Algo mais

Há algumas semanas, mais precisamente há algumas rodadas, quando começou o papo de “Arsenal favorito ao título” pensei duas vezes antes de me atirar na onda. Demorei mas pulei: a tabela dos Gunners é tão incrivelmente mais fácil que a dos rivais e a diferença tão pequena, que com a boa quantidade de jogos que havia pela frente dava para apostar.
E os Gunners até que vinham justificando: Hull, Burnley, West Ham, Stoke e Sunderland foram batidos. No sexto jogo da série de sete partidas “fáceis”, entretanto, o time de Wenger tropeçou. E o empate concedido nos descontos ao bom e bravo Birmingham pode cobrar a conta no final da temporada.
Fato: mesmo com sete adversários mais fracos, vencer cinco seguidas e empatar a sexta fora, diante de um time que só perdeu duas vezes em seus domínios – a última delas em setembro –, está longe de ser um bom resultado. O problema é que o Arsenal “gastou” a cota de empates como esse em jogos mais fáceis na primeira metade do campeonato, e se obrigou a ter uma seqüência impecável. Que ainda pode vir quase totalmente, diga-se.
Outro fato: a tabela do Arsenal continua fácil, tendo só dois postulantes ao G4 pela frente, Man City em casa e Spurs fora. O jogo contra o Tottenham, aliás, será interessante. Quem lê esta coluna provavelmente sabe que é esta a grande rivalidade londrina, e que os Spurs andam em uma seca de vitórias contra o rival que chega a ser ridícula. Em forma, porém, consistente, e precisando vencer, pode ser que neste ano as coisas mudem.
Para ganhar o dérbi e não vacilar nas outras partidas “fáceis”, entretanto, o Arsenal vai precisar de algo que não teve contra o Birmingham: o famoso “algo mais”. Que, por exemplo, seu rival tem tido. Quando o Tottenham entrou na fase da temporada em que começa normalmente a vacilar, Pavlyuchenko e Bentley, que não vinham nem jogando, apareceram bem. Nos Gunners, quem pode fazer esse papel?
Difícil de dizer, assim como é ainda mais difícil de encontrar essa figura no Aston Villa. O resultado de 7 a 1 contra o Chelsea é enganoso, e mostra muito mais um time que no final da partida assistiu o jogo do que um massacre. Por que, entretanto, um time que em tese ainda briga pelo G4 e corre o risco de, se não entrar em forma logo, perder até a vaga na Liga Europa, assiste a uma partida dessa forma? Porque, quando falham as armas usuais, faltam alternativas.
No United quando Nani não joga, joga Valencia. Quando nenhum dos dois joga, tem o Park, o Fletcher, Giggs, Scholes. Até o Berbatov esse ano já ajudou a decidir. Nos Blues, da mesma maneira, Malouda, Kalou e algum dos 150 meio-campistas sempre vai poder tirar do bolso do colete uma vitória. Por incrível que pareça, o único outro time em que isso acontece hoje na Inglaterra é o Tottenham.
O calendário dos Gunners ainda é o mais fácil, e, a depender do resultado do dérbi, o time de Wenger ainda está na briga. Vai ter, entretanto, que descobrir em algum lugar seu “algo mais”.
Torcida bem organizada
Cobra meu editor, e quando ele cobra eu obedeço, uma palavra aos nossos leitores sobre os Red Knights. Para quem não acompanhou as notícias das últimas semanas sobre o assunto, trata-se de um grupo de torcedores do Manchester United que tornou pública a intenção de arrecadar fundos para comprar o clube dos Glazer. Não seria novidade, não fosse o fato de que o grupo de torcedores é encabeçado por figuras influentes e ricas, que podem muito bem ter dinheiro próprio para fazê-lo.
Keith Harris, a figura mais proeminente do grupo, é um ex-executivo-chefe do HSBC, e foi importante nas aquisições de West Ham, Aston Villa e Manchester City. Jim O’Neill, outro membro do grupo, é economista chefe do Goldman Sachs, um dos bancos que emprestou dinheiro aos Glazer para comprar o United. Mark Rawlinson é advogado e comentarista econômico. Paul Marshall é outro do mundo das finanças. E, finalmente, Richard Hytner, é o principal executivo da Saatchi & Saatchi, um dos maiores grupos do mundo na área de publicidade. Hytner foi fundamental na formação do grupo que impediu que Rupert Murdoch comprasse o United em 1998.
Cinco caras cheios da grana, todos torcedores do United até o fundo da alma. Têm plenas condições de levantar o dinheiro necessário para tentar os Glazer. Se conseguirem, será a primeira vez que os torcedores derrotam os financistas jogando seu próprio jogo. E um precedente importante e auspicioso.



