Inglaterra

Balotelli racista? A FA está cada vez mais parecida com o STJD

O Instagram de Mario Balotelli não é nada convencional. Basta um olhar de relance na primeira página para ver o jogador italiano parecendo um leão, um polvo, vestido de sith, soltando fogo pela boca e tentando destruir a terra com um meteoro. O observador não precisa nem ser atento para perceber que ele gosta de publicar besteiras e brincadeiras. Mesmo quando o assunto é sério. Para mandar uma mensagem contra o racismo, postou um desenho bobo do Mario Bros que brinca com estereótipos e agora pode ser punido por racismo, por causa da rígida regulamentação da Federação de Futebol inglesa a respeito das redes sociais.

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Sim, Balotelli parece ser um Botafogo europeu, e tem coisas que só acontecem com ele, mas antes de entrar nesse assunto vamos explicar o caso. O cartaz falava: “Não seja racista: seja como Mário. Ele é um encanador italiano, criado por japoneses, que fala inglês e parece mexicano. E pula que nem um negro e agarra moedas que nem um judeu”.

balotelli mario

As últimas duas comparações foram consideradas racistas por muitos internautas. A reação imediata foi responder: “Calem a boca, minha mãe é judia”. Depois, pediu desculpas mais educadamente:

“Perdão se ofendi alguém. A postagem era para ser anti-racista, com humor. Eu agora entendo que fora do contexto pode ter o efeito oposto. Não são todos os mexicanos que têm bigodes, não são todos os negros que pulam alto e não são todos os judeus que amam dinheiro. Eu usei um desenho feito por outra pessoa porque tinha o Super Mario (um dos seus apelidos) e eu pensei que era engraçado e não ofensivo. Novamente, me desculpem”

A Federação de Futebol da Inglaterra pediu que Balotelli explicasse a postagem. Tem até sexta-feira para enviar o documento. Caso não convença os dirigentes, pode ser punido com cinco partidas de suspensão, a pena mínima para quem infringe a regulamentação da FA para racismo nas redes sociais. O Liverpool também prometeu que conversará com o jogador para descobrir o que aconteceu e deve multá-lo por ter desrespeitado as normas do clube para a internet.

Desde 2011, controlar o que os jogadores postam nas suas redes sociais virou um hábito quase compulsivo da federação inglesa. A entidade arrecadou R$ 1,3 milhão com multas nesse período, depois de averiguar 120 casos, dar apenas uma bronca em 16 e investigar 60. E não serve apenas para coibir racismo, preconceito, machismo ou mensagens ofensivas. Na realidade, chamar a FA de “um bando de pentelhos” rende uma multa duas vezes mais cara que chamar Ashley Cole de “choc ice”, ou seja, negro por fora, branco por dentro. Isso à parte, o patrulhamento exagerado da federação às redes sociais está começando a incomodar os ingleses e a se assemelhar ao STJD brasileiro, sempre com um promotor atento às rodadas para pescar críticas a árbitros, dirigentes ou à própria CBF.

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Como sempre, o exagero cria uma situação ridícula e esfumaça a a intenção inicial de combater o racismo. Esse patrulhamento excessivo vem motivando a imprensa inglesa a discutir se a FA não está começando a ferir a liberdade de expressão dos atletas, e principalmente, se o papel dela é realmente julgar se alguém cometeu um crime ou não, também como o tribunal brasileiro, que coloca a capa preta nas costas como se fosse parte do judiciário e nada mais é do que um departamento de uma entidade privada. O mais correto não seria esperar o sistema legal do país condenar o jogador e então impor uma sanção esportiva?

No Guardian, a jornalista Marina Hyde questiona se não seria uma medida condescendente da entidade considerar os torcedores “muito frágeis para serem expostos aos pensamentos sem filtros dos jogadores aos quais assistem” e se não seria melhor “permitir que eles digam o que quiserem e deixar para as autoridades que já existem decidirem se aquilo merece uma censura formal ou uma intervenção”. Arremata, ironicamente: “Mas quem a sabe a sociedade não se beneficia com um monte de homens brancos e velhos dizendo para Balotelli que ele é racista e anti-semita”.

Balotelli não é racista e anti-semita. Nem anti-hispânico e a favor de encanadores italianos. Balotelli é inocente. A maturidade de um adolescente encarcerada no corpo de uma super estrela de 24 anos, cada vez mais pressionada a atuar melhor na Inglaterra. Digamos que uma pessoa que solta fogos de artifício no banheiro da própria mansão parece ser alguém que prioriza a diversão, sem pesar prós e contras ou avaliar consequências. “Eu realmente gostaria de me sentar e almoçar com ele, eu pagaria por isso se fosse necessário, para descobrir quem ele realmente é”, afirmou Fiona May, conselheira anti-racismo da Federação Italiana. “Porque ele é apenas uma criança. Ainda não cresceu. Precisa se acalmar e se concentrar em ser um bom jogador de futebol”.

Pirlo escreveu em sua autobiografia que Balotelli pode ser um símbolo da luta da Itália contra o preconceito, um antídoto contra o veneno do racismo. Humilhado por idiotas como jogador da Internazionale, do Milan e da seleção, em treinos e Eurocopas, ele não merece ser tratado como um racista. Porque não é e não foi. Publicou aquele desenho porque gosta do Mario Bros e queria enviar uma mensagem anti-racismo. Não pensou em todas as ramificações sociais implicadas. Foi impulsivo, como criança costuma ser. O setor do seu cérebro que fala “melhor não” ainda não está muito desenvolvido. Precisa de conselhos, o que se assemelha ao que o Liverpool pretende fazer, com uma conversa e uma multa, o equivalente a dar uma bronca e tirar o videogame. Taxá-lo de racista e suspendê-lo por cinco partidas seria mais trancá-lo no porão escuro depois de uma surra .

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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