Inglaterra

A torcida do Wimbledon completou sua emblemática volta para casa, 30 anos depois que o clube foi tirado de seu estádio histórico

O Wimbledon não atuava em sua região original desde 1991, mas, depois de renascer na nona divisão e construir um novo estádio, pôde enfim encher as arquibancadas em seu lar neste sábado

Alguns clubes de futebol possuem suas “terras prometidas”. Por algum motivo, quase sempre provocado por dirigentes alheios à torcida ou por forças políticas, essas equipes precisam se afastar de suas casas. O Wimbledon é um dos casos mais notáveis. De 1912 a 1991, os Dons mandaram suas partidas em Plough Lane. A saída aconteceu em meio a promessas de uma casa mais moderna, quando o velho estádio precisava de amplas reformas para se adaptar à legislação imposta pelo Relatório Taylor, após o desastre de Hillsborough. O Wimbledon foi inquilino do Crystal Palace em Selhurst Park até 2002, quando seus donos forçaram uma indesejada mudança de Londres para Milton Keynes e rebatizaram a agremiação como MK Dons. Neste momento, os verdadeiros Dons foram refundados pela torcida e passaram duas décadas sonhando com a terra prometida. Até que em 2020, finalmente, o retorno do clube para sua região histórica acontecesse. E o sábado foi especial no novo Plough Lane, no primeiro jogo com público desde a inauguração do estádio há dez meses.

A partir de sua refundação, o Wimbledon se reconstruiu gradualmente durante as últimas duas décadas. O clube recomeçou sua trajetória na nona divisão do Campeonato Inglês e precisou subir degraus. Desde 2002/03, os Dons conquistaram seis acessos sem nenhum rebaixamento e alcançaram a League One, a terceira divisão da pirâmide inglesa, em 2016/17. Chegaram a medir forças com o MK Dons e tiveram suas vitórias contra os “usurpadores”, ainda que o retrospecto favoreça a equipe de Milton Keynes – com sete triunfos em 11 confrontos. Apesar de toda a ascensão, a reconstrução dos auriazuis só seria realmente completa quando voltassem a Plough Lane.

Desde a refundação do Wimbledon em 2002, a administração composta pelos torcedores sempre deixou claro que um de seus maiores objetivos era retornar para a região onde ficava Plough Lane. O estádio original foi usado pelo segundo quadro dos Dons até 1998 e acabou demolido em 2002. O terreno havia sido comprado por uma rede de supermercados, tal qual ocorreu com o velho Gasómetro do San Lorenzo em Boedo, mas o descontentamento dos moradores com o projeto cancelou os planos. No fim, no espaço seria erguido um prédio de apartamentos que acabou abraçando a história do Wimbledon. O condomínio “Reynolds Gate” homenageia o ídolo Eddie Reynolds, enquanto os seis blocos levam nomes de personagens importantes dos auriazuis.

A princípio, o renascido Wimbledon mandava seus jogos em Kingsmeadow, estádio para 4,8 mil espectadores construído originalmente pelo semiprofissional Kingstonian FC. Os Dons compraram o local, mas ainda não estavam satisfeitos, considerando que o estádio ficava a cerca de nove quilômetros do velho Plough Lane. Em meio à busca pela terra prometida, o Wimbledon começou a negociar a compra do antigo estádio usado para corridas de cachorros na região de Merton, que ficava a 200 metros de Plough Lane. As conversas se iniciaram em 2013, até a aprovação das autoridades locais em 2015. Neste ínterim, os Dons negociaram Kingsmeadow com o Chelsea, que passou a utilizar o estádio em conjunto para sua equipe feminina e para o time sub-23.

A construção do novo Plough Lane começou em 2018 e, depois de atrasos nas obras, a inauguração do estádio finalmente aconteceu em novembro de 2020. As arquibancadas têm capacidade para 9,2 mil torcedores e poderão ser expandidas para 20 mil lugares no futuro. Porém, esse esperado capítulo da história auriazul precisou se iniciar com tribunas vazias. Em plena pandemia, o Wimbledon teve que atuar às moscas durante seus primeiros jogos como mandante na terra prometida. Não deu nem tempo de levar públicos parciais para a reta final da League One de 2020/21. Assim, o reencontro com os torcedores ficaria guardado para essa temporada.

O Wimbledon estreou na nova edição da terceira divisão fora de casa, ganhando do Doncaster Rovers por 2 a 1. Já no último sábado, finalmente os portões de Plough Lane estariam abertos para receber a lotação máxima do estádio, no primeiro jogo do local com público. Os presentes puderam assistir a uma partidaça, com o empate por 3 a 3 contra o Bolton, no qual os Dons buscaram uma diferença de dois gols no placar. Todavia, mais importante que o resultado era mesmo a oportunidade de voltar para casa. Milhares de torcedores aguardaram esse momento por 30 anos. E as gerações mais novas experimentaram algo inédito.

Um dos mais emocionados era Ivor Heller, um dos quatro fundadores do Wimbledon no ressurgimento do clube: “Esse é o maior momento em toda a história do Wimbledon Football Club. Depois de 30 anos em que fomos tirados de casa da maneira como fomos, voltar da maneira como conseguimos, com o tanto de gente que ajudou isso a acontecer, é algo totalmente maluco. Isso é enorme. Não há um indivíduo que leve essa glória. Isso é para todos os torcedores que já compraram um ingresso, vieram a um jogo e ajudaram a arrecadar o dinheiro para Plough Lane. Todos contribuíram de maneira igual nisso. É absolutamente incrível”.

“Antes que isso acontecesse, quando o antigo Plough Lane ainda estava lá, discutíamos apaixonadamente que poderíamos voltar e construir um novo estádio no mesmo local. Depois de uma história muito longa e cheia de reviravoltas, todos aqueles esforços não foram em vão. Aqui estamos, conseguimos isso, para mim um ciclo está completo. Nosso estádio diz a todos: não importa o que façam ao seu clube, os verdadeiros torcedores sempre seguirão em frente. O clube é a torcida, é o mais importante. Somos a continuidade de um clube e isso é tudo. Somos o Wimbledon, jogamos de amarelo e azul, atuamos em Plough Lane. Tiraram isso de nós há 30 anos, mas não podem tirar agora. Estamos aqui, o estádio não vai a qualquer lugar. Daqui a 100 anos, as pessoas ainda virão aqui e dirão o que fizemos para salvar nosso clube”, complementou.

Quem também se emocionou foi Dickie Guy, goleiro do Wimbledon nos anos 1960 e 1970, que assumiu a presidência em 2004: “O que as autoridades do futebol fizeram com nosso clube foi uma vergonha. Eles nos despiram e não posso perdoá-los por dizer que a reconstrução do nosso clube ‘não seria do interesse mais amplo do futebol’. Bem, olhe para nós agora. As autoridades subestimaram seriamente o poder, a força e a convicção da nossa torcida. Eles não faziam ideia do que estavam despertando. O estádio é uma prova disso e estou feliz por todos esses torcedores fieis que deram tanto, que nunca esperaram de acreditar e lutar, que agora testemunham esse momento glorioso. É disso que o futebol é feito – não do dinheiro, nem da ganância ou da Superliga Europeia. Futebol é sobre torcedores e é por isso que hoje foi tão especial”.

Antes que o jogo contra o Bolton começasse, o Wimbledon ofereceu um minuto de aplausos. O clube desejava relembrar todos os seus membros e torcedores que partiram sem vivenciar o esperado momento de retornar a Plough Lane. “Eles não puderam estar aqui para nos ver transformar o sonho em realidade, mas vivem nos corações de amigos, familiares e demais torcedores”, declararam os Dons. “Para todos que nos assistiram, viajaram ao redor do país para nos apoiar, fizeram campanhas por nós, escreveram cartas por nós, levantaram dinheiro por nós, deram seu tempo e esforço por nós: agradecemos e nunca os esqueceremos. E nós esperamos que vocês estejam orgulhosos daquilo que nos tornamos”. Uma jornada longa terminou e o Wimbledon reiniciou uma história no local onde, enfim, sua verdadeira torcida se sente em casa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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