A hora da virada para os Spurs

Depois de muitas ‘chances’ e adiamentos, finalmente Martin Jol foi demitido do Tottenham. Até parece que a diretoria esperou só o suficiente para que ele não fosse o primeiro (nem o segundo) treinador a perder o emprego na temporada. Para seu lugar, foi contratado o promissor Juande Ramos, que estava à frente do Sevilla. Em vista da situação em que o clube estava, a demissão do holandês (que, segundo a imprensa inglesa, ganhou uns € 6 milhões de rescisão) era inevitável – e a escolha de Ramos como substituto foi acertada. No entanto, ainda não dá para dizer que o futuro é róseo para os Spurs.
Desde agosto, quando dirigentes do Tottenham foram flagrados negociando com Juande Ramos, o técnico holandês já era um morto-vivo. De fato, o Tottenham havia começado mal o campeonato, com três derrotas nos quatro primeiros jogos, mas, à época, a atitude da diretoria foi mais que precipitada. Ao que parece, Ramos não aceitou a oferta na época, e os dirigentes tiveram que dar mais uma (ou duas ou três…) chance a Jol. Só que aí o técnico já estava ferido de morte.
O próprio Jol, diga-se a verdade, também ajudou a cavar a própria cova, com decisões táticas e técnicas erradas – não dá para atribuir só aos jogadores o fato de o time ter perdido nove pontos em quatro jogos nos quais o Tottenham chegou a liderar mas deixou o adversário reagir (contra Fulham, Arsenal, Bolton e Liverpool). Além disso, pesa contra ele o péssimo retrospecto contra os quatro ‘grandes’ (lembrando que se supunha que o Tottenham superaria ao menos um deles): foram 15 derrotas, oito empates e apenas uma vitória, em jogos da Premier League.
Não custa lembrar que, embora os resultados desta temporada estejam muito abaixo do admissível, o retrospecto de Martin Jol à frente da equipe é mais que respeitável. Nas duas temporadas completas em que dirigiu o time, o Tottenham ficou com a quinta colocação. O resultado pode não parecer grande coisa. Mas a impressão muda quando pegamos o histórico e vemos que os Spurs não ficavam entre os cinco primeiros desde 1990. Nas oito temporadas anteriores a sua chegada, a colocação média da equipe vinha sendo o 11º lugar.
Difícil tarefa
Esse dado mostra como é difícil a tarefa que Juande Ramos tem à frente. Em sua apresentação, o técnico espanhol declarou que pretende levar o Tottenham a “seu lugar de direito”. Essa expressão é particularmente perigosa: qual seria o lugar de direito dos Spurs? A diretoria, certamente, pensa na Liga dos Campeões. Tomando como base a pujança financeira ou resultados históricos, repetir o desempenho de Jol e ficar em quinto ou sexto lugar estaria ótimo. Para esta temporada, no entanto, simplesmente terminar na metade de cima da tabela já seria um feito respeitável.
Ramos foi escolhido por seu notável desempenho no Sevilla, time modesto no qual ganhou três títulos (duas Copas Uefa e uma Copa da Espanha) nas últimas duas temporadas. A lógica diria que o Tottenham tem bem mais ‘tradição’ em seu país que o time espanhol, portanto, não seria pedir demais alguns títulos da Copa da Inglaterra, Copa da Liga ou, quem sabe da Copa Uefa – torneio do qual o Sevilla de Ramos eliminou o Tottenham, na última temporada. Por isso, entre outras coisas, a pressão no time espanhol era bem menor do que a que ele deverá encontrar em Londres. A incógnita é: até onde se espera que Ramos leve os Spurs? Se a exigência for mesmo títulos e participação na Liga dos Campeões, a tarefa será muito, muito dura.
O treinador espanhol, sem dúvida, sabe trabalhar com jogadores talentosos, mas que não são superastros – exatamente o perfil da maioria do elenco dos Spurs, hoje. Por outro lado, deve-se lembrar que não foi ele que montou a estrutura vencedora do Sevilla (foi estruturada na época de Joaquín Caparrós, entre 2000 e 2005) e que todos seus outros trabalhos foram em times pequenos da Espanha. Ou seja, é sem dúvida um técnico promissor, mas que não deixa de ser uma incógnita.
Para acertar o time, Juande Ramos terá à disposição uma boa quantidade de dinheiro – recurso que era bem limitado no Sevilla. A diretoria já deixou claro que só espera o espanhol se ambientar para definir com ele os reforços que serão contratados na janela de janeiro. Mas é aí que entra um grande porém: no Tottenham, o técnico não tem autonomia total para escolher as contratações. Tanto é assim que, na última pré-temporada, Jol pediu um zagueiro e um volante, mas o principal reforço que chegou foi o atacante Darren Bent (para a defesa, recebeu apenas o jovem Younes Kaboul). Será que com Ramos a história será a mesma?
O novo técnico parece ter começado bem e já impôs respeito (a falta de comando sem dúvida vinha sendo um dos problemas do Tottenham nesta temporada). Após a derrota para o Blackburn, quando foi apresentado ao elenco, avisou: “a reconstrução começa amanhã de manhã”. E, para mostrar que não estava brincando, tascou logo uma seção de treinos em dois turnos (de manhã e à tarde), o que não é comum na Inglaterra.
Tal atitude é importante, pois será indispensável uma grande dose de personalidade – além de muita habilidade tática – para fazer o Tottenham florescer numa liga em que, além dos quatro pesos-pesados, ainda há um grande grupo de times ricos com grandes aspirações – coisa que não acontece no Campeonato Espanhol. Superar todos esses adversários e levar os Spurs até a Liga dos Campeões em um ano e meio será um desafio bem maior do que qualquer um que Ramos tenha enfrentado no Sevilla.
CURTAS
– Continua a chuva de gols no Campeonato Inglês.
– Em todas as últimas cinco rodadas, a média foi de pelo menos 2,9 gols marcados por partida.
– O Arsenal segue sendo o melhor ataque do campeonato, mas o Manchester United vem brilhando bastante nas últimas rodadas.
– No sábado, os Red Devils fizeram 4 a 1 no Middlesbrough.
– Foi a primeira vez na história que o United marcou quatro gols em quatro jogos seguidos (4×1 Boro, 4×2 Dynamo, 4×1 Villa e 4×0 Wigan)!
– O melhor é que no próximo fim de semana tem Arsenal x Manchester United…
– O Chelsea de Grant/Ten Cate começa a atender aos desejos de futebol ofensivo de Roman Abramovich.
– No fim de semana, o time meteu 6 a 0 no Manchester City (que ainda está à frente dos Blues na classificação).
– Foi a maior goleada do time londrino desde agosto de 1997!
– O Bolton definiu o nome de seu novo treinador: Gary Megson.
– A imprensa inglesa criticou a escolha, dado o mau resultado do técnico à frente do Nottingham Forest.
– Megson não é um treinador totalmente ruim. Mas, de fato, seu retrospecto é horrível na Premier League: 7 vitórias, 13 empates e 29 derrotas, incluindo um rebaixamento, com o WBA.
– Na Escócia, o campeonato continua bem interessante.
– O Dundee United venceu o Rangers por 2 a 1, permitindo que o Celtic assumisse a liderança isolada, graças a um 3 a 0 sobre o Motherwell.
– Com 11 rodadas disputadas, apenas quatro pontos separam o líder do quarto colocado.



