Van Gaal, a faca de dois gumes
A partir da noite de segunda-feira (horário de Brasília), começaram a pulular as notícias, que repercutiam as declarações dadas por Louis van Gaal na cidade holandesa de Scheveningen, quando recebia um prêmio pelo conjunto de sua carreira. O leitor deve ter visto em vários lugares – e também na : após 26 anos de carreira, Van Gaal anunciava que dificilmente voltaria a comandar uma equipe. Aliás, reconfirmou o que já dissera, segundo ele mesmo, após o título do Manchester United na FA Cup da temporada passada: “Eu já tinha dito que iria parar. Depois, mudei espertamente para um ‘período sabático’, mas agora não acho que voltarei a ser treinador”.
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Louis ia além, citando a necessidade de estar mais perto da família como o principal motivo para o virtual fim da carreira: “Aconteceu muita coisa na minha família [Van Gaal citou até a morte de um genro]. A partir disso, novamente você reconhece, como homem, os fatos esfregados na sua cara”. E dava a prova definitiva de como sua mente não estava mais no futebol: a recusa a ofertas previsivelmente generosas vindas de clubes da China e da Arábia Saudita – dos chineses, então, as ofertas circulariam na ordem de 50 milhões de dólares. “Na Arábia não me pagam essa quantia, mas na China, sim. Eu poderia ter ido, também, mas ainda estou aqui”.
Claro, a revelação do provável fim de carreira deu início a avaliações várias da carreira do treinador de 65 anos. Avaliações que ficaram bem mais cautelosas a partir do momento em que Van Gaal disse que era melhor irem com calma ao cravarem o ponto final de sua trajetória no futebol, numa entrevista à rádio espanhola Cadena Ser: “Se vou continuar ou não, depende das ofertas que eu receber”.
Ainda assim, os comentários sobre LvG fazem com que ele mereça uma avaliação de seu papel e seu jeito de treinar. Afinal, a coluna fez a mesma coisa com Guus Hiddink, quando ele deixou o Anzhi-RUS, indicando que aquele fora seu último trabalho no futebol – quem poderia imaginar que ainda viria uma segunda passagem desastrosa pela seleção holandesa? Nada mais justo, então, que comentar sobre um técnico que, pare quando parar, deixará memórias e marcas ainda mais indeléveis no futebol holandês.
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Sim, Van Gaal é muito importante na Holanda. Pode-se dizer que talvez seja o único técnico vencedor a ter constituído um estilo tático que desafiava a hegemonia do ideário pregado por Johan Cruyff, seu desafeto eterno. Se o Futebol Total prezava a marcação por pressão, a velocidade, o espírito ofensivo acima de tudo, Van Gaal colocou cadência nos seus times, valorizou sobremaneira a troca de passes, trazia times extremamente bem estruturados no esquema tático.
Se isso representou um claro rompimento e uma clara diferença em relação ao Ajax campeoníssimo da década de 1970 – e ampliou a rixa existente entre Cruyff e Van Gaal (rixa vinda desde os tempos em que o primeiro era o destaque entre destaques no campo, e o segundo era apenas um atacante da base procurando espaço), também representou a formação de uma equipe que mostrou qual é a principal qualidade e o principal defeito de Van Gaal em sua carreira de técnico.

Desde 1991, quando sucedeu Leo Beenhakker no comando do Ajax, o marido de Truus formou uma equipe à sua imagem e semelhança. Teve paciência para aproveitar os jogadores que tinha – tanto da base do Ajax (os irmãos De Boer, Van der Sar, Davids, Seedorf, Kluivert), quanto vindos de outros clubes (Litmanen, Kanu, Finidi, Overmars). Teve frieza admirável para dispensar quem não se encaixava em seus planos – o que incluiu gente que já era admirada pela torcida, como o goleiro Stanley Menzo e o atacante Bryan Roy. O resultado: três anos impressionantes dos Godenzonen, com títulos invictos na temporada 1994/95 (Liga dos Campeões e Campeonato Holandês) e feitos até inesperados (como chegar novamente à final da Champions, em 1995/96). Todavia, esse controle tático era apenas uma das facetas do metodismo de Van Gaal – que, quando não controlado, quase sempre o levou a atitudes intempestivas, até antipáticas.
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A partir daí, dá para discutir a velha questão sobre a eventual raiva do técnico com brasileiros. Cuja resposta mais razoável é que a antipatia de Van Gaal com brasileiros não ocorre meramente pela nacionalidade: se fosse assim, não teria sido ele a dar a primeira oportunidade a Luiz Gustavo no Bayern Munique, muito menos teria aceitado passar um mês no Brasil, na Copa de 2014. A verdadeira razão deve-se à completa oposição no estilo de jogo. Se Van Gaal prega o apego ao esquema, os brasileiros sempre apostam mais na capacidade individual, no talento que destrói qualquer esquema adversário. Eis aí o grande erro de Louis van Gaal, por exemplo, na histórica discussão com Rivaldo, no Barcelona: francamente, prescindir da qualidade inquestionável do pernambucano como ponta-de-lança para fazê-lo jogar pela esquerda, como o técnico holandês queria, era de uma insensibilidade gigantesca. A partir dessa diferença crônica, que fazia Van Gaal ver os brasileiros como “taticamente indisciplinados”, as coisas não poderiam mesmo dar certo.
Outro erro do técnico deve-se, talvez, a seu histórico antes do futebol, como professor numa escola infantil. A partir disso, Van Gaal sempre teve uma postura até autoritária, como se precisasse sempre de um domínio com mão de ferro para ter o respeito do elenco – e aí, poder implantar suas ideias. Às vezes, a tensão no vestiário fica irrespirável a partir disso.
Um exemplo disso veio em história contada recentemente por Mark van Bommel, lembrando a passagem de ambos pelo Bayern, no programa “Made in the Eredivisie”, da FOX Sports holandesa: “Eu era capitão dele, mas eu também protegia o vestiário. Se ele falasse algo inadequado a alguém, eu reclamava. Louis podia tudo, se ninguém chegasse perto dele. No inverno de 2010, isso levou a uma discussão muito séria entre mim e ele. Eu disse tudo o que tinha para dizer, até o xinguei. Normalmente, ele sempre falava, mas daquela vez eu falei por uns dois, três minutos. Disse tudo o que estava entalado. Aí fui embora. Cheguei ao fisioterapeuta e disse: ‘Acabou’. Estava até chorando”. Resultado: Van Bommel deixou o Bayern rumo ao Milan, dias depois.
Enfim, Van Gaal é metódico, mas é dominador. É arrogante, mas é inteligente. E é exatamente essa faca de dois gumes que o faz ser reconhecido como, talvez, o terceiro maior técnico holandês de todos os tempos (ganhou tudo em clubes, superando até Rinus Michels, que fracassou em Los Angeles Aztecs e Bayer Leverkusen). Mas que impossibilitará o reconhecimento pleno do tamanho do treinador que é. Talvez o melhor resumo desta dualidade venha de Wesley Sneijder: “Eu tive momentos ótimos com ele, dentro de campo, como técnico, pois seus treinamentos eram bem divertidos. Mas como ser humano, só tive problemas”.



