100% azul

Chelsea e Manchester City são, de uma certa forma, dois lados de uma mesma moeda – ou de muitas delas: seus donos têm dinheiro saindo pelo ladrão, o que faz com que possam contratar quem quiserem e, com isso, serem odiados pelo planeta. São também duas camisas tradicionais, embora ambos, antes da chegada do caixa recheado, não fossem exatamente os times mais vitoriosos do país – ou de suas cidades.
Têm, claro, duas diferenças importantes, de tempo: o City continua tendo dinheiro para queimar, enquanto o Chelsea, independentemente de estar proibido de contratar por dois anos, não é mais o bicho papão da janela de transferências que foi nos primeiros anos da era Abramovich. Por outro lado, mesmo quando ainda era de Ken Bates, o Chelsea vinha se colocando entre os primeiros colocados da Inglaterra fazia alguns anos, ao contrário dos Citizens.
È esta segunda diferença que faz com que, na Inglaterra, se aposte, desde antes do começo do campeonato, em um Chelsea campeão, mas que não se coloque o Citizen além de uma possível quarta posição. Com cinco rodadas decorridas na Premier League, ambos os times azuis têm algo mais em comum: são as duas únicas equipes a terem vencido todas as suas partidas – quatro, no caso dos mancunianos. É claro que é prematuro para qualquer análise mais profunda, mas vale a pena ver o que há nestas invencibilidades.
Em primeiro lugar, é bom dizer, há pouco desafio. Com exceção do Arsenal, batido pelo Man City no último final de semana, a melhor das outras oito equipes batidas pela dupla azul na temporada passada foi o Fulham. A vitória dos Citizens diante do Arsenal, aliás, é simbólica para além de Adebayor – em fase “Dunga”. Seu maior significado poede ser a passagem do bastão de um para o outro como quarto membro do grupo da LC. As ressalvas: o jogo foi em Manchester, e os Gunners são mesmo uma equipe bipolar – o que é bom no sentido de que podem ser ultrapassados pelos rivais, mas não é tão bom quando se usa a vitória como parâmetro para o futuro.
Entre os outros resultados do Man City, vitórias magras sobre dois prováveis rebaixados, e uma vitória sobre o médio Blackburn na casa do adversário – não uma surpresa, mas um resultado que talvez nem todos os concorrentes às primeiras posições consigam. Mark Hughes, pelo menos nestas quatro primeiras partidas, dá mostras de que está conseguindo o que não conseguiu no último ano: montar um time competitivo, mas também consistente. Não é de surpreender que Robinho, aparentemente, não faça parte dos planos mais ambiciosos.
No caso dos azuis de Londres, o que acende a luz de alerta não é só a fragilidade dos adversários, mas também a dificuldade com que foram batidos alguns deles, com gols no final, e sem que a partida tivesse sido dominada pelos vencedores. É bom lembrar que o time continua dependendo fundamentalmente de Drogba, e que seu companheiro de ataque é Anelka, o que quer dizer que o time não tem nem ao menos uma dupla de ataque titular confiável, quanto mais profundidade no elenco.
Na Inglaterra, entretanto, talvez pelo “efeito Capello”, acredita-se muito no trabalho de Ancelotti. O italiano, é verdade, ganhou muito no Milan, mas é sempre bom lembrar que seu sucesso esteve concentrado muito mais na Liga dos Campeões do que na Série A.
Ressalvas que têm de ser feitas, mas, independentemente do que venha a acontecer no futuro, Chelsea e Man City estão 100%. E saem na frente dos rivais na briga por seus objetivos.
Vem o bi?
O desempenho da seleção da Inglaterra nas eliminatórias da Copa de 2010, para a qual se classificaram ao bater a Croácia em casa na semana que passou, é simplesmente irretocável. A equipe venceu as oito partidas que disputou, aí incluída uma expressiva vitória de 4 a 1 sobre a Croácia em Zagreb. Vale lembrar que foi a mesma Croácia que tirou os ingleses da última Euro, ao vencê-los na Inglaterra na última rodada das eliminatórias. O tipo do resultado que, tudo indica, não acontecerá de novo sob o comando de Capello.
Outro sinal importante é a quantidade de gols que o time tem marcado, 31 em oito jogos, o que lhe confere uma média de quase quatro gols por jogo. Nada mal para um técnico chamado por aqui de “retranqueiro”. Mais do que os números, entretanto, o que Capello tem trazido ao English Team é a confiança de que podem vencer. O que pode ser uma faca de dois gumes.
As duas vitórias diante da Croácia foram, de fato, expressivas, mas é bom lembrar que o único outro adversário de nível razoável foi a Ucrânia – que pega os ingleses em casa na próxima rodada. Também é preciso ver que, nos amistosos contra equipes do primeiro nível, a Inglaterra não foi tão bem: perdeu da França e da Espanha, embora tenha vencido a Alemanha.
O English Team tinha, historicamente, em tempos recentes, três grandes problemas: como encaixar seus ótimos jogadores de meio-campo em um esquema que funcione; quem vai marcar os gols necessários; e como dosar o otimismo e o sentimento de inevitabilidade da derrota para que nenhum dos dois atrapalhe. Capello resolveu o primeiro, mas o segundo continua vivo, e o terceiro só se saberá quanto terminar a Copa.
No meio-campo, Barry, Gerrard e Lampard têm tido ultimamente a companhia freqüente de Aaron Lennon. A qualidade da distribuição do jogo é evidente, mas a falta de marcação pode ser um problema contra equipes mais fortes. Some-se a isso o fato de que o lateral-direito de Capello tem sido o ofensivo Glen Johnson, e há aí um fator de preocupação, O italiano, porém, resolveu a questão de colocar Lampard e Gerrard jogando juntos. Quem pagou o pato, até aqui, foi Joe Cole.
Na frente, Rooney é uma certeza, mas seu companheiro, uma dúvida gigantesca. Capello prefere Emile Heskey, que não marca gols, por sua presença física. As duas alternativas mais comuns são jogadores do mesmo time, mas de característica oposta: o baixinho Defoe, e o “comprido” Crouch. O que se diz na Inglaterra é que, embora os números de ambos sejam muito melhores que os de Heskey, a presença de Crouch sugeriria ao time a insistência no jogo aéreo, que Capello quer evitar a qualquer custo. Enquanto a de Defoe levaria o time a ter um ataque rápido, mas de presença física limitada.
A grande questão para a Inglaterra, porém, é com sua autoconfiança. O time parece transitar assustadoramente rápido da certeza de quem tem os melhores jogadores e por isso pode vencer qualquer um à certeza de que a derrota, no final, sempre virá – provavelmente para a Alemanha, nos pênaltis.
Se já demonstrou ter a chave para resolver as questões práticas de seu time, Capello agora terá que ver o que fazer com a cabeça de seus jogadores. Deu um grande passo ao declarar que as mulheres dos jogadores não terão acesso irrestrito a eles durante a Copa – problema parecido com o “problema Weggis” para o Brasil. Se, de fato, conseguir dosar a confiança de seus comandados, o italiano tem tudo para entrar para a história. A Inglaterra sonha intensamente com isso.



