Holanda

A Holanda vem mudando o estilo de sua seleção. Não sem discussões

Em 2010, a surpresa (e a queixa) foram grandes em relação ao estilo de jogo da seleção holandesa. Nunca a Oranje parecera tão pragmática, disposta a chegar ao resultado em detrimento do estilo ofensivo já visto em outros torneios. Quase deu certo, já que a equipe alcançou a final da Copa do Mundo. Só que a violência vista contra a Espanha manchou a reputação holandesa – a ponto da revista “Hard Gras”, com textos quase ensaísticos sobre futebol, lamentar: “40 anos de reputação foram destruídos em duas horas”.

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Logo, não havia por que se espantar com o esquema bastante cauteloso da equipe holandesa na Copa de 2014. Até porque ele foi escolhido de modo circunstancial: sem Strootman, melhor volante holandês na atualidade, com capacidade de desarmar e iniciar as jogadas com bastante técnica, a Oranje teria de proteger mais o meio-campo, sob pena de tudo estourar na defesa mediana. Como se sabe, deu certo, e o terceiro lugar foi bastante elogiado. Por isso, a apresentação de Guus Hiddink como técnico da Oranje, há duas semanas, foi relativamente tranquila.

Mas mesmo reconhecido como um grande e experiente técnico, Hiddink arrisca pouco, ao contrário de outros técnicos holandeses de fama. E suas palavras na entrevista coletiva, ao lado dos auxiliares Danny Blind e Ruud van Nistelrooy, mostraram isso: “A Holanda ficou conhecida por sua escola, de futebol atrativo e bonito. Mas há muito mais, principalmente a vontade e o instinto de sobrevivência. E a Oranje mostrou isso fabulosamente no Brasil”.

Os elogios ao estilo visto no Brasil continuaram: “Já antes da Copa, eu dizia que o futebol é mais do que jogar bonito. Fico feliz por ter feito isso. Nas minhas experiências pelo exterior, eu vi que outras culturas mostram mais um reflexo de sobrevivência. E a Holanda trouxe esse reflexo a uma grande altura. Isso pode ser muito bom. No exterior, as pessoas perguntavam muito: ‘Quais são os resultados de vocês?’. A escola holandesa é muito boa, mas só quando se vence”.

Ouvir essas palavras e lembrar das entrevistas coletivas de Louis van Gaal durante a Copa é inevitável. O contato com a imprensa era educado, mas bastante tenso: afinal, Louis insistia em mostrar como a seleção holandesa avançava na Copa com o 5-3-2, enquanto os jornalistas pediam um estilo mais ofensivo. A torcida se empolgava mais com a campanha, mas também gostaria de vencer lembrando outros times que a Oranje tivera, altamente técnicos.

E a possibilidade de vencer com um estilo avaro, “retranqueiro”, causa urticárias em muita gente na Holanda. Só que tal processo não começou apenas com a lesão de Strootman e a escolha de Van Gaal pelo 5-3-2. Começou, a bem da verdade, já na Copa de 2006, ainda que de um modo desorganizado: Marco van Basten foi extremamente criticado pelo estilo defensivo e pouco inventivo da Oranje naquele torneio. Mas para todos os efeitos, o esquema tático ainda era o 4-3-3 velho de guerra, com Robben e Van Persie jogando pelas pontas, mais adiantados. Só que o 4-3-3 estava cada vez mais manjado pelos rivais.

Era necessária uma mudança. Ela veio em 2007, durante as eliminatórias para a Eurocopa. Três jogadores de indubitável experiência (Van der Sar, então capitão da seleção; Van Nistelrooy e Seedorf, estes reconciliados com o técnico – Seedorf, apenas por um tempo) sugeriram a Van Basten a mudança de esquema tático para o 4-2-3-1, a fim de fortalecer o meio-campo e aproveitar a rapidez de alguns jogadores.

A campanha holandesa nas eliminatórias para a Euro 2008 fora deficiente. E o horizonte era pessimista, tendo um grupo com a campeã e a vice-campeã do mundo à época (Itália e França). Além disso, brigado com Van Basten desde a Copa de 2006, Van Bommel retirara-se temporariamente da Oranje. Só que um 4-2-3-1 ainda desconjuntado, com um lateral direito improvisado (Boulahrouz) e duas apostas na dupla de volantes (De Jong e Engelaar), deu muito certo: Sneijder virou protagonista, Robben e Van Persie funcionaram à perfeição enquanto estiveram em forma, o contra-ataque holandês humilhou italianos e franceses…

O cansaço dos jogadores, em fim de temporada, contra uma Rússia na ponta dos cascos, acabou eliminando a Holanda daquela Eurocopa. Mas o caminho estava aberto. A campanha nas eliminatórias da Copa de 2010 foi perfeita, bem como o trajeto na África do Sul. Só que Bert van Marwijk precisou lançar mão de quatro jogadores que exageravam. De Jong e Van Bommel, sem mobilidade, apostavam nas faltas para evitar que a coisa estourasse na defesa. Se não houvesse jeito, Heitinga e Mathijsen também não economizavam para impedir as jogadas dos adversários.

Com um time envelhecido na Euro 2012, e ainda vitimado por quebras de confiança e problemas de relacionamento, a eliminação na primeira fase foi uma consequência previsível. Mas Van Gaal conservou o 4-2-3-1, e passou pelas eliminatórias para a Copa sem problemas. Veio o amistoso contra a França, em março. Uma atuação desastrosa, com derrota por 2 a 0. A lesão de Strootman. E o resto é história.

Em todos esses sete anos, torcida e imprensa holandesas lamentaram muitas vezes a violência, o pragmatismo, a falta de brilhantismo dos jogadores, a cautela. Mas é inegável que, aos poucos, a mentalidade do estilo de jogo da seleção holandesa está mudando. E talvez continue assim sob Guus Hiddink. Não no 5-3-2, mas seguramente no 4-2-3-1 – e com um time semelhante ao da Copa, pelo menos no começo do trabalho de Hiddink: “Não haverá grandes mudanças nas coisas básicas”.

Além do mais, essa mudança duradoura já parece mais consolidada. E ela não implica necessariamente num futebol apagado e cauteloso. Aliás, é o que norteou a escolha de Hiddink, segundo Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação: “A orientação que apresentamos a Hiddink é a mesma que demos a Van Gaal: queremos um futebol atraente, ofensivo e que tome a iniciativa”. Se assim será, a resposta começa a vir a partir do 4 de setembro, com o amistoso contra a Itália, em Bari.

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