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As virtudes que tornam Ferguson tão representativo

Duas Ligas dos Campeões. Duas Recopas Europeias. Treze Campeonatos Ingleses. Três Campeonatos Escoceses. Cinco Copas da Inglaterra. Um Mundial de Clubes. Um Mundial Interclubes. Os principais títulos conquistados por Sir Alex Ferguson já dizem muito sobre sua história dentro do futebol. Sua contribuição ao esporte, entretanto, vai muito além das taças levantadas ao longo dos quase 40 anos como técnico.

Ferguson nunca foi um grande estrategista. Não trouxe grande inovação tática para o futebol. Seu melhor Manchester United, campeão da tríplice coroa em 1999, jogava no tradicionalíssimo 4-4-2. Simples, mas extremamente funcional para as peças que tinha em mãos. E é neste ponto que se concentra um dos maiores valores do treinador: a capacidade de montar grandes times. Sobretudo, de recriar um grande clube.

As façanhas com o Aberdeen

Foi assim na primeira passagem vitoriosa da carreira, pelo Aberdeen. Os Reds eram um clube mediano da Escócia. Presente na primeira divisão desde o início do Século XX, o clube havia conquistado um Campeonato Escocês e duas Copas da Escócia até 1978. Transformou-se em uma potência nacional nas mãos de Ferguson, o último a rivalizar com Rangers e Celtic pela hegemonia na liga.

Para mudar o Aberdeen de patamar, Ferguson apostou basicamente em jogadores jovens. Soube aproveitar as categorias de base e ajudou a desenvolver promessas trazidas de outros clubes. Três vezes campeão do Campeonato Escocês, conquistou sua maior glória na Recopa Europeia de 1982/83. Depois de deixar pelo caminho o Bayern Munique, derrotou o Real Madrid na decisão. Os Reds não eram brilhantes, mas extremamente determinados e coesos, o que os impulsionou ao sucesso.

O império com o United
Ferguson reclama à beira do campo: não é apenas virtudes (AFP PHOTO / ANDREW YATES)
Ferguson reclama à beira do campo: não é apenas virtudes (AFP PHOTO / ANDREW YATES)

No Manchester United, os predicados continuaram os mesmos. Ferguson demorou para conquistar sua primeira taça, para iniciar sua dinastia. O impulso veio através de uma geração talentosa formada em Manchester, encabeçada por Ryan Giggs e David Beckham. Principalmente, através de movimentações perspicazes no mercado de transferências: Eric Cantona, Peter Schmeichel, Denis Irwin, Roy Keane, entre outros.

A eficiência na reconstrução constante de um time que, a partir de 1992/93, não passou mais de um ano sem conquistar títulos se manteve na sequência. Além de saber contratar, Ferguson também mostrou como se faz uma readaptação: seja de todo o estilo de jogo da equipe, como no início dos anos 2000, ou de um jogador específico, exemplificado pelas metamorfoses de Giggs. É verdade que Kleberson, Jordi Cruyff e Bebê também podem ser citados como responsabilidade do escocês – algumas contratações, inclusive, com suspeitas de fraudes por trás. No entanto, é inegável que os acertos são maiores que os erros.

Tanto poder de mercado também foi possibilitado pela revolução que Ferguson ajudou a promover nos bastidores do Manchester United. Escorado pela diretoria, auxiliou a formar uma marca global. Em 1986, os Red Devils nem de longe apontavam a possibilidade de terem faturamentos milionários. A expansão do clube veio graças aos títulos, bem como da transformação do futebol inglês a partir da Premier League.

O legado de Ferguson

Ferguson se despede do comando técnico do Manchester United com o dever mais que cumprido. Com 1500 partidas à frente dos Red Devils, teve tempo suficiente para conquistar 38 títulos. Sai ao lado de David Gill, chefe-executivo a partir de 2003 e responsável não apenas por alcançar uma receita anual de € 396 milhões, como também por gerir a controversa passagem da família Glazer pelo controle do clube. Juntos, deixam estabilidade esportiva e financeira para que a transição seja bem feita.

Ainda na diretoria do United pelo próximo ano, Ferguson certamente guiará os passos de seu substituto. Poderá ensiná-lo a lidar com estrelas, a manter o bom aproveitamento de seus jogadores, a buscar reforços pontuais ao elenco, a estabelecer um estilo de jogo direto e eficiente – talvez até mesmo a ser um pouco ranzinza. Suas principais marcas como técnico, que poucos conseguiram desempenhar com tanta maestria. E que servem de exemplo para qualquer um, aprendiz de treinador ou somente apaixonado por futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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