Holandeses se interessam pelo Brasil, mas temem problemas
Romário e Ronaldo. Dois nomes que são comumente lembrados quando se fala de Brasil, dentro da Holanda. Mas há mais fatores lembrados no Reino dos Países Baixos, quando se fala de coisas brasileiras. Na verdade, fatores que compõem um estereótipo bem conhecido: que o Brasil é uma terra de muito sol, que há mulheres bonitas, praias, samba, futebol… enfim, o velho conjunto de características – que, diga-se de passagem, irrita muito qualquer brasileiro que tenha um nível de instrução mais aceitável e saiba que o país não é só isso.
Mas é interessante notar que, ao mesmo tempo em que a Holanda preenche as expectativas sobre o que se pensa do Brasil lá fora, há um interesse genuíno sobre coisas que escapam a esses estereótipos reducionistas. Basta dizer que a literatura brasileira – e portuguesa também – tornou-se conhecida na Holanda, graças a August Willemsen (1936-2007), escritor que viveu por alguns anos no Brasil, e traduziu obras de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade para o holandês. Não bastasse isso, fez uma obra dedicada especialmente ao futebol brasileiro.
Em 1994, Willemsen escreveu “De Goddelijke Kanaries” (“Os canários divinos”, apelido pelo qual a Seleção é conhecida entre os holandeses). Até 2006, reeditou a obra a cada quatro anos. Claro, é um livro mais didático, nada tão reflexivo da integração do futebol com o Brasil, coisa tentada por Alex Bellos em “Futebol – o Brasil em campo”. Mas a imersão de Willemsen no imaginário sobre o futebol brasileiro resultou num livro simpático. Há erros, como dizer que Mauro Silva jogou a Copa de 1990 (claramente, confusão com Mauro Galvão), mas nada de doer na vista.
E é exatamente por essa curiosidade que os holandeses sabem da situação bastante turbulenta que o Brasil vive. Duas mostras disso vieram no trabalho de um mesmo jornalista, Johan Derksen. Ex-jogador de pequenas equipes holandesas nos anos 1970, conhecido pelo tom simultaneamente elegante e irreverente (ao mesmo tempo em que só anda de terno e sapatos, também fuma abertamente charutos, tem um bigode grosso e desgrenhado e é provocador), Derksen foi diretor da redação da revista “Voetbal International” de 2000 até este 2013, e ainda tem uma coluna na publicação.
Pois bem: na sua coluna dentro da edição de 10 de julho, Derksen intitulou seu texto “A Copa de 2014 não será uma festa”. O assunto? Simplesmente alertar para a insurgência brasileira contra os excessivos gastos com o Mundial, expressa principal e abertamente nos protestos de junho. Alguns trechos mostram claramente como sabe-se que o Brasil está numa situação de insatisfação e espera, em que imagina-se o que poderá acontecer em junho/julho do próximo ano: “A população tem a forte impressão de que sediar o maior torneio de futebol do mundo é algo que se dá às custas dos moradores descontentes”.
O tom crítico fica mais sério no decorrer das palavras de Derksen: “A cerimônia de abertura da Copa das Confederações foi, inesperadamente, um protesto contra os políticos e os dirigentes da Fifa, que foram apontados pelo povo como os responsáveis pela gastança de dinheiro em 2014. Nos últimos anos, o Brasil viveu grandes avanços nos campos econômico e social. Por meio de programas de assistência social, as gestões de Lula e [Dilma] Rousseff colocaram milhões de compatriotas acima da linha de pobreza, o que criou uma classe média exigente e próspera. Por trás desse sucesso, havia uma série de problemas que agora ficaram visíveis para todo o mundo, graças aos protestos. A desigualdade social nunca foi tão grande no Brasil. A diferença em distribuição de renda e padrões de vida ainda é gritante”. E por aí segue a coluna.
Não bastasse isso, Derksen iniciou há pouco tempo um programa de entrevistas com personalidades do futebol holandês, no canal de tevê RTL. Com o jeito ousado do periodista e o clima despojado, as entrevistas têm sido elogiadas na Holanda. E Derksen viajou ao Rio de Janeiro, para conversar com Clarence Seedorf. Claro, aproveitou a oportunidade para lembrar as críticas de Romário, como deputado federal, à organização da Copa. E Seedorf endossou, acrescentando: “E não é só ele. Em junho, as pessoas saíam à rua exatamente para pedir mais dinheiro para educação e saúde”. De quebra, o meio-campista ainda lamentou o alto preço dos ingressos – logo, lamentando a baixa afluência de público. E isso porque o Bom Senso FC ainda não entrara de vez na pauta do futebol brasileiro…
Mas a discussão sobre as condições do Brasil não se restringe a jogadores e jornalistas. A própria torcida holandesa vê com altas reservas a possibilidade de lotar o país de laranja, como geralmente faz em outros torneios. Em entrevista ao diário “Algemeen Dagblad”, Theo Pouw, presidente da associação oficial de torcedores da seleção holandesa, alertou para a possibilidade de poucos holandeses viajarem ao Brasil para ver a Copa, até pela crise interna do euro: “O grande problema para viajar é o dinheiro. Há ingressos suficientes, sempre aparecem hotéis e passagens aqui e ali, mas para um torcedor, viajar para o Brasil é um absurdo de caro. Estamos em crise há uns três anos, né?”. Pouw seguiu pessimista: “No caso de uma campanha com sete jogos, haveria seis viagens, o que totalizaria cerca de dez mil quilômetros. É muito longe, não dá para pagar”.
Enfim, por mais que a visão paradisíaca do Brasil siga vigente na Holanda, os acontecimentos recentes mostram que os interessados em futebol sabem que a situação brasileira está longe de ser tranquila. Para os jogadores, restará olhar para a visão da praia carioca, das janelas dos quartos do Caesar Park carioca, hotel que deverá ser o quartel-general holandês durante a Copa, para esquecer disso.
Ajustes finais
Para a Holanda, na prática, os amistosos contra Japão e Colômbia servirão de muito pouco. As únicas mudanças na base da equipe foram causadas pelas ausências de Van Persie, lesionado, e Sneijder, poupado. De resto, dá para considerar que boa parte do time que vai a campo neste sábado, contra os nipônicos, em Genk, na Bélgica, deverá estrear na Copa do Mundo como titular, salvo acidentes de última hora até lá. Basta ver a escalação: Cillessen; Janmaat, De Vrij, Martins Indi e Blind; Nigel de Jong, Van der Vaart e Strootman; Robben, Siem de Jong e Lens.
Mas se os dois jogos deverão servir apenas para ajustes finais de Louis van Gaal, alguns jogadores têm chances valiosas para entrarem nesses ajustes. Como Luciano Narsingh, recuperado de séria lesão no joelho que perturbou o seu ano, de volta ao PSV e à seleção, tendo de correr para recuperar o tempo perdido. Ou Maarten Stekelenburg, que já ganhou algum ritmo de jogo no Fulham e voltou à disputa pela vaga no gol, embora tenha menos cartaz do que Cillessen, o titular temporário, e Krul, que vem das ótimas performances pelo Newcastle (culminando com a incrível atuação contra o Tottenham).
E também fica a chance para alguns novatos. Como o zagueiro Joël Veltman, grande novidade da convocação de Van Gaal. Com apenas 12 jogos como profissional no Ajax, Veltman foi considerado o grande destaque da vitória contra o Celtic, pela Liga dos Campeões, tendo uma atuação típica de um “xerife”, dominando tudo, por cima ou por baixo. Caso tenha alguma chance em um dos amistosos, Veltman pode colocar dúvidas na cabeça de Van Gaal. Assim como Davy Pröpper, do Vitesse, chamado para o meio-campo. Assim como todos os recuperados, únicos a terem algo com que se importar nos últimos compromissos da Holanda em 2013.



