Inglaterra

Autorizado a sonhar

Apesar de ter provocado várias reações negativas, a demissão de Mark Hughes do Manchester City faz algum sentido. A forte crise do Liverpool sinalizava uma excelente oportunidade para os Citizens chegarem à quarta posição da Premier League com relativa tranquilidade. Contudo, uma série impressionante de empates (como os caseiros diante de Fulham, Hull e Burnley) despertou as ascensões de Aston Villa e Tottenham e a ira de uma diretoria que acredita na possibilidade de acelerar o crescimento do clube.

A expectativa em torno da equipe passou a ser muito grande em virtude das ótimas manobras no mercado de verão. Além de compor o elenco de forma equilibrada e qualificada, o Manchester City enfraqueceu potenciais rivais na luta pelas primeiras posições. Lescott, Barry, Touré e Adebayor fazem muita falta a Everton, Aston Villa e Arsenal, ainda que os dois últimos estejam em boa temporada. No manejo do fortalecido plantel, Hughes até foi competente. Ele havia encontrado o time e o esquema ideais, especialmente quando percebeu que Barry precisava da companhia do mais combativo De Jong na marcação.

Entretanto, a defesa ruiu após as primeiras rodadas. Apesar de Given, o City sofreu 16 gols nos sete últimos jogos de Hughes, mais do que o Chelsea no turno inteiro. Recém-contratado, o treinador italiano Roberto Mancini tem um desafio claro: derrubar a média de gols dos adversários. Se conseguir, será um paradoxo. Com lesão no joelho, Lescott deve voltar apenas em fevereiro. Para piorar, Kolo Touré defenderá a Costa do Marfim na Copa das Nações Africanas durante o próximo mês. A solução mais óbvia é formar a zaga com Onuoha e Kompany. Em último caso, Micah Richards pode atuar na defesa central. Embora o italiano tenha estreado com vitória sobre o Stoke por 2 a 0 no Boxing Day, os Sky Blues ainda não foram suficientemente sólidos.

Por outro lado, as ambições de Mancini ganham um alento com o poder ofensivo. Barry já se recupera do mau início de temporada e divide com Ireland ou Wright-Phillips a responsabilidade pela distribuição de jogadas. Bellamy, Petrov e, especialmente, Tevez estão em ótima fase e compensam as sucessivas decepções com Robinho. A perda de Adebayor durante janeiro é significativa, mas está longe de ser comparável aos problemas de Portsmouth e Chelsea, que liberam para a Copa das Nações Africanas seis e quatro jogadores, respectivamente.

As características do elenco não apontam para um esquema à italiana, como o adotado por Carlo Ancelotti no Chelsea. O Manchester City parece mesmo ter vocação para o 4-3-3. A abundância de atacantes propensos a cair pelos lados e a escassez de meias habilidosos devem obrigar Mancini a manter o sistema de Hughes. O contraponto à tendência lateral é a facilidade de Tevez em atuar como centroavante. O argentino marcou cinco gols nos últimos cinco jogos e parece preparado para o revezamento com Santa Cruz durante a ausência de Adebayor.

A sequência de jogos é ótima. O City só encontrará um rival hoje acima na tabela na 28ª rodada, quando vai a Londres para enfrentar o Chelsea. A proximidade com a quarta posição e as boas perspectivas permitem ao time crer fortemente na conquista de uma vaga na próxima Liga dos Campeões. Talvez Robinho tenha razão quando diz ter certeza de que “o clube pode terminar bem a temporada” .

Problema inusitado

Há dois anos, Rafa Benítez enfrentava dificuldades na gestão do elenco do Liverpool. Ele contava com Gerrard, Xabi Alonso, Mascherano, Sissoko e Lucas, todos com boa reputação internacional e afeitos a atuar na faixa central do meio de campo. Naquela época, o esquema ainda era o clássico 4-4-2. Havia, portanto, cinco jogadores de grande qualidade para ocupar apenas duas posições. O treinador espanhol buscou alternativas para resolver seu “doce dilema”: deslocou Gerrard para o lado direito, promoveu intensa rotação e argumentou que o malinês e o brasileiro eram “jogadores para o futuro”.

Em janeiro de 2009, a Juventus ofereceu 11 milhões de euros por Sissoko. Benítez escolheu o caminho óbvio e preferiu vendê-lo. Hoje, essa decisão faz enorme diferença. Desde a fase final de 2008/09, o Liverpool mudou para o 4-2-3-1, com dois volantes e Gerrard adiantado. Após a inevitável venda de Xabi Alonso ao Real Madrid, o time passou a jogar com Lucas e Mascherano no setor de marcação, mas ambos fazem temporadas fracas, e o argentino já ensaia transferência para o Barcelona. Os Reds convivem com uma escassez terrível na posição que, há pouco tempo, era a mais abastada do plantel.

A solução poderia ser Alberto Aquilani. Apesar de aparentemente não ter a confiança de Benítez para ser o substituto de Xabi Alonso, o italiano iniciou seu primeiro jogo no campeonato no Boxing Day, contra o Wolverhampton. No entanto, o ex-romanista foi muito discreto, errou passes fáceis no fim do jogo e só não comprometeu defensivamente porque os Wolves não agrediram muito. Fora de ritmo ou não, Aquilani deve imaginar que pode não ter tempo para ser a salvação da temporada do Liverpool.

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