A três passos do paraíso – ou do inferno

Faltam apenas três partidas para que a temporada do Manchester United chegue ao fim. Se alcançarem três vitórias, os Red Devils garantirão os títulos do Campeonato Inglês e da Liga dos Campeões. Fechariam, assim, um ano glorioso, em que jogaram o melhor futebol do mundo e seriam recompensados com os dois títulos mais importantes que disputaram.
Por outro lado, o desfecho da temporada pode ser o oposto. Bastam dois tropeços nessas partidas para que se caracterize mais um fracasso na reta final da LC – e o pior, contra um rival inglês – e o título nacional seja perdido de maneira humilhante para o Chelsea.
No último sábado, quando foi derrotado pelos Blues por 2 a 1, o Manchester United queimou sua última ficha. Alex Ferguson colocou em campo um time misto, preferindo poupar alguns jogadores-chave para a partida contra o Barcelona e pagou o preço. Agora, não tem mais margem de erro e precisa vencer seus últimos dois jogos para ficar com o título sem depender de um tropeço do Chelsea.
O que realmente preocupa a torcida dos Red Devils é que o United parece estar ficando sem gás. Alex Ferguson nega, mas o fato é que o time perdeu sete pontos em seus últimos quatro jogos na Premier League (nos seis jogos anteriores, não perdera nenhum). Na Liga dos Campeões, chegou à final, mas seu desempenho contra Roma e Barcelona foi opaco, longe das grandes apresentações de alguns meses atrás.
No encalço do United está um Chelsea motivado e que faz o caminho inverso: jogou um futebol sem graça a temporada inteira, mas está crescendo no momento certo. É verdade, porém, que o time de Abramovich foi bastante favorecido pelo calendário na última semana. Os Blues tiveram oito dias de espaço entre suas duas partidas das semifinais da LC, enquanto o Manchester teve apenas seis. Isso permitiu à equipe uma margem de manobra muito maior ao escolher os jogadores que entraram em campo no sábado.
Agora, o Manchester United está a um passo do abismo – e da glória. Qual vai ser o desfecho? É impossível dizer. Mas não custa lembrar que, em 1999, o time enfrentou situação parecida, decidindo três títulos em três partidas consecutivas. Ganhou todas e fechou a maior temporada de sua história. O desafio é grande, mas nenhum time está mais preparado que o Manchester para enfrentá-lo.
Bilhete azul-claro
Menos de 12 meses depois de ser contratado, o técnico Sven Goran Eriksson deixará o Manchester City. Pelo menos é isso o que afirma a imprensa inglesa. E tudo indica que é verdade. No melhor estilo ‘chefão megalomaníaco’, o dono Thaksin Shinawatra já teria comunicado ao suco que ele não treinará o City na próxima temporada.
O motivo para a (provável) demissão é o fraco segundo turno da equipe. De fato, a campanha depois da metade do campeonato é ruim: foram cinco vitórias, cinco empates e sete derrotas. Se esse nível de desempenho tivesse sido mantido durante toda a temporada, hoje o City ocuparia a 13ª posição.
No entanto, isso não quer dizer que a demissão de Eriksson seja justa. O time deverá terminar o campeonato entre a sétima e a nona posição – a última vez que fez melhor foi em 1992, quando ficou em quinto. Não custa dizer que o resultado está acima das expectativas do próprio Shinawatra no começo da temporada.
Fica claro que, de certa forma, o técnico sueco foi vítima do próprio sucesso. O excelente início de temporada do City – até a 14ª rodada, a equipe estava na zona de classificação para a Liga dos Campeões – passou a sensação de que o time era mais forte do que a realidade. Assim, quando veio a natural queda de rendimento, ficou uma sensação de decepção.
É claro que Eriksson também cometeu erros. Alguns erros seus levaram o City a perder pontos em jogos que deveria vencer, e o próprio sueco admite que exagerou na carga de treinamentos na virada do ano. Além disso, ele gastou uma soma considerável de dinheiro em reforços (mais de € 40 milhões), a maioria dos quais brilhou só em momentos esporádicos.
A demissão do técnico parece muito com as que se vêem no futebol brasileiro, típicas de dirigentes que só enxergam o curto prazo. A exemplo do que acontece aqui, o principal erro está na falta de perspectiva. Afinal de contas, quem Shinawatra acha que vai contratar para o lugar de Eriksson? Ele acha que José Mourinho ou Felipão (este último, o nome mais cotado até o momento) aceitariam ir para um time que tem um dono tão instável?
A torcida ficou revoltada com a notícia – e com razão. Independentemente do resultado final, a temporada do Manchester City foi boa e trouxe um nível de interesse que os fãs não viam há muito tempo. Afinal, seu time pôde sonhar com a glória por bastante tempo e ainda teve o prazer de ganhar duas vezes do Manchester United (coisa que não acontecia desde 1969/70). Se Shinawatra espera que um treinador consiga mais do que isso em apenas um ano de trabalho, ainda vai ter que demitir muita gente.
Trocando as bolas
Era 2003. O Celtic fazia uma excelente temporada. Não só liderava o Campeonato Escocês com relativa folga como também surpreendia na Copa Uefa. Mas, nos últimos meses, as coisas deram errado. Cansado pelo excesso de jogos, o time deixou escapar pontos importantes e acabou a temporada sem nenhum título – perdeu o Escocês para o Rangers no saldo de gols e foi vice na Copa Uefa, caindo frente ao Porto de José Mourinho.
Cinco anos depois, a situação é muito parecida, mas com papéis invertidos. Hoje, é o Rangers que brilha na Copa Uefa – e que também corre o risco de perder um título nacional que já parecia ganho.
Há quatro semanas, os Gers tinham quatro pontos de vantagem sobre o Celtic no Escocês, com dois jogos a mais para disputar. Depois de sofrer duas derrotas para o arqui-rival em 11 dias, agora o Rangers se vê cinco pontos atrás na classificação – embora ainda tenha três jogos a mais para disputar.
De momento, ainda nada está perdido, e é possível que o time azul termine a temporada com uma incrível ‘quadruplice coroa’ (FA Cup, League Cup, Escocês e Copa Uefa). Mas as chances não são boas. Para ganhar a Copa Uefa, o Rangers precisa de um empate com gols contra a boa Fiorentina na Itália e, depois, bater o Bayern de Munique (ou o Zenit). No Escocês, três dos seis jogos que o time tem pela frente são contra o Motherwell, o adversário mais duro entre os pequenos. Ao todo, a equipe ainda fará nove jogos neste fim de temporada, num espaço de menos de quatro semanas. Para piorar, acumulam-se suspensões e contusões, e o time de Walter Smith mostra-se claramente cansado.
E não há outra saída: é o preço que o time paga pelo sucesso inesperado. Vale a pena correr o risco de perder o título escocês por uma pequena chance de ganhar a Copa Uefa? Sim, vale. Prova disso é o Celtic, cujos torcedores consideram a temporada 2002/3 como memorável, mesmo sem ganhar nada. Vencer um 52º Campeonato Escocês agregaria pouco à história do Rangers. Já um sucesso internacional ficaria marcado para sempre na história do clube – além de superar o maior feito recente do rival.



