A Inglaterra escolheu Sam Allardyce por uma razão: a busca por uma identidade
Uma frase atribuída a Albert Einstein diz que loucura é continuar fazendo sempre as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. A Inglaterra anunciou Sam Allardyce nesta sexta-feira e nos dá a impressão que a Football Association segue escolhendo o mesmo caminho esperando algo totalmente diferente. A escolha de Allardyce lembra, em alguns aspectos, a de Hodgson há pouco mais de quatro anos. Mas desta vez se espera algo diferente. Há razões para isso? Os ingleses falam muito em buscar uma identidade e esta é uma questão muito difícil de resolver.
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A Inglaterra tem bons jogadores. É bom lembrar disso, porque embora as campanhas nas últimas grandes competições tenham sido ridículas, há jogadores para que o time atue melhor do que atuou. E isso vale para todas as grandes competições desde 2002, quando caiu para o Brasil nas quartas e final da Copa. E por que o time não conseguiu ir além depois? O texto de Raphael Harris fala um pouco disso por aqui. Mas o assunto aqui é Sam Allardyce.
“Eu estou extremamente honrado de ser escolhido técnico da Inglaterra, especialmente porque não é segredo que é um cargo que sempre quis. Para mim, é absolutamente o melhor emprego no futebol inglês”, disse Sam Allardyce, em sua apresentação. “Eu farei tudo que eu puder para ajudar a Inglaterra a ir bem e dar à nossa nação o sucesso que os torcedores merecem. Acima de tudo, nós temos que fazer as pessoas e o país todo orgulhoso”, continuou.
“Enquanto o foco será na seleção principal e em conseguir resultados positivos, eu quero adicionar a minha influência ao grande trabalho feito pelo desenvolvimento dos times em St. George’s Park [centro de treinamento das seleções inglesas] – um equipamento que eu usei em clubes que dirigi”, continuou. “Eu sei que nós temos talento, jogadores comprometidos e está na hora de entregarmos isso”, declarou.
“Sam Allardyce é o homem certo para o emprego na Inglaterra. Suas excelentes credenciais como técnico, incluindo sua habilidade de realizar o potencial dos jogadores e times, desenvolver uma forte identidade do time e abraçar métodos modernos para melhorar desempenho o fazem uma escolha excelente”, declarou Martin Gleen, executivo chefe da FA. É exatamente em cima deste discurso do dirigente que está a grande aposta dos ingleses sobre Allardyce: uma forte identidade inglesa.
Um dos motivos de alguns ingleses acreditarem que a escolha de Allardyce para a seleção inglesa é uma boa reside no fato de ele ser um ótimo administrador de vestiários. Conhecemos este perfil aqui. Algo que Joel Santana, Felipão e afins se especializaram. O treinador é muito elogiado por ter feito um grande trabalho no Bolton levando o time não só à primeira divisão, mas a torneios europeus. E lidando com alguns jogadores de grande ego e personalidade, como Youri Djorkaeff, Jay-Jay Okocha, Nicolas Anelka e Fernando Hierro.
Outro fator que leva os ingleses a acreditarem em Big Sam é a sua capacidade de recuperar jogadores. Dirigindo o Sunderland na última temporada ele conseguiu uma arrancada que impediu o rebaixamento do time. Alguns dos protagonistas eram os famosos refugos. Um deles, por exemplo, era Youanes Kaboul, dispensado pelo Tottenham. Outro foi o atacante Jermain Defoe, que veio dos Estados Unidos. Ambos sem muito crédito. Terminaram como jogadores cruciais para a permanência do time na Premier League.
Mas, então, por que acreditar em um técnico que pratica um futebol que poderia ser classificado muitas vezes como um “kick and rush” clássico, um futebol mais duro, de menos criatividade. É verdade que esta é uma generalização que diminui de forma bastante simplista o que Sam Allardyce faz nos clubes, especialmente se considerarmos que ele nunca teve um elenco farto e cheio de talento para trabalhar. Ou, ao menos, quase nunca.
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Os exemplos dados para mostrar que Allardyce é mais do que um técnico no estilo, digamos, mais rústico de futebol é que alguns dos seus times tiveram jogadores que atuavam de outro jeito. Um deles foi justamente Jay-Jay Okocha, um jogador para lá de habilidoso, criativo e que se movimentava muito.
Um time que só joga bola na área não faria um bom uso de Okocha e isso é bem verdade. Mas ter Okocha no time, embora tenha dado alguns toques de magia ao time, não impediu que fosse desenvolvido o “futeBolton”, apelido dado pelo comentarista Rodrigo Bueno nos tempos que o time estava na primeira divisão.
O Sunderland não era um time que só jogava com bola aérea e chutão, evidentemente. Podia não ser um dos times de futebol mais atrativo da Premier League, evidentemente, mas tinha lá suas qualidades. O problema é que o salto da dimensão do Sunderland para a seleção inglesa parece grande demais, mesmo para um técnico experiente como Big Sam.
Talvez a FA não tivesse opção melhor. Quando o segundo nome mais cotado é Steve Bruce, não dá para esperar que haja algo muito melhor. Se falou em Manuel Pellegrini, que deixou o Manchester City depois de uma passagem relativamente bem sucedida, mas o chileno, primeiro latino-americano campeão da Premier League como técnico, não poderia fazer algo que os ingleses anseiam: resgatar a identidade do time.
Ter identidade não significa o kick and rush, como já falado por aqui. Dá para ser melhor do que isso. A Inglaterra tem jogadores para ser melhor. Allardyce terá que mostrar que pode trabalhar com um elenco diferente e que pode jogar em um estilo que aproveite o melhor dos jogadores ingleses atuais. Alguns deles são mesmo supervalorizados, mas há de fato bons jogadores, que podem ao menos fazer frente a outros times importantes.
A FA queria alguém com identidade com o futebol inglês. Que conhecesse bem os jogadores, tivesse um bom relacionamento com eles e pudesse trazer algo diferente dali. É difícil imaginar que a Inglaterra não possa fazer frente a Gales e Islândia, como não conseguiu nesta última Eurocopa. É possível fazer mais com a Inglaterra. Não quer dizer que o time se tornará um favorito ao título, nem que dominará o futebol europeu. Mas dá para ir além.
A desconfiança em relação a Allardyce é totalmente justificada. Caberá a ele mesmo mostrar que pode ir além do que já mostrou, gerir bem um grupo de jogadores e seus problemas com a seleção e transformar isso tudo em um time. A Inglaterra precisa da sua identidade como time. Seja ela qual for. Não precisa ser o futebol da França, ou da Alemanha ou da Itália. Precisa ser o seu. E o futebol inglês não parece saber bem o que quer. Parece estar repetindo as mesmas escolhas em busca de um resultado diferente. Caberá a Allardyce mostrar que as qualidades que ele mostrou podem potencializar a Inglaterra.
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— England (@England) 22 de julho de 2016
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