O começo de temporada do Ajax é alarmante

Mesmo sem a vitória contra o Rostov-RUS, no jogo de ida dos play-offs da Liga dos Campeões, no dia 16 passado, o Ajax deixara o campo da Amsterdam Arena com uma sensação de que havia certa evolução. O placar tinha terminado em 1 a 1 ao fim dos 90 minutos, mas a equipe de Amsterdã estivera melhor em campo. Não só pela posse de bola (72 por cento!), mas por ser mais acelerada com ela: Amin Younes jogara bem pela esquerda, o atacante Bertrand Traoré tivera uma estreia elogiável, Davy Klaassen liderou o time como todos esperam que ele faça. E o próprio Klaassen foi otimista após o jogo: “Acho que atuamos muito bem. Tivemos muitas chances no primeiro tempo, mas aí depende da sorte. A bola precisa entrar. Eles não tiveram nenhuma chance”.
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Dez dias depois, o cenário é completamente diferente. A tal evolução era apenas ilusória. Claro, desnecessário aprofundar descrições do que aconteceu no jogo de volta contra o Rostov, quarta passada: a derrota por 4 a 1 na Rússia foi mais um vexame para a lista de decepções continentais que os Ajacieden vivem nas últimas dez temporadas – seja por Liga dos Campeões, seja por Liga Europa.
O pior é que a terceira rodada do Campeonato Holandês já possibilitava preconizar algo ruim: jogando em casa, o Ajax saiu na frente do Willem II marcando gol aos 25 segundos de partida (Klaassen fez o gol mais rápido da história da Amsterdam Arena)… e de nada adiantou, porque o Willem II virou para 2 a 1 ainda no primeiro tempo. E venceu. Para que se tenha ideia do vexame: foi o primeiro triunfo da equipe de Tilburg fora de casa contra o Ajax em sua história na Eredivisie.
Contra o Rostov, repetiu-se o cenário já previsto na partida do sábado passado: montado taticamente num 4-3-3, o Ajax apostava na posse de bola e na velocidade das jogadas pelos lados. Só não contava com a partida quase perfeita da equipe russa. Não que fosse novidade o 5-3-2 da equipe, com a defesa muito bem postada, sem dar espaço para avanços de Anwar El Ghazi e Amin Younes – o que deixou Bertrand Traoré inativo na área. O que impressionou foi a eficiência do Rostov na frente: com a ajuda dos laterais (principalmente Timofei Kalachev), mais as ótimas partidas de Christian Noboa (armando as jogadas) e Sardar Azmoun (a referência no ataque), a linha de quatro defensores do Ajax sofreu com as bolas aéreas: delas saíram três dos quatro gols. Por sinal, em sete jogos nesta temporada, a equipe sofreu seis gols de bola parada.
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O que leva a pensar que de nada adianta o técnico Peter Bosz falar que o Ajax “jogou com medo”, como lamentou à tevê holandesa após a goleada sofrida, se não há comentários sobre a principal causa do mau começo do clube da estação Bijlmer Arena na temporada 2016/17: tática. Não é que Bosz seja um mau técnico. Ao contrário: foi trazido exatamente por saber fazer um time ofensivo e acelerado, coisa em que Frank de Boer falhava às vezes. Os problemas são a mudança tática por que o Ajax passa com Bosz – e o azar de já ter partidas importantes no começo da temporada. Não houve tempo para ele pensar em variações para o 4-3-3 (a principal crítica a Frank): a equipe tinha de mostrar serviço rapidamente. Não mostrou.
E não mostrou porque, além de Peter Bosz ainda tatear à procura do melhor esquema para contemplar o grupo de jogadores (além do 4-3-3, já experimentou o 5-3-2 e o 4-1-4-1), as atuações individuais do Ajax não são boas. Ponto. Entra técnico, sai técnico, e os jogadores padecem do mesmo mal: basta garantir uma vantagem no placar para começarem a apelar aos passes laterais, a fim de manter a posse de bola. Assim a equipe se comportou no empate por 2 a 2 contra o Roda JC (segunda rodada do Holandês), e tentou repetir na partida contra o Willem II.
Não deu certo, porque a defesa sofre de uma desatenção crônica e repetida, exibindo dois defeitos claros: lentidão na recomposição (duas jogadas pelas laterais, em contra-ataques) e mau posicionamento. Há duas rodadas, contra o Roda JC, aos 46 do 2º tempo, Adil Auassar passou por trás de toda a zaga para “, empatando o jogo; contra o Willem II, nos dois gols – “ e “ – os autores entraram livres pelo meio da área para chutarem; e houve a supracitada fragilidade nas bolas aéreas contra o Rostov.
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Poderia ser pensada, então, uma alternativa para a zaga a ser buscada, nestes últimos dias da janela de transferências. Não é o que acontece, e dificilmente será. Nem mesmo os bem vindos 34 milhões de euros que o Ajax ganhou do Napoli na compra de Arkadiusz Milik motivaram o diretor de futebol Marc Overmars a sair ao mercado. Muito menos os 15 milhões de euros que o Barcelona pagou na compra de Jasper Cillessen para o gol. Até agora, os reforços seguem tímidos: dois jovens colombianos (Davinson Sánchez e Mateo Cassierra), um alemão experiente para a zaga (Heiko Westermann), os empréstimos de Bertrand Traoré e Tim Krul, e pronto. É razão para muitas reclamações da torcida.
Mesmo que o Campeonato Holandês não seja a mais atraente das competições (longe disso…) para jogadores de altíssimo nível, é possível pensar com mais ambição, é possível trazer gente que torne o Ajax um time razoável como o PSV é, atualmente. Não adianta: Overmars – junto dos dois diretores gerais do clube, Edwin van der Sar e Dolf Collee – seguem priorizando a base acima de tudo. Não dá muito certo, até porque nenhuma das revelações causa furor. Mesmo que o time B do Ajax esteja liderando a segunda divisão holandesa após quatro rodadas, jovens como o atacante tcheco Vaclav Cerny ou o meio-campista Donny van de Beek não merecem muita atenção. Até por já terem atuado no time de cima, sabe-se que não são o que a equipe precisa.
Indefinição tática, más atuações dos jogadores, visão antiquada da diretoria: está feito o coquetel que já tinha feito soar o alarme na preparação, quando o Ajax só ganhou um amistoso. E que deixa o sinal vermelho intensamente aceso neste começo de temporada. Claro, é só o começo, e o Ajax pode se recuperar. Pode até ganhar o título holandês. Mas a torcida terá de ter paciência. Muita paciência. E um pouco de inveja em relação ao PSV, na fase de grupos da Liga dos Campeões e com três vitórias nos seus três jogos pelo Holandês, já cinco pontos à frente na tabela…




