O sonho de grandeza do Twente está terminando
Que um time tenha uma má temporada de vez em quando, tudo bem, bastante normal. Que um time médio seja o prejudicado da vez, ainda mais comum. É o que acontece com o Twente no Campeonato Holandês desta temporada: a equipe patina na 9ª colocação, e já não vence há cinco rodadas. Na 25ª, a mais recente, os Tukkers não passaram de um empate em 1 a 1 com o vice-lanterna NAC Breda, e estacionaram na oitava posição, com 35 pontos.
LEIA TAMBÉM:Rinus Michels morreu há 10 anos: 10 frases para lembrarmos sua genialidade
Aí as coisas deixaram de ser normais, na temporada opaca do clube de Enschede. Porque, na última quarta, a equipe teve três pontos retirados pela comissão de licenças da federação holandesa. Tudo porque fracassou ao tentar concretizar um plano de reestruturação financeira, ficando abaixo da meta traçada para a renda conseguida e seguindo com as dívidas batendo na porta. Resultado: perdeu a oitava posição para o Cambuur. E agora, com 32 pontos, o Twente pode ser ultrapassado por Willem II (o qual enfrentará, nesta sexta, na abertura da 26ª rodada da Eredivisie) e Groningen.
Ou seja: de campeão nacional na temporada 2009/10, de time que frequentava constantemente Liga Europa (quando não disputava lugar na fase de grupos da Liga dos Campeões – sem contar 2010/11, em que teve vaga garantida nas chaves, como campeão), o Twente vai vendo a ruína gradual de seu sonho de grandeza constante, de ser o médio mais próximo dos três grandes do futebol holandês. E a perda de pontos desta semana deve ser apenas o começo de um tempo de vacas magérrimas.
Em reportagem da revista “Voetbal International”, o valor atual da dívida do clube foi estimado em 60 milhões de euros. Obviamente, medidas duras já estão sendo tomadas. O clube desistiu de manter o time de aspirantes jogando a segunda divisão, e a equipe feminina, campeã da Beneliga (o campeonato conjunto de Bélgica e Holanda para mulheres), também corre risco de ser desativada.
Tudo isso, sem contar a redução drástica no orçamento para manutenção do elenco: o diretor financeiro, Gerald van der Belt, anunciou corte de 6 milhões de euros em salários para a próxima temporada. Quem não quiser ter seu ordenado diminuído, muito provavelmente deixará o Twente na próxima janela de transferências. É o jeito. Além do mais, grande parte da dívida que está afligindo a equipe começou exatamente com a má administração do dinheiro para o futebol.
Não que o Twente já tenha nadado em dinheiro. Aliás, quase faliu uma vez, em 2003, sendo salvo pelo empresário Joop Munsterman, que comprou o clube. Desde então, o projeto de saneamento foi sendo perfeitamente concretizado. O time modernizou-se, ampliou a capacidade do antigo Arke Stadion (que virou o Grolsch Veste, em 2008), controlou-se nos gastos com jogadores, foi inteligente na formação do elenco, trouxe gente que se revelou razoável dentro de campo: Bryan Ruiz, (N’)Kufo, Stoch, Theo Janssen…
Aos poucos, os resultados esportivos apareceram. A temporada 2008/09 indicou novos tempos. O clube foi aos playoffs por vaga na Liga dos Campeões (em 2007/08, ganhara a vaga do Ajax, em plena Amsterdam Arena – lembremos que tais vagas também eram disputadas em mata-mata, ao fim da temporada regular), chegou à final da Copa da Holanda e foi vice-campeão na Eredivisie. Finalmente, em 2009/10, veio a apoteose, com a primeira Eredivisieschaal. Na temporada seguinte, outro título na Copa da Holanda, mais o vice-campeonato holandês e as quartas de final da Liga Europa – ótimos resultados, para os padrões do país.
Aí, por sinal, as coisas começaram a decair. O site Catenaccio.nl fez ótima matéria com os balanços do Twente, nas últimas temporadas. E ali mostrou dois erros que detonam qualquer orçamento. O primeiro esteve nos gastos exagerados na compra de jogadores, sem recuperação numa venda posterior. Por exemplo: em 2011, o clube gastou 3,5 mi de euros no sueco Bajrami; 7 mi no atacante austríaco Marc Janko; 2 mi no lateral direito venezuelano Rosales… e só teve lucro ao vender Chadli ao Tottenham, por 8,15 mi, após compra por 300 mil euros. De resto, o dinheiro gasto não foi reposto. Janko, por exemplo, foi cedido ao Porto por 3 mi. Ou seja, prejuízo de 4 milhões com o austríaco.
O segundo erro que colocou o Twente na pindaíba foram os altos salários oferecidos, sem paralelo na realidade do futebol holandês. Em 2009/10, o clube gastou cerca de 20 milhões de euros com pagamentos aos atletas do elenco. Em 2011/12, o gasto foi de cerca de 30 milhões. O que representava… mais de 60 por cento do orçamento do clube. Para que se tenha uma ideia do exagero, em 2011/12, o Ajax bancava os salários dos jogadores com 43,2% do dinheiro. O Feyenoord, 44,5%.
E outros fatores mais ligados ao que se via em campo foram vitimando o Twente. O clube começou a procurar talentos nas categorias de base, buscando minorar os gastos, mas somente Ola John e Quincy Promes corresponderam à aposta e renderam algum dinheiro. Outros jogadores da base dos Tukkers foram experimentados, mas não saíram a contento (o goleiro Marsman, por exemplo, foi para a reserva nesta temporada, em função de sua insegurança). E outros, ainda, simplesmente não receberam muitas oportunidades.
Novatos comprados em mercados alternativos fracassaram, como os atacantes Bernard Parker e Nikita Rukavytsya. E outros clubes, como o Vitesse, interceptaram o caminho anterior de jovens vindos de grandes do continente, que era um empréstimo ao Twente. Basta lembrar que Slobodan Rajkovic, Miroslav Stoch e Dedryck Boyata, todos vindos de ricaços ingleses, passaram pelo Grolsch Veste para ganharem experiência.
Por todos esses erros cometidos pela ilusão de tornar-se grande, o Twente vê o risco da decadência avolumar-se, agora. Basta dizer que o clube estaria falido, hoje, se todos os credores exigissem o pagamento das dívidas para amanhã. Claro, não é o caso. Dá para renegociar uma dívida aqui e rolar um débito ali. Mas o cenário é este: ou o Twente consegue êxito nas competições em que está (é semifinalista da Copa da Holanda e pode alcançar os playoffs por vaga na Liga Europa, ainda) e vende alguns jogadores na próxima janela, ou o perigo da falência aumentará ainda mais.



