O meu goleiro

Muita gente tem um ídolo. Aliás, ídolo não. Ídolo é uma coisa deprimente, no sentido de que dá a ideia de que você fica se rastejando por uma pessoa que, em regra, mal sabe que você existe. Além disso, você se esquece da sua vida e passa a viver em função da pessoa idolatrada. Convenhamos, é algo potencialmente prejudicial.
Então, vamos reformular: muita gente tem uma pessoa que admira. Que olha na TV e fala “pô, que cara legal, gostei dele”. No futebol, então, é quase impossível você não ter um jogador em especial, para quem você olha e fala “como o cara consegue fazer essas coisas?”. Quem comenta aqui no blog, em geral, tem um jogador preferido. Eu aposto.
Na Trivela, também é assim. O Felipe Lobo diz que o Raí é quem ele imitava nas peladas de infância. Pedro Venâncio diz até hoje que a dispensa de Carlos Germano foi um grande erro cometido pelo Vasco. O Gustavo, nas internas, chegava a ser chamado de “Tymoshchuk”, tal a admiração pelo meio-campista ucraniano, além de dizer que Stoichkov foi o melhor jogador que viu.
E continua. Em seu prontuário na Trivela, o Caio Maia diz ser fã de “Falcão e Beckenbauer”. A Estela até hoje afirma: se não fossem Kahn, Ballack e a seleção alemã vice-campeã mundial de 2002, ela provavelmente não seria jornalista. Bertozzi? Ele fez questão de colocar no Twitter o vídeo em que ensina a filha Laura a falar o nome do venerado Roberto Baggio. Ubiratan gosta de Neto, Carlos, Preud'homme e Elkjaer-Larsen. (Para quem não sabe, Ubiratan é Verona. A sério!)
A minha história com meu jogador preferido começa ao ler uma revista que servia de guia para a Copa de 1994. Vou à parte da Holanda, vejo os goleiros, o titular De Goey… e pego uma foto de um sujeito, meio sério. Não ligo muito, a princípio. Só que, aos poucos, sempre que eu voltava a ler aquele guia, eu sempre olhava aquela foto. E comecei a acompanhar a carreira daquele sujeito. Nada muito próximo – meu grande ídolo de infância era Taffarel, por cujas atuações até hoje tenho carinho. Só que, de 1998 pra frente, o gaúcho foi se endereçando ao final de carreira. E aí, entrava em cena o nome de Edwin van der Sar.
Lembro perfeitamente de tudo. De 1999, quando ele se transferiu para a Juventus sendo visto como um dos melhores goleiros da Europa. De eu procurando citações ao nome dele no Sportal.com, site que patrocinava a Juve na época. De eu comemorando ao tirar a figurinha dele num dos primeiros pacotes que comprei do álbum do Campeonato Italiano que a Panini lançou no Brasil, em 1999/2000. De eu triste com a dramática eliminação da Holanda na Euro 2000 – cheguei até a escrever uma carta e fazer um desenho dele, jamais enviados.
Depois, lembro de quando ele se mudou para o Fulham, meio pela porta dos fundos – afinal, a Juve gastara os tubos por Buffon. Da pontada de tristeza que eu senti, quando, no dia 1º de setembro de 2001, escutei no rádio “a Holanda perde para a Irlanda e está praticamente sem chances de classificação para a Copa de 2002”. Da alegria profunda quando assisti a Holanda x Suécia, quartas de final da Euro 2004, e ele defendendo o pênalti do Mellberg, olhando com um jeito de “faz melhor, agora, Isaksson” e levando a Oranje às semifinais. Até hoje, é a vitória holandesa que mais gosto de relembrar.
Daí, as lembranças ficam mais vivas. Lembro de ter lido uma nota no “Lance!”, em 2005, comunicando a mudança dele para o Manchester United, o que me deixou esperançoso, “oba, agora ele vai melhorar”. Da Copa de 2006, da figurinha beijada assim que saiu do pacote – e eu acompanhando com cada vez mais sofreguidão os jogos da Holanda. De um evento que a Trivela organizou, em 2006, com os colunistas e Mauro Beting, ao que perguntaram aos presentes quem eles queriam como técnico de seu time, e eu falei “qualquer um, até o Lazaroni, desde que o Van der Sar seja o goleiro”.
E a história seguiu. Da tristeza ao ver Seedorf e Kaká arrebentando na semifinal da Liga dos Campeões 2007/08, em cima dele. Depois, da apoteose, em 2008 – aquele pênalti de Anelka defendido foi o último momento em que eu gritei por causa de futebol. Fiquei, sem exagero, umas três horas me deleitando com as notícias no Google, siderado, comemorando. Depois, a Euro, a derrota para a Rússia – e o fim da história com a camisa que ele vestiu por 130 vezes. Em 2009, a ansiedade ao ver o United chegando à final da LC – só para a minha decepção, embora reconhecendo que o Barça tivesse sido melhor.
Porque é isso que me faz pensar que Van der Sar não era meu ídolo, mas um jogador que admirei muito. Sempre fiz questão de ser o primeiro a reconhecer suas falhas. Tanto é que, agora, muita gente diz que ele foi o melhor goleiro da temporada, e se esquecem do frango engolido contra o West Bromwich, no Campeonato Inglês. Ah, sim: e ele falhou no gol do Messi.
Mas continua. A ansiedade, ao saber que ele poderia jogar a Copa de 2010 – tudo bem, Stekelenburg foi digno. A torcida para que a esposa Annemarie se recuperasse do derrame cerebral (está tudo bem com ela, hoje). A viagem para a Holanda, no ano passado – em Amsterdã, eu passava em frente ao Hotel Krasnapolsky, do lado do Beurs van Berlage, e pensava “ele se casou aqui…”
A empolgação, ao ver que ele ia melhorando na temporada. A comoção, ao saber que ele ia se aposentar. Eu tendo passado umas duas semanas com os nervos em pandarecos, esperando a final da LC. A tristeza, ao ver a derrota. E, finalmente, a pontada final no coração: enquanto o Barcelona descia as escadas com a taça na mão, ele acenando para a arquibancada onde estava a torcida do United, já vazia.
Enfim, acabou uma longa história. História dele, no campo – que se confunde com a minha história de vida. Dá para dizer: se eu não ligasse para Van der Sar, talvez eu não fosse colunista de Holanda/Bélgica na Trivela. Talvez eu não estivesse cursando holandês. Talvez eu me interessasse por futebol menos do que me interesse hoje. Talvez eu entendesse menos as pessoas que se descabelam por futebol, como agora entendo. Talvez eu nem ligasse para a página dele na Wikipédia (versão em português), ao invés de ter tido o trabalho de digitar quase tudo que está lá.
E, talvez, eu não estivesse planejando comprar a biografia dele, lançada há poucos dias, pelo jornalista holandês Jaap Visser (chateei a editora uns dois anos perguntando “quando vai sair?”). Talvez eu não tivesse prometido para mim mesmo que estarei lá, em Amsterdã, no dia 3 de agosto, vendo o jogo de despedida dele. Porque eu preciso agradecer, de algum modo, por ter vivido tantas emoções.



