A melancolia é vermelha

Por mais que seus torcedores possam fingir felicidade – por ter afastado o rival United do título – o fato é que o Liverpool só tem a comemorar no final de semana o empate do Everton com o Stoke no sábado, que tornou impossível aos Toffees ultrapassarem o rival, e, com isso, classificou os Reds para a Liga Europa.
A derrota para o rival Chelsea em casa acabou com as parcas chances da equipe chegar à Liga dos Campeões, e encerrou de maneira melancólica uma temporada que, antes de começar, tinha tudo para ser gloriosa. O passe errado de Gerrard, no momento em que o Liverpool dominava o jogo, que resultou no gol de Drogba simboliza a temporada vermelha, marcada por pequenos erros que viraram grandes crises. Aliada à eliminação na Liga Europa por ninguém mais que o Atlético de Madrid, símbolo universal do fracasso, a derrota deu um tom fúnebre ao fim de semana – e de temporada.
Muito já se falou aqui sobre Rafa Benítez, um mago com as peças na mão, mas um péssimo escolhedor de peças. O elenco que chegou ao vice-campeonato no ano passado, com uma ou duas adições de qualidade, podia ser campeão em cima de unm envelhecido Chelsea – e um alterado United. As adições, porém, não vieram, pelo contrário, o elenco perdeu o importantíssimo Alonso, e não trouxe Gareth Barry para o seu lugar.
Discutir se Alonso tem essa importância toda, se o Liverpool economizou e acabou perdendo Barry por detalhes, se Lucas demorou mais do que deveria para florescer, tudo isso é detalhe. O que importa é que, mais uma vez, os Reds dependeram demais de Gerrard e de Torres – e, mais uma vez, não puderam contar com o espanhol tanto quanto precisariam. As contratações não vieram, e não viriam. O importante, porém, é saber se virão.
Não é que o elenco do Liverpool seja horrível, e que não possa voltar a lutar por uma vaga na LC já na próxima temporada. O problema é que isso não pode ser suficiente para os Reds. Problema maior que esse, entretanto, é saber o que o futuro reserva à equipe, que está à venda, e não sabe nem quem será seu dono no ano que vem.
É claro que o Liverpool é o Liverpool, mas a situação lembra as de Newcastle e Portsmouth no começo da temporada passada. O Pompey, como se sabe, caiu, e quebrou radical. O Newcastle, contra todas as expectativas, subiu com facilidade enorme, mas é bom não esquecer que o time jogou a segunda divisão.
Rafa Benítez dizze nas declarações pós-jogo que a culpa pela falta de profundidade do elenco é dos donos do time. Em parte, claro, é. Quem gastou dinheiro em Aquilani, Babel, Riera e cia. foi ele Benítez, que parece não estar disposto a admitir suas culpas. Errou, como sempre, no mercado de transferências, e, para além disso, perdeu o time cedo demais, quando ficou claro que, nesta temporada, sua mágicas não apareceriam.
O nome de Rafa era especulado até no Real Madrid até o ano passado, mas a temporada que passou diminuiu não só o círculo de interessados como o poder de barganha do treinador. A começar pelo fato de que os Reds devem ter donos novos em breve. Se fosse no ano passado, demitir Benítez seria impensável, os fãs não permitiriam. Hoje a situação provavelmente não é a mesma..
A questão da propriedade do clube, porém, não afeta só a decisão sobre quem deve ser o técnico, mas também quanto dinheiro estará disponível (ou não) para transferências. Ainda que haja um dono pão duro, é certamente melhor do que não ter um dono, como outro time de Tom Hicks, o Texas Rangers, demonstra neste ano no beisebol – e como o Portsmouth demonstrou na própria Premier League.
Outro fator a se levar em conta é que, fora da LC, o clube é muito menos atrativo para um eventual comprador. Vale lembrar que Roman Abramovich só fechou negócio com o Chelsea depois do clube garantir vaga na competição no ano seguinte. E que os donos do Tottenham esperam há 100 anos o clube chegar a ela para poder vendê-lo com mais lucro.
Em um ano, tudo mudou. Um time que era apontado por alguns – eu inclusive – como favorito ao título virou um catadão de jogadores com níveis moderados de talento e interesse, que não têm algo que os una, um objetivo ou uma liderança. Tudo depende de quem vai assumir o leme, é claro, mas se não houver um chacoalho geral e Anfield, no ano que vem os Reds devem ter mais um ano de expectativas frustradas.



