Inglaterra

Aos 29 anos e sem clube, Wilshere está em uma encruzilhada na sua carreira: “Quando eu digo chega?”

Wilshere está dividido entre ainda ter o fogo do jogador de futebol e duvidar do quanto ainda vale a pena continuar tentando

Jack Wilshere chegou a ser uma das principais revelações do futebol inglês. Estreou aos 16 anos, tem 34 partidas pela seleção, participou de Copa do Mundo e Eurocopa, defendeu o Arsenal quase 200 vezes. Esperava-se que seguisse a linhagem de nomes como Frank Lampard, Steven Gerrard e Paul Scholes e, por isso, é compreensível que ele diga que nunca pensou que estaria na posição em que está neste momento: sem contrato com nenhum clube e sem perspectiva de conseguir algum neste momento.

Wilshere trocou o Arsenal pelo West Ham em 2018 e foi dispensado pelos Hammers um ano antes do fim do seu contrato, após começar jogando apenas seis rodadas de Premier League em duas temporadas. Teve uma passagem de seis meses pelo Bournemouth na última segunda divisão e acabou não ficando. O seu problema é tão conhecido que virou folclore a ponto de ele achar que está sendo exagerado.

Desde que machucou o tornozelo em 2011, as lesões se acumulam. Teve alguns momentos bons desde então, seguiu defendendo a Inglaterra em grandes torneios e fez aquele gol icônico contra o Norwich, mas não foi mais o mesmo e o teto do que poderia se tornar diminuiu. Aos 29 anos, está em uma encruzilhada na carreira: ainda sente o fogo do jogador profissional, mas não sabe o quanto vale a pena continuar tentando.

“Sendo honesto, eu provavelmente nunca pensei que estaria nesta posição. Eu estava correndo hoje (dia da entrevista) em uma pista de atletismo e sofrendo para imaginar que estaria aqui neste ponto da minha carreira. Todos costumavam me dizer: aos 28, 29, você estará no auge da sua carreira. E eu genuinamente achei que estaria. Eu achei que ainda estaria jogando pelo Inglaterra e em um clube grande”, afirmou, ao The Athletic.

“Eu mentiria se dissesse que não estou preocupado. Claro que estou preocupado. Eu estava nesta posição quando sai do West Ham e foi horrível. Pensei comigo mesmo que não queria passar por aquilo novamente. Fui ao Bournemouth, joguei algumas partidas (17, 11 como titular, apenas uma completa) e pensei que seria o suficiente para mostrar às pessoas que estou em forma. Claramente não foi porque eu não recebi nenhuma proposta. Isso definitivamente me preocupa”.

“Eu acordo de manhã no momento e penso: ok, preciso treinar em algum lugar. Normalmente sozinho. Eu treinei com um clube (não identificado) durante a pré-temporada, mas isso acabou agora. Estou acordando e treinando sozinho e encontrando a motivação. E a questão que eu fico me fazendo é: para quê? Quando saí do West Ham, eu estava tentando achar algum lugar e pensei: ‘ok, chegará, chegará’. Mas não está chegando no momento. Então eu acordo pensando ‘preciso treinar hoje, mas por que eu preciso treinar hoje?’. Eu quero encontrar um clube, mas vai acontecer?”

“Eu tive uma conversa com minha esposa outro dia. Pouco antes de ir para a cama e eu disse a ela: tenho que treinar amanhã, mas por que estou treinando? Eu deveria tentar focar em outra coisa? Eu posso ser técnico ou fazer um curso para tirar minha licença, posso começar a focar nisso. Ela me disse: não, você não pode, não pode, você é bom demais. Eu disse que se eu fosse bom demais alguém pelo menos me daria uma chance, me permitiria ir treinar lá ou tentar me provar de alguma maneira para eles. Em que ponto eu digo chega? Eu não sei, sendo sincero”, completou.

A situação piora porque os filhos de Wilshere já têm idade para entender o que está acontecendo. E idade suficiente para ter colegas de escola que também entendem o que está acontecendo e que são implacáveis, como no dia em que um deles voltou para casa dizendo que um coleguinha o havia chamado de “Jack Wheelchair” – Jack Cadeira de Rodas.

“Archie, que tem nove anos, especialmente. Ele conversa comigo e diz ‘que tal a MLS?’ ou ‘Por que você não joga em La Liga?’. Ele ama futebol. Ele sabe tudo sobre futebol. E é difícil explicar para ele. Ele me dirá: ‘Por que nenhum clube quer contratá-lo?’. Eu não sei, mas como eu explico isso para ele? Eles têm amigos na escola e você sabe que as crianças podem ser bem brutais. ‘Por que seu pai não está trabalhando?’. ‘Ele não é bom o suficiente?’. ‘Ele não é bom de futebol?’. É difícil. Eu tenho dois filhos mais novos que nunca realmente me viram jogar futebol”.

“Quando vou treinar pela manhã sozinho eu os beijo e digo ‘vou treinar’. Eles não sabem o que eu realmente faço. Eles provavelmente pensam ‘onde ele tá indo? Qual o trabalho dele?’. Os dois mais velhos se lembram dos dias de Arsenal. Eles se lembram de me ver jogar pela Inglaterra. De certa maneira, é legal ter isso. Eles podem ver no YouTube e quando eu saio as pessoas me reconhecem. A parte mais difícil é tentar explicar quando eles perguntam ‘por que você não assina com algum clube da Inglaterra?’. E eu digo ‘bom, ninguém me quer’, e eles não conseguem entender”, disse.

Wilshere afirma que os seus problemas físicos não são mais sérios do que o senso comum acredita e chegou até a dizer que é o “melhor que já se sentiu” em relação ao seu corpo. Ainda assim, é difícil fazer as pessoas acreditarem, e o seu retrospecto recente não ajuda muito. A última vez que conseguiu disputar mais de uma partida seguida de Premier League desde o início e sem ser substituído – ou seja, os 90 minutos – foi no começo da sua passagem pelo West Ham, em 2018, quando fez três.

“Desde que voltamos (após a pandemia), quando eu estava no West Ham, eu não perdi uma sessão de treino. Eu tive um período sem clube, treinando todos os dias, e fui para o Bournemouth, no qual estive disponível para todos os jogos, todas as sessões de treino. Estou em forma e pronto, mas para provar isso, preciso de uma oportunidade para jogar. Eu a tive no Bournemouth e não recebi nem uma pancada”.

“As pessoas podem achar que estou dizendo isso somente porque estou tentando encontrar um clube, mas é o melhor que já me senti em relação ao meu corpo. Fui me administrando, passando por lesões, fazendo certos programas de recuperação e exercícios que as pessoas me disseram para fazer e que não funcionaram, apenas pioraram as coisas e eu acabei quebrando no fim das contas. Eu tive que passar por isso para chegar aonde estou agora”.

“Se você me dissesse cinco anos atrás que eu estaria correndo em uma pista de atletismo, eu diria ‘sem chance’, por causa da superfície. Agora eu sei o que preciso fazer. Eu me sinto muito bem e estou sendo 100% genuíno quando digo isso. Sem dores no meu corpo. A única maneira de testar é na intensidade dos jogos ou enfrentando alguém maior e mais forte que eu”, disse.

Ele reconhece que isso talvez tenha que acontecer fora da Inglaterra, onde a sua fama de ser frágil fisicamente não está tão difundida, e neste momento, Wilshere fica até empolgado com a perspectiva de uma mudança de ares.

“Eu sinto um pouco que a porta neste país se fechou para mim. Não sei por quê. Talvez por causa do meu histórico de lesões e as pessoas pegando referências nos lugares. Eu sinto que é injusto. Mas é o que é. Eu disse antes que estou aberto para ir para outro país. Na verdade, eu provavelmente quero ir para outro país. Quero tentar algo diferente. Acho que será bom para mim, para minha vida, para minha família”

“Ter um começo novo em um lugar onde as pessoas, os clubes, os torcedores, não pensem ‘oh, é Jack Wilshere, ele vai se machucar hoje’ ou ‘ele vai jogar cinco vezes e é isso, que desperdício de investimento’. A última vez que eu tive uma lesão foi em janeiro de 2020. Todos pensam ‘ah, seu tornozelo, seu tornozelo’. Não foi meu tornozelo. Foi uma hérnia, uma lesão normal. Me recuperei em dez dias e ai infelizmente veio o lockdown. Mas eu me recuperei e tenho uma base física muito boa”, afirmou.

Olhando para trás, Wilshere acredita que pode ter sido um erro sair do Arsenal, clube que o formou e no qual tinha uma forte ligação com a torcida que ainda o reconhece nas ruas de Londres. “Nada contra o West Ham, poderia ter sido qualquer um, mas eu não deveria ter saído do Arsenal. Eu tive uma conversa com Wenger quando voltei do Bournemouth (em uma outra passagem, por empréstimo, em 2016/17, a um ano do fim do seu contrato). Ele disse: ‘olha, você pode ir embora, você não terá um novo contrato aqui’. Mas conhecendo Wenger como eu o conheço e o quanto gostava de mim como jogador, eu sabia que se eu voltasse a ficar em forma, haveria muitos jogos e eu poderia ganhar um lugar no time”, afirmou.

Wilshere com Wenger poucos meses antes de ambos deixarem o Arsenal (Foto: Action Plus/Imago/One Football)

Fez 40 jogos naquela temporada, 29 como titular. A sua saída se concretizou depois da saída de Wenger e com a chegada de Unai Emery. “Eu queria ter tido essa mesma mentalidade quando sentei com Emery e ele disse: ‘olha, tem um contrato na mesa para você, mas você não está entre os meus titulares’. Eu lembro de ter saído bravo porque pensei que jogaria – eu havia me provado no ano anterior. Eu provavelmente tomei algumas decisões impulsivas. Eu liguei para meu empresário e disse: ‘é isso, precisamos ir embora’. Eu deveria ter tirado alguns dias, me acalmado e pensado comigo: ‘eu olho para o meio campo e acho que posso entrar nele’”, explicou.

Agora, além de encontrar um novo clube, o desafio de Wilshere é encontrar a motivação para seguir tentando. “Eu tive uma grande carreira e ainda tenho muita fome dentro de mim. Eu tenho uma casa bacana, tenho quatro filhos que são saudáveis e vão para boas escolas. Há pessoas que precisam acordar às cinco da manhã apenas para colocar comida na mesa para seus filhos, isso é difícil. A realidade é que eu estou ok, mas ainda não me impede de ter alguns pensamentos (depressivos) ou de ter dificuldade com as coisas”, disse.

“Meu próximo passo não é sobre dinheiro. É sobre o sentimento que tenho dentro de mim, e não estou falando apenas de quando era uma criança crescendo, amando futebol. Era os primeiros dias no Arsenal quando eu costumava amar jogar bola, amar ir lá e jogar no Emirates. É tentar recuperar esse sentimento de ter algo pelo que lutar, ter aqueles altos e baixos do futebol”.

“Não sei se eu estive deprimido, para ser honesto, porque eu quero pensar que nunca estive realmente deprimido. Mas eu nunca tive este sentimento também, então não sei. Eu tenho essa sensação ruim e profunda quando estou sozinho, quando estou treinando sozinho, quando estou dirigindo sozinho, em que tudo se acumula nas minhas costas. Tenho certeza que todo mundo entende isso. Alguém que tem que trabalhar 12 horas por dia apenas para sustentar a família é uma coisa diferente”.

“O que eu diria é que ainda tenho fome dentro de mim, em algum lugar lá no fundo, de que tudo que eu quero é jogar futebol. Eu não quero que as pessoas pensem ‘oh, veja, coitado do Jack, ele não tem um clube, mas ele ganhou muito dinheiro no futebol e pode ficar em casa com os filhos’. Quando eu acordo de manhã, eu quero ficar ansioso para treinar, para estar com os caras. Eu quero voltar a campo, especialmente agora que os torcedores voltaram”.

“Eu assisti a todos os jogos na TV desde o começo da temporada e eu quero fazer parte daquilo. Eu quero aquele sentimento de ir para campo, ouvir os torcedores e simplesmente poder jogar futebol novamente”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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