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Quique da bola, lesões e até câncer: Holanda veta gramados sintéticos

A partir de 2025, clubes serão obrigados a terem grama natural na Holanda depois de discussão de anos sobre o assunto

A Eredivisie anunciou no dia 5 de junho que os clubes serão obrigados a usarem grama natural em seus estádios a partir de 2025. A decisão foi tomada pelos 18 clubes que formam a liga e as razões para a escolha passam por questões de risco de lesões e até risco de câncer para os jogadores. É uma discussão antiga no futebol holandês e que teve diversos capítulos, entre idas e voltas e uma disputa acirrada.

“A partir de temporada 2025/26, todos os clubes da Eredivisie serão requeridos para jogar em grama natural ou híbrida de alta qualidade. Adicionalmente, começando já da próxima temporada, um protocolo de partida já valerá, o que incluiu requerimentos de qualidade para grama natural, híbrida e artificial”, diz o comunicado da Eredivisie.

Em 2014, o assunto era motivo de uma grande discussão no futebol holandês. Muitos clubes começaram a reclamar sobre ter que jogar em gramados sintéticos. Os clubes pequenos justificavam que era uma forma de ter gastos menores, já que o clima holandês fazia com que a manutenção do gramado natural fosse muito mais custosa.

Jogadores foram fortemente contrários aos gramados sintéticos

O gramado artificial não agradou os jogadores, que reclamaram de dois motivos: um era o quique da bola, que ficava diferente, e outro era o risco de lesão, uma percepção que os jogadores manifestaram várias vezes desde que esse tipo de gramado começou a ser adotado.

Em 2016, pesquisadores holandeses alertaram que os gramados, que são feitos de borracha reciclada, poderiam aumentar os riscos de câncer dos jogadores. O estudo com 60 gramados descobriu que esse tipo de gramado contém uma quantidade até seis vezes maior de compostos carcinogênicos permitidos em produtos para os consumidores.

Isso ficou ainda mais claro na Associação de Jogadores de Futebol Profissionais da Holanda, a VVCS (Team Vereniging Voor Contract Spelers). Anualmente, há uma eleição sobre o melhor gramado da temporada. Isso é feito pelos times visitantes, que dão notas de 1 (muito ruim) até 5 (excelente) para cada gramado que visitam. Após jogarem, o capitão do time manda para a VVCS uma nota do time para aquele gramado.

Ao final da temporada, são reunidas as notas para a eleição. Invariavelmente, os gramados sintéticos ficam em último lugar na disputa. O melhor gramado escolhido na temporada 2022/23 foi o do Feyenoord, campeão habitual nos últimos anos, desta vez junto ao rival Ajax, com nota média de 4,59 (de um total de 5), ambos com gramado natural.

 Os quatro últimos colocados foram os quatro gramados sintéticos: Voledam (1,71), Excelsior (1,41), Emmen (1,29) e Cambuur (1,18). Dois desses clubes caíram para a segunda divisão, Emmen e Cambuur. Só sobraram Voledam e Excelsior.

Como começou o uso de gramado sintético na Holanda

Na temporada 2022/24, quatro clubes jogam em estádios com grama sintética: Emmen, Excelsior e Volendam. O Cambuur, rebaixado na temporada passada, também usava gramado artificial. Na segunda divisão, o número de clubes que adotaram o gramado sintético é grande. Todos eles precisarão mudar a grama dentro de no máximo duas temporadas para receber autorização para jogar na primeira divisão da Holanda.

O primeiro clube a usar grama artificial foi o Heracles, em 2003. Rapidamente, outros clubes aderiram. Na época, foi visto como uma inovação, com custos menores de manutenção e sem riscos de jogos serem adiados por campos alagados ou congelados. Mas os jogadores não gostaram muito disso, porque perceberam riscos maiores de lesão e pela forma diferente como a bola se comporta nesse tipo de gramado.

Como o argumento partia de uma necessidade financeira, a solução que passou a ser pensada era de um coletivo de clubes se unirem para cuidarem dos gramados coletivamente. Os maiores clubes do país, Ajax, Feyenoord e PSV, também se uniriam para contribuir com um fundo para ajudar os clubes menores a terem capacidade de manutenção de um gramado de qualidade. Tudo pela qualidade do jogo. Foi então que surgiu uma ideia que acabou vingando: o incentivo financeiro para a mudança de volta aos gramados naturais.

Incentivo financeiro para grama natural voltar

A discussão sobre o uso de grama sintética, portanto, tem muitos anos na Holanda e amadureceu, com diversas partes sendo ouvidas: jogadores, técnicos, clubes e federação. Assim, o processo será gradual e já tem sido uma contrapartida para algo muito importante: um incentivo financeiro.

Para ajudar a equilibrar financeiramente, os clubes que participam de competições europeias devem dividir parte do dinheiro recebido com os outros clubes da liga. Para ter direito a esse dinheiro, os clubes devem aceitar algumas medidas e, entre elas, o uso do gramado natural ou, no máximo, híbrido.

O Heracles Almelo, pioneiro do uso de grama sintética, já anunciou que o seu gramado será revertido para voltar a ser natural em 2024. Os clubes terão até um ano depois disso para adotarem os gramados naturais ou híbridos de volta – e com um padrão de qualidade medido em cada um deles.

O anúncio tratou desse incentivo financeiro. De 2025 a 2030, os clubes que jogarem na Europa irão ceder 3,75% das suas receitas de competições europeias por temporada. Em combinação com a distribuição do dinheiro de TV relativos aos clubes holandeses, a medida tem o objetivo de fortalecer o balando competitivo na Eredivisie. Parte do dinheiro também será destinado à segunda divisão do país.

Na Holanda, a decisão tomada foi de impedir os gramados totalmente artificiais. Haverá esse processo de transição de dois anos, mas os clubes terão que ter um gramado ao menos híbrido já no início da temporada 2025/26.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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