Após fim de semana caótico e boicote de funcionários, Lineker voltará a apresentar o Match of the Day na BBC
A emissora, cuja programação esportiva ficou de pernas para o ar no fim de semana, anunciou apenas uma "revisão" da sua política de redes sociais, após suspender Lineker na sexta-feira por um tuíte critico a uma lei do governo dos Conservadores
Após um fim de semana caótico, em que toda a sua programação esportiva foi prejudicada pela suspensão de Gary Lineker e pelo boicote de colegas que discordaram da decisão, a BBC decidiu restaurá-lo como apresentador do seu principal programa, o Match of the Day, e conduzir uma revisão independente das suas regras para as redes sociais, meio que resolvendo a disputa sem realmente resolvê-la.
Tudo começou com um tuíte de Lineker, a figura mais bem paga da BBC, comparando a linguagem de uma lei de imigração com a Alemanha nazista. O governo do Partido Conservador reagiu com ferocidade, apontando que aquela opinião feria o princípio de imparcialidade da emissora pública. Exigiu um pedido de desculpas, e Lineker se recusou a fazê-lo. Na sexta-feira, a BBC anunciou a suspensão do ex-jogador enquanto discutisse orientações para o uso de redes sociais.
Foi um tremendo tiro no pé porque, começando com Ian Wright, todos os possíveis substitutos de Lineker se recusaram a apresentar ou fazer o Match of the Day, o principal programa esportivo da emissora, com um resumo dos jogos da Premier League, análises, comentários, gráficos, entrevistas e tudo mais. O problema se estendeu a outras propriedades da emissora relacionadas a futebol, como o Football Focus, apresentado pela ex-jogadora Alex Scott na hora do almoço do sábado, e ao rádio. Até a BBC da Escócia teve que limitar sua programação esportiva por causa dos boicotes de funcionários.
A BBC veiculou um pedido de desculpas por “não conseguir exibir nosso Match of the Day habitual” e colocou no ar um compilado de melhores momentos dos seis jogos de Premier League do sábado que durou apenas 20 minutos (aproximadamente três por partida, como nos clipes de YouTube), apenas com o som ambiente, sem locução, sem nenhum contexto, sem entrevistas. Uma olhada para o celular poderia bastar para perder o momento em que o Manchester City consegue um pênalti para finalmente vencer o Crystal Palace.
Lineker, que enquanto tudo isso acontecia saiu da sua casa em Londres e viajou a Leicester para ver o seu ex-clube perder para o Chelsea, sem dar uma palavra à imprensa, afirmou em um comunicado conjunto com o diretor-geral da BBC, Tim Davie, que ficou feliz por “encontrar uma maneira de seguir em frente” e que apoia a revisão das regras de redes sociais – a única coisa que mudou entre sexta e segunda-feira, com exceção da vergonha que a emissora passou com um fim de semana inteiro sem recursos para cobrir futebol.
Embora Davie tenha dito que, enquanto a revisão é feita, Lineker “seguirá as orientações editoriais”, outro sinal de que pouca coisa mudou é que, em uma série de tuítes em que agradece o apoio dos colegas, Lineker soltou outra opinião política que, se é menos partidária e específica do que a que começou todo este episódio, ainda simpatiza com os refugiados. “Após alguns dias surreais, estou feliz por ter encontrado uma maneira de navegar tudo isso. Quero agradecer todos vocês pelo incrível apoio, especialmente dos meus colegas da BBC Sport, pela incrível demonstração de solidariedade. Futebol é um esporte de equipe, mas o apoio deles foi enorme”, disse.
“Apresento esportes na BBC por quase três décadas e estou muito orgulhoso de trabalhar para a melhor e mais justa emissora do mundo. Mal posso esperar para voltar à cadeira do Match of the Day no (próximo) sábado. Um pensamento final: por mais difícil que os últimos dias tenham sido, simplesmente não se compara com ter que fugir de perseguição ou guerra em sua casa para buscar refúgio em uma terra distante. Aquece o coração ter visto a empatia de muitos de vocês com a situação difícil deles. Continuamos sendo um país com pessoas predominantemente tolerantes, receptivas e generosas. Obrigado”, acrescentou.
Tim Davie pediu desculpas pelo momento “difícil para funcionários, contribuidores, apresentadores e, principalmente” espectadores e admitiu haver “áreas cinzas” na política de redes sociais rígida que ele introduziu em 2020, já sob pressão do governo dos Conservadores. O que tornou o episódio de Lineker mais confuso é que essas regras deveriam se aplicar apenas aos funcionários que trabalham com notícias e política, não com esporte. Sem falar que Lineker presta serviços à BBC como um freelancer.
E existe um questionamento legítimo de seletividade porque a BBC não teve nenhum problema com as fortes críticas de Lineker às violações de direitos humanos do Catar durante a Copa do Mundo do ano passado, mas ele foi suspenso no momento em que o seu ativismo atingiu diretamente os Conservadores. “Questões muito maiores permanecem sobre a imparcialidade e independência da BBC às pressões do governo”, afirmou a secretária-sombra de Cultura do Partido Trabalhista, Lucy Powell.
Mesmo políticos ligados aos Conservadores criticaram a maneira como a BBC lidou com o caso, enquanto um parlamentar chamado Philip Davies disse que foi uma “capitulação patética” permitir que Lineker voltasse à televisão. O primeiro-ministro, Rishi Sunak, disse que “é correto” que o assunto tenha sido resolvido e que “está feliz que isso aconteceu”.
Mas um problema bem maior para a BBC veio à tona por causa da suspensão de Lineker porque críticos apontando hipocrisia na decisão de sexta-feira questionaram como que o presidente da emissora, Richard Sharp, ser um doador do Partido Conservador, ex-chefe de Rishi Sunak no banco Goldman Sachs e ter intermediado um empréstimo de £ 800 mil a Boris Johnson, antecessor de Sunak, não fere o princípio de imparcialidade da BBC.
Neste momento, Sharp é alvo de duas investigações diferentes e está sendo criticado por não ter revelado esse possível conflito de interesses enquanto era entrevistado para o cargo.



