não foi construído já com a ideia clara de que se tornaria o estádio de um clube de futebol, ao contrário do Cidade de Manchester, levantado para os Jogos da Comunidade (Commonwealth), no começo do século. Sabia-se desde o início que ele seria transferido ao Manchester City. A conversão custou £ 62 milhões (R$ 340 milhões), valor já ajustado pela inflação.

Falta de contrapartidas

A situação piora para o erário de Londres porque o contrato com o West Ham ainda prevê que o poder público banque serviços como aquecimento, iluminação, manutenção dos vestiários, custo dos ingressos, segurança, banheiros, manutenção e aquecimento dos gramados e até as traves, as redes e as bandeiras de escanteio. Segundo a BBC, a um custo adicional entre £ 1,4 e £ 2,5 milhões por ano. Mas esse dinheiro pode ser recuperado com acordos comerciais, certo? Não exatamente. Ainda não se sabe quem ficará com o lucro dos restaurantes, hotéis e naming rights. Porque além de tudo há uma tremenda falta de transparência.

Concorrência desleal

A região do Estádio Olímpico, no leste de Londres, bairro de Stratford, abriga outros dois clubes, o Charlton e o Leyton Oriente, e ambos estão preocupados com a concorrência desleal que implicará a mudança do West Ham. Os Hammers oferecerão, afinal, futebol de primeira divisão e fecharam um acordo para ceder 100 mil ingressos de graça ao longo do ano, além de reduzirem o valor do tíquete de temporada para £ 99 libras.

Os torcedores do Charlton, portanto, pediram o contrato, sob a Lei de Acesso à Informação, e receberam quase 300 páginas com informações irrelevantes expostas e as mais importantes cobertas por tinta preta. De acordo com o departamento que controla o relatório, são “informações comerciais confidenciais”. Um fã do Charlton afirmou que eles chegaram a mencionar até segurança nacional. “Foi o motivo que me fez dar risada”, disse. A oposição cobra que todos os detalhes do acordo sejam divulgados ao público.

Especulação

David Sullivan e David Gold compraram o West Ham, em 2010, em um momento em que o clube estava praticamente falido. Naquela época, afirmaram que o negócio não valia a pena do ponto de vista comercial, mas haviam sido atraídos pela tradição do time. Já afirmavam que o Estádio Olímpico era essencial na sua estratégia e estavam certos. Pagaram £ 100 milhões (R$ 351 milhões) quatro anos atrás, e quando anunciaram a mudança para a nova arena, o West Ham já estava avaliado em £ 400 milhões (R$ 1,4 bilhão).

O sinal amarelo de especulação começou a piscar na Inglaterra. Catarianos estão investindo no parque olímpico e já controlam mais da metade dos empreendimentos. Especialistas acreditam que até 2020 o West Ham será propriedade deles ou de chineses ou de americanos. E o acordo que o clube firmou com o poder público pode muito bem configurar uma afronta às leis comerciais da União Europeia, que impedem o Estado de favorecer uma empresa em relação à outra. Duas reclamações de pessoas físicas já foram enviadas à Comissão Europeia para investigar esse caso.

O outro lado

O West Ham e o prefeito de Londres, Boris Johnson, chefe da organização da Olimpíada de Londres, não quiseram dar entrevista para a BBC. Em comunicado, o clube afirmou que a cidade perderia dinheiro sem o acordo e que “está pagando a sua parte”. O político disse o Estádio Olímpico continua sob domínio do poder público e sediará vários eventos. Ainda disse que “assegurou um investimento sustentável de longo prazo para proteger um estádio icônico”.

A matéria inteira, de quase 30 minutos, pode ser vista no vídeo abaixo, em inglês:

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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