A suspensão de Lineker pela BBC, após criticar o governo britânico, mobiliza figuras do futebol em seu apoio
Lineker comparou nova política para imigrantes ilegais com a "Alemanha nazista" e, ao ser suspenso, viu vários colegas tomarem o seu lado
A principal manchete do futebol inglês nesta sexta-feira não envolve diretamente a Premier League ou qualquer campeonato, mas a imprensa esportiva. Ao longo da semana, uma grande controvérsia se instaurou entre Gary Lineker e a BBC, sua empregadora. O ex-atacante, apresentador do tradicionalíssimo programa Match of the Day, postou comentários nas redes sociais comparando as novas restrições do governo britânico na deportação de imigrantes ilegais com as políticas da Alemanha nazista. A BBC, que é uma TV pública, exigiu a retratação de seu funcionário – o que Lineker não aceitou fazer. Já nesta sexta-feira, foi anunciada a suspensão de Lineker do Match of the Day enquanto não se estabelecer uma “orientação sobre o uso das redes sociais”. Vários colegas se solidarizaram e não participarão do MOTD, incluindo Ian Wright e Alan Shearer.
Gary Lineker foi bastante incisivo em seus comentários no Twitter sobre a nova legislação do governo britânico. O primeiro-ministro Rishi Sunak apresentou um projeto de lei que visa barrar barcos com imigrantes que tentarem entrar no Reino Unido através do Canal da Mancha. A proposta proíbe quaisquer entradas ilegais no país e também pedidos de asilo por estas pessoas. Os imigrantes ilegais detidos serão levados de volta a seu país de origem ou a uma terceira nação, como Ruanda – com a qual o Reino Unido possui acordos de imigração. Além disso, qualquer um que entrou ilegalmente no território britânico ficará proibido de voltar. A justificativa é de que a chegada de imigrantes ilegais passou de 300 em 2018 para 45 mil em 2022. O governo, independentemente disso, vem sendo bastante criticado pela rigidez do projeto e a mensagem de Lineker esteve entre as que mais repercutiram.
“Deus do céu, isso é pra lá de horrível”, comentou Lineker, sobre o anúncio da nova política proposta pelo governo do Reino Unido. Depois, a uma resposta que dizia que seu pensamento era “inadequado”, o ex-atacante respondeu: “Recebemos muito menos refugiados que outros grandes países europeus. Esta é apenas uma política imensuravelmente cruel, dirigida às pessoas mais vulneráveis, em uma linguagem que não é diferente daquela usada pela Alemanha nos anos 1930. Ou estou sendo inadequado?”, escreveu Lineker. O apresentador agradeceu, depois, o apoio massivo que recebeu de muitos seguidores – segundo ele, nas maiores manifestações a seu favor fora a aclamação recebida pelos gols em Copas do Mundo.
A sensação de censura contra Lineker escalou na quarta-feira, quando a BBC publicou uma nota sobre o assunto. A emissora disse ter tido uma “conversa franca” com Lineker, para avisá-lo que possui diretrizes de imparcialidade e que o funcionário tem responsabilidades. A BBC também deu direito de resposta a Suella Braverman, secretária de estado para assuntos internos, que afirmou como ficou “decepcionada” com Lineker e que a comparação com a Alemanha nazista “não ajuda em nada nossas medidas, que estão dentro da lei, são proporcionais e compassivas”. Também chamou atenção que, na nota, a emissora expôs que Lineker é a “estrela mais bem paga do canal”, inclusive divulgando seu salário anual de £1,35 milhões. O apresentador tem contrato até 2025 com o canal, embora trabalhe como freelance, e não como funcionário fixo.
O posicionamento político de Lineker não é algo novo. O apresentador sempre se colocou a favor de medidas progressistas, como os direitos de imigrantes e a acolhida a refugiados – recebendo pessoas em busca de asilo inclusive em sua própria casa. Também foi uma importante voz contra o Brexit. Entretanto, Lineker já tinha recebido reclamações por “quebrar sua imparcialidade” em outubro, ao questionar as doações de oligarcas russos ao Partido Conservador. Agora, o ex-atacante pisou no calo do governo de maneira mais direta. E, dentro de uma emissora financiada pelo poder público, a reação foi imediata.
Até mesmo membros do Partido Conservador pediram para que Lineker fosse demitido ou que “se restringisse ao futebol”. Já quem o defende aponta que, justamente por ser apresentador de um programa sobre futebol, deveria ter liberdade nos demais assuntos, pois isso não feriria diretamente sua imparcialidade. Também há críticas de que a BBC não age de maneira tão enérgica com outros funcionários – como seu presidente, Richard Sharp, que era próximo de Boris Johnson (a ponto de fazer um empréstimo ao antigo primeiro-ministro) e realizou doações aos Conservadores. Entre aqueles que defenderam publicamente Lineker está Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, que disse que a postura da BBC é “indefensável”.
Nesta sexta, a BBC publicou nova nota em que anuncia a suspensão de Lineker do Match of the Day. Segundo a emissora, o apresentador permanecerá ausente enquanto não chegar a um acordo sobre o uso das redes sociais. A BBC reafirma que o ex-atacante violou as diretrizes internas. e garante que teve longas conversas com Lineker. “Quando o assunto é liderar nossa cobertura de futebol e esportes, Gary é inigualável. Nunca dissemos que Gary deveria ser uma zona livre de opinião, ou que ele não pode ter sua visão em assuntos que importam para ele, mas dissemos que ele deveria evitar tomar um lado em questões partidárias ou controvérsias políticas”, declarou a BBC.
Diante da suspensão de Lineker, outros membros do Match of the Day se recusaram a trabalhar no programa, em solidariedade. A BBC procurava um substituto na apresentação, mas os demais comentaristas se recusaram a participar do programa, que será exibido num formato diferente, sem discussões no estúdio e mais voltado aos melhores momentos. Entre os que apoiaram Lineker estão os ex-atacantes Ian Wright e Alan Shearer, outros dois nomes antigos da seleção inglesa, que são comentaristas no MOTD. Mesmo aqueles que não estavam escalados também garantiram que não se envolveriam – como Alex Scott, Jermaine Jenas e Micah Richards.
Além disso, há a expectativa de que jogadores em atividade na Premier League boicotem entrevistas à BBC em solidariedade a Lineker. A PFA, a entidade que representa os futebolistas profissionais na Inglaterra, já prometeu que apoiará seus filiados nesse caso, para que não recebam multas ou qualquer tipo de sanção por não cumprirem suas obrigações com a mídia. Há uma grande expectativa sobre o que acontecerá com Lineker. Uma demissão do ex-atacante poderia fazer com que vários outros funcionários também deixassem o MOTD.



