Uma história de amor (ou: Você sabe quem foi Pim Doesburg?)
Quando começou? Pode ter sido em 1994, com a inesquecível partida contra a Seleção Brasileira, na Copa do Mundo. Ou então, em 1998, com outro jogo igualmente marcante contra o Brasil num Mundial. Pensando bem… não, não começou ali. Claro, eu conhecia a seleção da Holanda. E beneficiado por uma memória prodigiosa, sabia até o nome de jogadores obscuros daquelas duas seleções. Como Theo Snelders e Ruud Hesp, os terceiros goleiros em 1994 e 1998, respectivamente. Mas isso acontecia com qualquer outra seleção. Não tinha sentimentos em especial pela Holanda, como geralmente acontece com uma equipe no futebol. Apenas respeitava, pela relativa tradição que tinha.
Em 2000, talvez a coisa tenha sido ensaiada. Já me recordo de ter acompanhado proximamente a campanha da seleção na Eurocopa sediada em casa. Inclusive, um episódio pitoresco tornou a eliminação nas semifinais, para a Itália, ainda mais dramática: tinha uma prova para fazer, num curso de inglês, e voltaria para casa depois, esperando ver o final do jogo. Tudo para fazê-la, chegar em casa, e ligar a televisão no exato momento em que a Azzurra celebrava a vitória heroica nos pênaltis e a transmissão se encerrava.
E fiquei ligeiramente triste com a derrota. Não sei a razão. Talvez tenha sido porque um país perderia a chance de festejar uma conquista em casa. Mais provável ter sido porque um dos jogadores da Oranje era Edwin van der Sar – já então meu jogador preferido, como se pode ler aqui. Mas aquele momento também passaria. Ou talvez não: ainda em 2000, eu estava na sétima série. E certo dia, a professora de Geografia pediu para que os alunos fizessem trabalhos em grupo, sobre cada país da União Europeia. Eu fiz o trabalho relativo à Holanda. Sozinho. Pode ter sido um sinal.
Daí, a Laranja ficou fora da Copa de 2002. Mas não me importei muito. Até porque acompanhar o futebol de outros países a par e passo ainda era uma coisa muito difícil. Havia internet, sim, mas os sites eram poucos. Exibição de jogos? Mais difícil ainda – e pensar que a Liga dos Campeões 2001/02 sequer foi mostrada em TV aberta! Encontrar revistas estrangeiras também era raro – e se já era raro ver World Soccer ou Calcio 2000, mais fáceis de ser encontradas, o era ainda mais falar em revistas holandesas, ainda hoje um item quase impossível de se encontrar no Brasil.
Talvez toda a história tenha começado mais seriamente em 2004. Mais precisamente, no dia 25 de junho de 2004, quando a Oranje venceu a Suécia nas quartas de final da Eurocopa, na primeira (e única, até agora) disputa de pênaltis que ela venceu em sua trajetória. Foi um grande dia para aquele time de Dick Advocaat: com a geração dos anos 1990 já começando a sentir o peso dos anos, e a juventude aparecendo meio à força (Robben já foi um dos protagonistas daquela campanha em Portugal), a equipe estava amorfa, tímida, defensiva. Vencer daquela maneira, que tantos traumas causava – e ainda com cobrança defendida por Van der Sar! -, trouxe-me alguma alegria, embora Portugal houvesse superado os holandeses dias depois, na semifinal.
Daí, em 2005, por acaso, peguei algumas fichas de jogos da Holanda nas eliminatórias da Copa do Mundo. Achei engraçado como a equipe havia mudado. Não havia mais Stam, não havia mais os De Boer, não havia mais Kluivert, não havia mais Overmars, Davids e Seedorf foram defenestrados aos poucos… achei engraçados aqueles nomes, de jogadores que eu jamais ouvira falar. Kuyt? Mathijsen? Comecei a acompanhar aquela equipe.
É, provavelmente foi assim que começou. Já na Copa de 2006 acompanhei a campanha algo turbulenta da equipe de Marco van Basten integralmente. Daí, recuperei a história toda até ali: Cruyff, Van Basten, Gullit, Bergkamp… e compreendi a importância histórica daquela seleção. Como um país tão pequeno, que fora do terceiro escalão do futebol até 1974, conseguira colocar um estilo de jogo com tanta força no futebol desde então? Como eles conseguiram revelar tantos jogadores desde então? Por que tanta gente gosta da Holanda? Que país era aquele, que não se levava a sério, que tinha um campeonato de nível técnico baixo, mas onde o que importava era a diversão?
Não havia mais o que fazer. Já havia virado loucura. A ponto de eu repetir nomes de jogadores holandeses, quando me sentia muito nervoso, para me acalmar (Suurbier e Van Hanegem eram meus nomes preferidos). Ou então, começar a pesquisar loucamente sobre jogadores obscuros, da entressafra entre a Copa de 1978 e a Euro 1988, quando a seleção holandesa somente participa da Euro 1980. Porque saber de Krol, Rensenbrink, Rijkaard, Ronald Koeman, é fácil. Difícil é saber de gente como os zagueiros Ronald Spelbos e Michel van de Korput, ou os atacantes Simon Tahamata e Tscheu La Ling. Todos, jogadores que atuaram pela Holanda na década de 1980, sem Copas ou Eurocopas no currículo.
Ou saber de gente como o goleiro Pim Doesburg. Lembram do nome dele, no título? Pois é, hora da descoberta: Doesburg é simplesmente o jogador com mais partidas pelo Campeonato Holandês. Goleiro, hoje com 69 anos – completará 70 em 28 de outubro -, Willem Doesburg (o apelido “Pim” foi o que me atraiu) atuou em 687 partidas, por Sparta Rotterdam e PSV, entre 1962 e 1987. Na Laranja, jogou apenas em oito partidas, sendo o terceiro goleiro na Copa de 1978 e o titular no Mundialito de 1981. Além de ter sido treinador de arqueiros na própria seleção e no Feyenoord, é dono de uma rede de lojas de material esportivo.
Parêntese feito, sigamos. Daí, chegou 2008. Eu já fizera algumas colaborações para a Trivela, em seções que hoje não existem mais, como a “Conheça o clube” ou “Relembre o jogador”. Mas a chance surgiu no final de julho, quando Cassiano Ricardo Gobbet, fundador deste site, deixou a coluna de futebol italiano, que assinava, para Leonardo Bertozzi assumi-la. A coluna de futebol belga/holandês ficou sem dono. O próprio Bertozzi, junto de Ubiratan Leal (hoje editor deste site), pensou no meu nome, já que eu era leitor assíduo da coluna, já assistia a jogos do Campeonato Holandês desde 2006 – ah, aquela última rodada de 2006/07…
Pronto: em 22 de agosto de 2008, escrevi meu primeiro texto. Em 2009, entrei para a redação da Trivela. E reparei duas coisas. A primeira: já havia muita gente que acompanhava a fundo o futebol italiano, o futebol alemão, o futebol inglês. Futebol holandês só trazia atenção pela seleção e por um ou outro brilhareco do Ajax ou do PSV. Então, por que não pegar esse touro à unha? Isso me levou à segunda conclusão: se eu quisesse conhecer o futebol holandês mais a fundo, não poderia me contentar em traduzir notícias. Restava procurar uma escola do idioma. E achei a professora Carmen Fokker, que já ensinara o beabá a Cassiano Gobbet e Leonardo Bertozzi quando eram os titulares deste espaço. Já são quatro anos de aulas, aprendendo o dígrafo ij e o som gutural do “g”, terror dos narradores brasileiros… Dank u wel, lerares!
Aí melhorou: já viajei três vezes para o país, já comprei mais livros sobre o assunto, já leio cotidianamente as notícias… enfim, invisto nesse caso de amor. Que tem alguns períodos de crise, como colunas não feitas (desculpem, Gustavo Hofman e leitores!). Mas que continua. Que completou cinco anos nesta semana. E que seguirá. Tudo porque, agora, eu me importo, e muito, com o futebol holandês. Virou uma curtição quase solitária, mas muito divertida. Obrigado a todos que me ajudaram. E a todos que leem a coluna.
Mas vamos parar de celebração. Vida que segue. Prometo falar melhor do PSV na semana que vem. Afinal de contas, vai que o time de Eindhoven mantém os 100 por cento de aproveitamento no Campeonato Holandês e elimina o Milan na Liga dos Campeões (difícil, mas os Boeren não foram de todo mal no 1 a 1 em Eindhoven), para viver um centenário alegre no dia 31?



