Inglaterra

A um jogo da elite, Huddersfield já foi casa de dois técnicos lendários: Chapman e Shankly

Apenas quatro equipes conquistaram três vezes seguidas o Campeonato Inglês: o Arsenal, o Liverpool, o Manchester United – em duas oportunidades – e o Huddersfield. Os Terriers ganharam do Sheffield Wednesday nos pênaltis, pela semifinal dos playoffs da Championship, e irão encarar o Reading, em Wembley, daqui a dois domingos, para tentar retornar à elite do futebol inglês após um exílio de 45 anos.

LEIA MAIS: Mais que sustentável, o Forest Green Rovers agora também é um clube da Football League

Apesar de tanto tempo longe da primeira divisão, o clube tem uma rica história. Foi três vezes campeão inglês e possui mais três segundos lugares, todos entre as décadas de 1920 e 1930. Foi campeão da Copa da Inglaterra de 1922 e chegou a mais quatro finais. Revelou jogadores como Denis Law e teve no comando da equipe dois técnicos lendários e revolucionários, que, na prática, transformaram clubes importantes, da estirpe de Arsenal e Liverpool.

Os dois primeiros títulos do Huddersfield foram conquistados sob o comando de Herbert Chapman. Ele leva o crédito por uma das principais revoluções táticas do futebol, o esquema WM, e por ter tornado a posição de treinador em um cargo de poder, no controle de todas as decisões do time. Saiu do clube para treinar o Arsenal e estabelecer as bases que tornariam o clube de Londres em um dos maiores do país.

Décadas depois, já em decadência, o Huddersfield havia acabado de retornar à primeira divisão, depois do primeiro rebaixamento da sua história, e o técnico principal Andy Beattie contratou Bill Shankly para ser seu braço direito. Shankly assumiria o comando do clube por três anos antes de ser chamado para trabalhar no Liverpool. Em Anfield, revolucionaria a infraestrutura do clube e os métodos de treinamento, implementando um futebol bonito de se ver, com muita troca de passes, sempre em busca do gol e vencedor de muitos títulos.

Herbert Chapman (1921 – 1925)
A estátua em homenagem a Chapman, no Emirates Stadium (Foto: Getty Images)
A estátua em homenagem a Chapman, no Emirates Stadium (Foto: Getty Images)

“Nenhuma tentativa era feita para organizar a vitória. Eu me lembro, no máximo, de conversas ocasionais entre, por exemplo, dois homens que jogariam na mesma ala”, escreveu Herbert Chapman em sua biografia. Chapman viveu o futebol inglês entre os períodos anteriores às duas grandes guerras mundiais, um período de profissionalismo ainda incipiente, em que o treinador tinha pouco poder nas decisões do clube e mal havia sido formado o conceito de tática. O natural de Yorkshire, oitavo filho de um mineiro, estava preparado para mudar tudo isso.

A primeira experiência de Chapman como treinador foi quando ainda calçava chuteiras profissionalmente, dividindo a função no Northampton. Levou o time de duas lanternas seguidas na Southern League, logo abaixo da Segunda Divisão, para o título em duas temporadas. Foi contratado pelo Leeds City e conseguiu outra rápida ascensão. Nesses dois clubes, já exercia controle completo de todos assuntos do futebol, dos treinamentos às transferências, e tentava “organizar a vitória”, em um esboço do esquema WM que o deixaria mundialmente famoso.

Mas a Primeira Guerra Mundial atrapalhou a história. Durante o período bélico, os clubes mantiveram-se em atividade, sem muita organização, e era proibido pagar os jogadores convidados. Quando um dos atletas do Leeds City reclamou com as autoridades do futebol que um aumento de salário combinado com a diretoria não havia sido cumprido, ficou meio claro que o clube estava ignorando essa regra. O Leeds City foi expulso da Football League, e Chapman foi banido do futebol.

Passou três anos longe do esporte até ser convidado para trabalhar no Huddersfield, antes do Natal de 1920. Mas ele precisava convencer a Federação Inglesa a reverter a sua suspensão vitalícia. Conseguiu argumentando que não participou das decisões do Leeds City durante a Primeira Guerra porque havia abandonado o seu cargo para assumir a administração de uma fábrica de munições a serviço da Coroa.

Era um desafio interessante, em uma cidade que comemorava os feitos do seu time de rúgbi e ainda não tinha tanto apreço pelo futebol, apesar de um dos donos ter construído um estádio para 50 mil pessoas. A ideia era que auxiliasse o técnico Ambrose Langley, que havia conseguido o segundo lugar na Segunda Divisão e o acesso à elite na temporada anterior. Mesmo em cargo secundário, Chapman tinha mais carta branca que Langley sobre as transferências e ganhava duas vezes mais. Não demoraria muito para assumir controle total do Huddersfield.

Chapman convenceu a diretoria a adotar uma política agressiva no mercado de transferências, apesar de o período pós-guerra ter sido de austeridade para os clubes de futebol, e implementou a sua principal mudança tática. A maioria das equipes daquela época atuavam em um ofensivo 2-3-5. Ele recuou um dos meias para o centro da defesa e trouxe dois atacantes internos para o meio de campo, atrás do centroavante e dos pontas.

O esquema foi tido como defensivo pela crítica, mas isso pouco importou. Depois de um 17º lugar na primeira divisão, logo depois do acesso, e de outra campanha mediana, o Huddersfield foi terceiro colocado na temporada 1922/23. E campeão em 1923/24, com a melhor defesa, tendo sofrido apenas 33 gols em 42 partidas. E campeão novamente, em 1924/25, novamente com o sistema defensivo mais sólido, mas também com o terceiro melhor ataque.

Bicampeão inglês, Chapman foi atraído por mais um desafio: revolucionar um clube da capital que, em 37 anos de Football League, nunca havia sido campeão. Na realidade, havia uma hegemonia dos clubes do norte industrializado nos primeiros passos do futebol inglês. Os times que conquistaram a taça mais ambicionada do país mais próximos de Londres haviam sido o Aston Villa, de Birmingham, e o West Brom, ambos aproximadamente 200 quilômetros para cima da capital inglesa.

Atraído também pela proposta salarial de £ 2 mil por mês, Chapman levou seus conceitos modernos para o Arsenal. Enquanto arrumava a casa no norte de Londres, o Huddersfield venceu mais um Campeonato Inglês, com 92 gols marcados – novamente o terceiro melhor ataque. Foi o primeiro tricampeão da história da Inglaterra. O segundo seria o Arsenal, treinado por… Herbert Chapman, que conquistou o primeiro título inglês da história do clube, em 1930/31, e o primeiro da sequência de três seguidos, antes de morrer de pneumonia, no meio da temporada do que seria o bicampeonato nacional.

Bill Shankly (1956 – 1959)
Os portões de Shankly, na entrada de Anfield, casa do Liverpool (Foto: Getty Images)
Os portões de Shankly, na entrada de Anfield, casa do Liverpool (Foto: Getty Images)

O Huddersfield seguiu próspero mesmo sem Chapman. Conquistou o tricampeonato na temporada seguinte a sua saída para o Arsenal e foi vice-campeão nos dois anos posteriores. Ficou estável nas primeiras posições do Campeonato Inglês por mais algumas edições, mas, depois da Segunda Guerra Mundial, a coisa degringolou, e o clube passou a caminhar pela parte de baixo da tabela até o inevitável rebaixamento em 1951/52.

Andy Beattie, ex-lateral do Preston North End e da seleção escocesa, assumiu o comando da equipe e teve sucesso rapidamente. Conseguiu o acesso imediato para retornar à elite e foi terceiro colocado em 1953/54. No entanto, em novembro de 1955, o Huddersfield passou por uma sequência terrível de resultados: sete derrotas, incluindo 5 a 2 para o Everton, 6 a 2, em casa, para o Newcastle, e 5 a 0 para o Birmingham, em três jogos seguidos.

Beattie estava mais ou menos de saco cheio de ser técnico, não apenas por causa da fase terrível do Huddersfield. No ano anterior, ele havia sido escolhido para treinar a seleção escocesa na Copa do Mundo de 1954, mas se demitiu no meio da competição, logo depois da estreia – derrota por 1 a 0 para a Áustria. O motivo alegado seria rusgas com a federação por causa da péssima preparação para o torneio, já que a Escócia havia levado apenas 13 jogadores para a Suíça. Na partida seguinte, comandada pelo preparador físico, os escoceses levaram 7 a 0 do Uruguai e voltaram para casa, encerrando uma melancólica primeira participação no Mundial.

Ele abordou o presidente do clube Bernard Newman para pedir demissão. Newman conseguiu dissuadi-lo da decisão acatando um de seus pedidos: o técnico queria contratar um número 2 para cuidar dos reservas, dos jovens, para aliviar a pressão que estava sentindo e eventualmente assumir o seu lugar. Pensou em um ex-companheiro de seleção escocesa e de Preston North End, que inclusive esteve em campo ao seu lado, em Wembley, quando o Preston derrotou o Huddersfield por 1 a 0, na final da Copa da Inglaterra de 1938.

Bill Shankly treinava o Workington da Terceira Divisão, na qual havia passado toda sua carreira de técnico até então, no comando também do Carlisle United e do Grimsby Town. Havia experimentado certo sucesso, levando o Grimsby às portas da Segundona, em 1951/52, com o segundo lugar na liga. O Huddersfield era outro mundo. Havia dinheiro e havia ambição. E havia a possibilidade de assumir o cargo principal em alguns anos, o que realmente acabou acontecendo.

A missão de Shankly era cuidar dos reservas e preparar os jovens, o que ele fez muito bem. Sua equipe chegou a ficar 16 jogos invictos e ele participou da formação de jogadores como Denis Law, Ray Wilson, lateral campeão do mundo em 1966, e Kevin McHale, que disputaria mais de 300 partidas pelo Huddersfield. No entanto, o espírito anárquico de Shankly começou a incomodar Beattie. O treinador dos reservas tinha suas próprias ideias sobre futebol, incompatíveis com a do técnico principal, o que atrapalhava a transição de um time para o outro.

Após três anos na elite, o Huddersfield foi rebaixado mais uma vez, e Beattie não aguentou os resultados ruins no começo da campanha na Segunda Divisão. Em novembro, pediu demissão mais uma vez a Newman, que desta vez a aceitou. Antes de deixar o clube, deu uma última recomendação, apesar das rusgas filosóficas e de ter identificado pouca lealdade do amigo: Bill Shankly deveria ser contratado para o seu lugar.

Shankly foi pouco a pouco renovando o elenco, se livrando dos jogadores mais experientes e dando chance a jovens, como Law e McHale. Sua primeira temporada no cargo terminou com o 12º lugar. A segunda não foi muito melhor, com a nona colocação e um jogo absolutamente maluco. O Huddersfield enfrentou o Charlton, fora de casa. O time local perdeu um de seus jogadores machucados, no começo do primeiro tempo, e ainda não havia substituições. Os visitantes rapidamente abriram 5 a 1 e acharam que a vitória estava no papo. Mas o Charlton, a 25 minutos do final, começou a marcar. A marcar um gol atrás do outro. Virou para 6 a 5. Aos 44 do segundo tempo, o Huddersfield empatou em 6 a 6. Mas, na saída de bola, o Charlton fez 7 a 6.

O campeonato de 1958/59 não foi muito melhor. O Huddersfield terminou em 14º lugar, mas pelo menos goleou o Liverpool por 5 a 0, uma atuação impressionante, que seria lembrada meses depois. Na tentativa de mudar a sorte do clube, Shankly mapeou potenciais reforços, tanto na Inglaterra quanto na Escócia. Foi quando descobriu, pela primeira vez, os talentos de Ian St. John e Ron Yeats, que viriam a ser peças centrais do seu primeiro grande time do Liverpool. Mas não havia dinheiro no Town para contratá-los.

O Huddersfield começou bem a temporada seguinte, com três vitórias seguidas nas primeiras rodadas, e em setembro, 11 pontos de 14 possíveis. Em 17 de outubro, depois de uma queda de rendimento, o clube era quarto colocado e enfrentava o Cardiff, segundo. Perdeu por 1 a 0. Mas, depois da partida, Shankly foi abordado por um homem chamado Tom Williams. Um homem que presidia o Liverpool. “Você quer treinar o melhor clube do mundo?”, perguntou Williams. “Por quê? Matt Busby está se aposentando?”, replicou Shankly, em referência ao Manchester United.

Piadas à parte, Shankly aceitou treinar o Liverpool. O Huddersfield seguiu para ser sexto lugar naquela temporada, e o treinador, para começar a revolucionar a história do clube de Merseyside. Em Anfield, Shankly investiu em infraestrutura, em instalações melhores, modernizou os métodos de treinamento, foi agressivo no mercado de transferências – trouxe St. John e Yeats, por exemplo – e implementou uma cultura vencedora que persistiria por anos, até a década de oitenta, quando os Reds tornaram-se, olhem só vocês, o terceiro time a ser tricampeão inglês, sob o comando de Bob Paisley e Joe Fagan, dois discípulos de Shankly.

Falando nisso, lembram-se de Andy Beattie? O ex-chefe de Shankly trabalhou até os meados da década de sessenta, mas, em 1971, estava sem emprego. Shankly, já o rei de Liverpool, jogou um pouco de trabalho para o antigo amigo. Pediu que ele observasse jogadores e recomendasse alguns para o técnico, que estava tentando montar um novo time para se manter competitivo. Beattie havia observado um garoto do Scunthorpe, a serviço de outro clube, que não havia seguido o seu conselho de contratá-lo. Então, sugeriu-o a Shankly. Seu nome era Kevin Keegan.

David Wagner (2015 – )
David Wagner, atual treinador do Huddersfield (Foto: Getty Images)
David Wagner, atual treinador do Huddersfield (Foto: Getty Images)

David Wagner, atual comandante da equipe, ainda está longe do patamar das duas lendas. O ex-treinador dos reservas do Borussia Dortmund, sob o comando de Jürgen Klopp, vive apenas no começo da carreira, mas já colocou suas impressões digitais no Huddersfield. O clube que se classificou para os playoffs com o quinto lugar da Championship tem uma identidade própria, com um jogo de muita intensidade, pressão e passes rápidos – parecido com o de Klopp, aliás.

Wagner assumiu o Huddersfield, em novembro de 2015, e rapidamente implementou o seu estilo, apesar de o melhor que conseguiu naquela temporada ter sido escapar do rebaixamento à terceira divisão. Foi agressivo no mercado de transferências, com olho especial para a Alemanha, da onde trouxe os zagueiros Christopher Schindler, Jon Gorenc-Stankovic e Michael Hefele, os atacantes Collin Quaner e Elias Kachunga e o lateral esquerdo Chris Löwe.

Suas ações foram bem sucedidas. Entre os dez jogadores que atuaram mais de 40 vezes na temporada, sete foram contratados antes do início da atual Championship. Além de Schindler, Kachunga – artilheiro da equipe, com 13 gols – Löwe e Hefele, vieram o goleiro Danny Ward, do Liverpool, o meia Aaron Mooy, do Manchester City, e o meia-direita Rajiv van La Parra, do Wolverhampton, direto para as posições de titular.

Funcionou bem. Começou a campanha com cinco vitórias em seis rodadas, inclusive contra o Newcastle, eventual campeão, fora de casa. Mas sofreu entre meados de outubro e dezembro, quando conseguiu apenas um triunfo em oito partidas. A recuperação começou com vitória sobre o Bristol City, por 2 a 1, e o Huddersfield perderia apenas uma vez nos 13 jogos seguintes. Uma nova queda brusca de rendimento fez com que não fosse mais possível conquistar vaga direta na Premier League, mas ainda conseguiu se manter entre os seis primeiros.

O grande problema do Huddersfield é ser um time que domina os jogos, pressiona, mas não faz gols. Teve média de 55,7% de posse de bola, a terceira maior da Championship, mas finaliza pouquíssimo. Arremata a gol apenas 13.6 vezes por partida, a 18ª marca do torneio, e desses chutes, somente 4.4 vão no alvo. Resultado: marcou apenas 56 gols em 46 rodadas e tem o 11º pior ataque da competição.

São problemas para Wagner resolver, em caso de acesso ou se tiver que disputar novamente a segunda divisão. Parece ter capacidade de fazer isso. Figura carismática, o promissor treinador tem apenas 45 anos e muitas sessões de treinamentos pela frente na sua ainda iniciante carreira.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo