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Apesar da eliminação, trabalho de Guardiola deve ser valorizado pelo futebol do Manchester City

A eliminação do Manchester City é também a eliminação de Pep Guardiola da Champions League. Desde que chegou ao clube inglês, o técnico conseguiu um título inglês histórico, mas nas campanhas europeias, o time ainda não chegou à semifinal, algo habitual na carreira do treinador catalão. Isso serve como combustível muitas vezes para criticá-lo, e há críticas a serem feitas, como a escalação no primeiro jogo, por exemplo. Ainda assim, é preciso valorizar o futebol que o time do Manchester City mostrou e o jogaço que a equipe proporcionou em um duelo fantástico com o Tottenham. A eliminação, doída como foi, vai ficar com o torcedor por algum tempo. O futebol apresentado e o alto nível de competitividade do time também e isso é algo que deve ser valorizado no trabalho do treinador.

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O futebol nunca pode ser dissociado do resultado, claro, afinal, é uma competição. Não podemos olhar apenas para isso, porém, se quisermos ir além das camadas mais superficiais do jogo. O que o Manchester City jogou foi uma barbaridade e exigiu que o Tottenham, de outro técnico fantástico, Mauricio Pochettino, também subisse de nível e mostrasse muito futebol. Igualar o nível pelo alto acaba sendo positivo para o torneio e para o futebol como um todo. O jogo entre Manchester City e Tottenham certamente entra para a história da Champions League como um dos mais incríveis. Um duelo para ser lembrado para sempre, pelas duas torcidas.

A eliminação gerou frustração em Guardiola, como ele mesmo expressou depois do jogo, e também falou sobre o VAR, que anulou um gol no final do jogo. Apesar do sentimento de tristeza, o técnico admitiu que o gol de Raheem Sterling começou em uma jogada com impedimento. Questionou o gol de Fernando Llorente, mas admitiu também que em ângulos diferentes é possível interpretar de formas diferentes.

“Eu apoio o VAR, mas talvez de um ângulo o gol de Fernando Llorente foi de mão, talvez do ângulo do árbitro não foi”, afirmou o treinador depois do jogo. Foi o gol da classificação dramática do Tottenham, quando o City vencia por 4 a 2 e o espanhol marcou o gol que, pelo critério de desempate, gols fora de casa, classificou os Spurs à semifinal da Champions League pela primeira vez.

O Manchester City ainda marcou o quinto gol nos acréscimos, com Raheem Sterling, mas revisão no VAR anulou o tento por impedimento de Sergio Agüero quando ele recebe a bola, antes de passar para Sterling. “Eu apoio o futebol justo, decisões justas. Os árbitros precisam ser ajudados às vezes. Quando está impedido, está impedido. O que eu posso dizer”, afirmou Guardiola sobre o gol anulado.

Em sua carreira, Guardiola chegou ao menos na semifinal em suas sete temporadas no comando de Barcelona (quatro, com dois títulos) e Bayern de Munique (três). Pelo Manchester City, o treinador foi eliminado duas vezes nas oitavas de final e agora cai nas quartas. “Foi uma ilusão incrível para nós chegar às semifinais porque este clube só esteve lá uma vez”, afirmou o técnico. “Foi uma noite incrível para nós. Futebol é assim. É imprevisível”.

Apesar dos quatro gols marcados, o Manchester City vai lamentar os três gols sofridos, que acabaram custando a classificação. “Nós cometemos erros nesta competição, mas nós fomos muito punidos”, afirmou Guardiola. “Nós marcamos os gols que precisávamos. Infelizmente, no final, foi um final ruim para nós”.

Foram 20 chutes a gol do Manchester City, com quatro gols marcados. Sterling chegou a 23 gols na temporada, igualando a sua melhor marca na carreira; Bernardo Silva marcou o terceiro gol do time e Sergio Agüero marcou o quarto, alcançando a marca de 30 gols na temporada pela quinta vez na Inglaterra. “No segundo tempo nós fizemos tudo”, afirmou Guardiola. “Nós criamos uma quantidade incrível de chances hoje contra um time duro. Nós reagimos incrivelmente bem. Eu estou muito orgulhoso, especialmente pelos torcedores”.

É dolorido para o Manchester City que a campanha tenha acabado em uma eliminação, depois do time mostrar tanto potencial e futebol em campo nas partidas. O peso da derrota no primeiro jogo acabou sendo demais, permitindo que o Tottenham jogasse aproveitando cada erro dos Citizens para incluir mais gols na sua conta e dificultar a tarefa do time da casa. Um mérito absurdo de uma equipe que sequer gastou um euro na contração de jogadores nesta temporada. Nenhum jogador chegou ao time de Pochettino e, mesmo assim, a equipe mostra um bom futebol e consistência também em resultados.

Por tudo isso, o torcedor do Manchester City pode ficar orgulhoso. O time não estava entre as potências europeias há 10 anos, quando o rival, Manchester United, era um daqueles que era visto como bicho-papão no continente. Agora, o City é um time temido, que joga um futebol difícil de conter, seja quem for o adversário, e capaz de transformar as partidas em uma apreciação do futebol bem jogado.

Há questões com o clube que, compreensivelmente, geram muita rejeição, como o time ser um projeto de país, com Abu Dhabi, assim como o PSG é do Catar; e as alegações que o clube tenha burlado regras do Fair Play Financeiro para ser tão competitivo quanto é. (o que levou a Uefa a inclusive reabrir investigações em relação aos casos, denunciados pelo Football Leaks). O próprio clube deveria se preocupar com esse tipo de coisa e, ao contrário, assim como o PSG, parece dar de ombros. Inevitável, portanto, que haja rejeição e o Manchester City terá que lidar com isso. Não significa que quem o rejeite negue o futebol bem jogado pelo time, nem que seja apenas um torcedor para que o clube e o seu badalado técnico percam. Ao menos, não necessariamente.

O que o Manchester City consegue em termos europeus atualmente é assustar adversários e isso já é algo importante. O time ficou muito perto de alcançar as semifinais pela segunda vez na sua história e, provavelmente, chegaria como favorito. Nas casas de apostas, aliás, o Manchester City era o favorito para ser o campeão da Champions League, pagando menos que, por exemplo, o Barcelona onde Guardiola se consagrou. Claro que isso não tira a frustração de uma eliminação tão doída, de um gol comemorado insanamente que depois tem que ser anulado e apagado, tal qual uma memória de algo que não existiu. Foi um sonho de alguns segundos que o torcedor do Manchester City viveu ali, com uma gritaria que o próprio Guardiola afirmou jamais ter visto no Estádio Etihad depois do gol de Sterling. É parte do processo.

Disputar a Champions League é um processo e é preciso ser sempre competitivo, chegar às fases decisivas para, eventualmente, conquistar o título. É um drama para equipes maiores que o City, como o próprio Bayern de Munique. Mesmo sendo um gigante da Alemanha, com cinco títulos de Champions League no currículo, o Bayern sofre para conquistar outra taça. Em 2012/13, conquistou o título depois de se frustrar no ano anterior ao perder, em plena Allianz Arena, o título para o Chelsea. Do quarto título, em 2000/01, até o quinto, em 2012/13, são 12 anos de espera. E não estamos falando de um time que carece de camisa, de investimentos e de jogadores. É um time pesado, que briga por títulos todo os anos e, mesmo assim, se via ano após ano ser eliminado na Champions League.

Em 2013, quando levou Guardiola para Munique, o Bayern esperava criar uma hegemonia. O catalão pegou um time campeão e levou novamente à semifinal. Só que foi eliminado três vezes nessa mesma fase, sempre para times espanhóis: Real Madrid (2013/14), Barcelona (2014/15) e Atlético de Madrid (2015/16). Sem Guardiola, o time também não conseguiu ir muito além: caiu nas quartas de final para o Real Madrid (2016/17), na semifinal, novamente para o Real Madrid (2017/18) e nas oitavas de final nesta temporada, 2018/19, para o Liverpool. São seis anos sem chegar à final do torneio, mesmo com um time sempre forte na disputa.

O Manchester City está muito atrás de clubes como o Bayern de Munique. É uma equipe que está construindo uma história na Europa, depois de anos apenas disputando campeonatos na Inglaterra. Há 20 anos, em 1998/99, o Manchester City estava na terceira divisão inglesa. Com os investimentos que passou a fazer, voltou à Europa para jogar a Copa da Uefa em 2008/09, ainda longe do status de poder que alcançou atualmente. Foi a partir da temporada 2010/11 que o time passou a competir em alto nível, primeiro na Liga Europa, e a partir da temporada 2011/12 na Champions League, que participa consecutivamente desde então. Desde então, são três títulos ingleses, uma semifinal de Champions (em 2015/16, caindo por um gol para o Real Madrid), uma queda nas oitavas de final e duas nas quartas.

Toda derrota dói para o torcedor, ainda mais sabendo que o Manchester City tinha capacidade, em futebol jogado, de conquistar o título. Mas em um torneio eliminatório como é a Champions League, é preciso estar disputando todo ano, em alto nível, para ter chance de eventualmente conquistar. Times como o Chelsea demoraram anos nesse nível para conseguir – e mesmo assim, conquistou em um ano que ninguém mais esperava por isso. O PSG vive algo similar com investimentos que começaram em 2011 e ainda não resultaram em campanhas realmente marcantes na Champions. Será preciso ir além.

Ao contrário do PSG, por exemplo, o City jogou, e jogou muito bem. Se mantiver esse nível, eventualmente chegará mais longe e até poderá ser campeão. Em um torneio que reúne um clube dos clubes mais ricos e poderosos da Europa, só um deles ficará com a taça. É normal que outros tantos fiquem a ver navios, mesmo com bons trabalhos. O que se dirá então de um time que embora esteja na elite econômica da Europa, como o Manchester City, está longe de estar entre os maiores e mais tradicionais clubes do continente?

O bom trabalho, a longo prazo, vai render mais títulos ao clube. A Premier League ainda é uma possibilidade nesta temporada, e uma possibilidade real. O time já conquistou a Copa da Liga e está na final da Copa da Inglaterra. Passa longe de ser ruim em termos de resultados. Mas além do resultado, o que o torcedor do City vê em campo é um time incrível, com jogadores que foram potencializados e que são capazes de produzir um futebol que é, muitas vezes, encantador. Por isso, é para se lamentar a eliminação, mas o trabalho de Guardiola tem que ser valorizado. O time está subindo degraus importantes na sua história para alcançar o patamar que o permita, eventualmente, ficar com a mais cobiçada taça do futebol europeu.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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