Holanda

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. É a Oranje

Uma das distorções que vai sendo corrigida, pouco a pouco, no modo com que muitos veem futebol é achar que um time sempre será superior a outro porque tem mais posse de bola. Isso ajuda, claro. Mas de absolutamente nada adiantará sem que se saiba o que fazer com ela nos pés. Um dos grandes exemplos disso foi dado nesta rodada de jogos entre seleções, com as partidas da Holanda.

Estas, por sua vez, mostraram à Oranje uma conclusão. O 1 a 1 contra a Turquia, pelas eliminatórias da Euro, há quase uma semana, deixou claro que ainda há muito, muito a melhorar. Só que a vitória por 2 a 0 contra a Espanha, no amistoso da última terça, deixou claro que a situação ainda não é aflitiva, como torcida e imprensa temeram após o jogo contra os turcos.

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Mas é bom voltar ao tema do primeiro parágrafo da coluna. Contra a Turquia, a Oranje esbanjou posse de bola. Segundo a UEFA, foram 66 por cento, durante os 90 minutos. O índice chegou a passar de 76, ao final do primeiro tempo. De nada adiantou, porque o time de Guus Hiddink exibiu o mesmíssimo defeito visto contra Islândia e República Tcheca (eliminatórias da Euro), e Itália e México (amistosos): um time repetitivo no ataque e lento na defesa.

Repetitivo porque, do meio-campo para frente, os jogadores escalados no 4-3-3 aceitavam passivamente a compactada marcação turca, com as linhas de quatro bastante próximas. A única alternativa experimentada era conhecida: troca rápida de passes entre Blind e Depay, com o jogador do PSV arriscando o chute ou cruzando para a área em busca de Huntelaar, apático no jogo. Nem mesmo Sneijder, com a grande responsabilidade de armar as jogadas, conseguia criar algo.

Ao mesmo tempo, os turcos paulatinamente foram percebendo que permitir à Holanda chegar com mais toque de bola (e, claro, dar de cara com a defesa, muito bem treinada) significava abrir caminho para um contra-ataque perigoso. Demorou um pouco, mas na metade do primeiro tempo eles começaram a aproveitar os espaços deixados por Van der Wiel e Blind. A rapidez de Gökhan Tore, na esquerda, e Ozan Tufan, do lado oposto, também fez a bola chegar na área. E a extrema lentidão dos holandeses na recomposição defensiva permitia cada vez mais chances, até Burak Yilmaz abrir o placar.

Obviamente, a Holanda tinha condições de reverter o resultado que a tiraria da zona de classificação (até mesmo para a repescagem). Desde que fosse menos morosa no segundo tempo. Mas não só continuou no ramerrame arrastado e chato de tocar a bola, como desistiu cedo demais do jogo: já aos 18 minutos da etapa final, Hiddink trocou Nigel de Jong por Bas Dost. Com dois homens predominantemente finalizadores na área (e já sem Wijnaldum, sacado no intervalo), o esquema holandês ficou num 4-2-4 amorfo e nunca treinado sob Hiddink. Foram cruzamentos e mais cruzamentos, chutes e mais chutes, até Sneijder conseguir empatar nos acréscimos.

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Mas o ponto suado, que impediu a primeira derrota da Oranje na Amsterdam Arena em jogos oficiais durante os 90 minutos, não deixava dúvidas: ou os jogadores passavam a exibir mais velocidade em campo, ou seguir no 4-3-3 continuaria um erro crasso, expondo uma defesa sabidamente frágil. Isso, sem contar a falta que Van Persie fez – e a dependência crônica de Robben. E sem que haja novatos prontos para assumirem responsabilidades maiores.

Mas curiosamente, quando se esperavam as alfinetadas internas normalmente vistas em caso de crise na seleção holandesa, o que houve foi um espírito de união entre o time. Sneijder foi definitivo, ao sair de campo: “Precisamos melhorar em campo. Se não fomos bem, a culpa é nossa”. Huntelaar não deixou por menos: “Muito precisa melhorar, se quisermos subir na tabela”. E Wijnaldum definiu quem era o menos culpado: “Estamos do lado do treinador, de qualquer maneira”. Hiddink, por sua vez, foi até cínico: “Foi um resultado à la italiana, esse ponto pode ser muito importante”.

Mas não adiantou para escapar das críticas. Acima de todas, claro, a de Johan Cruyff, que não poupou críticas, em sua coluna no jornal “De Telegraaf”: “Algo precisa mudar muito rapidamente, porque esse futebol é de doer nos olhos”. Foi o que Hiddink fez, trazendo quatro novos jogadores para o time titular do esperado amistoso contra a Espanha.

Temia-se (até se esperava, aliás) uma vitória dos espanhóis. Mas o que se viu foi exatamente o que se pedia: uma equipe mais rápida, que parecia ter sangue e não mercúrio líquido nas veias. Colocado no lugar de Afellay – que foi muito mal contra a Turquia, mas ficou queimado numa posição que não é a dele -, Luciano Narsingh trouxe rapidez à direita, e Depay fez o mesmo pela esquerda. Ambos avançavam e voltavam, o que diminuiu os buracos nas laterais. Ainda mais na direita, com a entrada de Janmaat, bem mais confiável defensivamente do que Van der Wiel.

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No meio-campo, se Sneijder ainda vive de lampejos (e cada vez mais deverá ser assim), Davy Klaassen foi ótima surpresa, agilizando a troca de passes e aparecendo na frente para concluir, como se viu no segundo gol. Fazendo 2 a 0 em três minutos, esperou-se uma goleada como a vista na Copa do Mundo, mas nem era necessário. Uma vitória já bastava para reanimar a Oranje. Com isso, a equipe relaxou, e até permitiu ataques demais da Espanha – principalmente na esquerda, onde Willems segue problemático na marcação. Mas aí entrou Vermeer: experimentado no gol, ele mostrou porque vive a melhor fase da carreira, ágil e seguro em suas intervenções. E mesmo tendo menor posse de bola (45 por cento), a Holanda foi mais eficiente e mereceu o triunfo.

Vencendo uma seleção do mesmo tamanho, a Oranje ganhou mais confiança. E que nem tudo está perdido nas eliminatórias: a próxima rodada traz o jogo contra a Letônia, já goleada pelos laranjas, enquanto Islândia e República Tcheca se enfrentam, o que pode diminuir a desvantagem na classificação. Sem contar que islandeses e tchecos ainda irão a Amsterdã. Todavia, também ficou a lição: de nada adianta ter uma tabela sossegada, nem escalar o time no 4-3-3, se não houver mais esforço e menos morosidade em campo. A ver se a lição foi aprendida.

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