Holanda na Copa: a impressão de quem viu a Oranje
Pois bem. A coluna fez a sua primeira análise da seleção da Holanda na Copa do Mundo. E como prometido, trará aqui as opiniões de três jornalistas brasileiros que acompanharam a Oranje de perto durante os sete jogos dela na Copa. André Kfouri, repórter dos canais ESPN e colunista/blogueiro do diário Lance!, começou como “setorista” da seleção espanhola – vendo, logo, o 5 a 1 na Fonte Nova, já entronizado no anedotário do futebol holandês como “De wraak van Salvador” (em holandês, “A vingança de Salvador”). Eliminada a campeã mundial em 2010, André seguiu cobrindo a Holanda até a decisão do terceiro lugar.
Também foram ouvidos os comentaristas Lédio Carmona e Maurício Noriega, ambos do SporTV. Somando os jogos em que trabalharam, somente a partida contra a Austrália não teve nenhum deles no estádio. Lédio também esteve na Fonte Nova vendo a estreia holandesa, e acompanhou o 2 a 0 sobre o Chile, na Arena Corinthians. Dali por diante, “Nori” foi quem seguiu a Laranja, comentando desde a partida contra o México, pelas oitavas de final, até a vitória por 3 a 0 sobre o Brasil, em Brasília.
A coluna decidiu fazer duas perguntas iguais para todos eles. Daí por diante, as perguntas foram particularizadas a cada um deles. Vamos lá.
A Holanda era considerada pela imprensa do próprio país como uma equipe que não iria muito longe na Copa. Talvez, fosse eliminada até na primeira fase. Vocês se surpreenderam com a seleção holandesa nesta Copa?
André Kfouri: Sim. Dá para dizer que os holandeses impressionaram logo no primeiro jogo, né? 5 x 1 na então campeã mundial… Copa do Mundo é o que os ingleses chamam de “knockout football” [nota da coluna: em português, algo como “futebol de mata-mata”]. É preciso sobreviver para continuar jogando. E Louis van Gaal teve enorme mérito ao montar um grupo que lhe permitiu se adaptar aos diferentes adversários e aos diferentes momentos de cada jogo.
Maurício Noriega: Não. Vi alguns amistosos da Holanda antes da Copa. Procurei avaliar sem preocupação com os resultados. Dava para perceber que o time viria forte e que o Robben estaria voando. Fora isso, é uma seleção de jogadores inteligentes taticamente e muito fortes fisicamente, sem contar o bom nível técnico do time.
Lédio Carmona: Sim, me surpreendi. Não pela qualidade do grupo, mas acreditava que uma estreia precoce contra a Espanha, num grupo que também tinha o Chile, poderia travar uma seleção jovem como a Holanda. A juventude era uma dúvida. De Jong, Sneijder, Robben e Van Persie eram raras exceções num grupo “verde”. Mas a maturidade veio mais rápido do que quase todos esperavam.
Jogadores conhecidos, como Robben (e Van Persie, num certo momento), foram os protagonistas da seleção holandesa. Mas houve jovens que se destacaram na equipe. Vocês foram surpreendidos por alguma novidade no elenco holandês, como Blind, ou De Vrij, muito falados?
LC: Surpreendido, não. Conhecia todos os jogadores. Mas também não imaginava que fariam uma Copa tão boa, logo na primeira vez. Blind foi exuberante. De Vrij, impecável, desde a estreia. Apostava-se em Lens, que rendeu pouco.
AK: Fui surpreendido somente por Blind, porque teve uma trajetória de muitas críticas e dúvidas no Ajax. Poderia citar Vlaar, que fez Copa quase perfeita (foi uma pena o pênalti perdido contra a Argentina), mas ele tem 29 anos, já não é nenhum garoto…
MN: Blind jogou uma bela Copa, assim como Vlaar e De Vrij. Havia um núcleo de jogadores na faixa dos 22 anos muito interessante. Wijnaldum também cresceu muito durante a competição e vejo bom potencial nele.
André, acompanhando as coletivas de Van Gaal, você escreveu sobre a relação tensa entre ele e os jornalistas holandeses, com relação ao estilo de jogo. Alguns jornalistas julgavam o estilo defensivo; o técnico negava insistentemente. E sua opinião, desde que começou a seguir a Holanda na Copa? Qual era o estilo de jogo da equipe holandesa?
Van Gaal insistia na necessidade de usar o sistema que lhe proporcionasse maior chance de vencer. Repetia que “é preciso fazer um gol a mais do que o adversário”. A crítica se baseava na falta de apreço pela estética e pelo gosto de ficar com a bola, marcas do futebol holandês. Eu gostei do termo que o próprio Van Gaal usou, “reaction football”, para qualificar o time. Era em essência um time que esperava, mas que sabia o que fazer com a bola.
Lédio, você esteve na estreia holandesa, contra a Espanha. Considera que a goleada por 5 a 1 foi o ponto de virada para a equipe de Louis van Gaal, foi o ponto de revisão das expectativas para o que a equipe poderia fazer na Copa?
Certamente. Aquela goleada amadureceu o time, fortaleceu o grupo e sepultou todos os rótulos que nós, da imprensa mundial, tínhamos da nova Holanda. Aquele segundo tempo na Fonte Nova foi uma catarse a serviço do futebol. Inesquecivel.
E você também esteve no jogo contra o Chile, considerado uma grande batalha tática entre Van Gaal e Jorge Sampaoli. Qual o diferencial que a Holanda teve, em sua opinião, para barrar o rápido e agressivo time chileno e conseguir a vitória?
A Holanda foi mais disciplinada, mais fria, mais calculista. E se doou mais. Incrível ver Dirk Kuyt jogar como lateral esquerdo, marcador, sem reclamar. O time foi um relógio naquele jogo. Controlou o jogo, matou as principais jogadas do Chile e deu o bote na hora certa.
Lédio: considera que Van Gaal foi o melhor técnico da Copa nesse quesito, como muitos jornalistas consideraram? As mudanças de jogadores em função dos adversários e aproveitando as potencialidades deles (Kuyt, por exemplo, foi ala, lateral esquerdo, lateral direito… tudo além de ponta, sua posição original) deram certo, em sua opinião?
Podemos dizer que sim. Podemos dizer que, mais do que a ida para o Manchester United, a Copa do Mundo reposicionou Van Gaal no grupo dos grandes estrategistas do futebol mundial. Seu trabalho foi precioso, inovador, inquieto e até merecia ser premiado com a ida à final.
Ainda falando de tática: Noriega, você comentou a partida contra o México, quando a Holanda sofreu com a marcação pesada da equipe de Miguel Herrera e também demorou para pressionar, só partindo para o ataque quando já perdia. A virada holandesa lhe surpreendeu? A estratégia de Van Gaal, levando o time para a frente por meio das entradas de Depay e Huntelaar, foi a mais acertada ou ele apenas “teve sorte”?
Naquela partida a questão física foi determinante, em função do calor. A Holanda marcou com uma linha de 5 na maior parte do tempo, deixando que o México ficasse com a bola e ocupasse o meio com 5 jogadores. Só depois de sofrer o gol o time holandês abriu mão desta marcação, ocupou o meio e terminou a partida com quatro atacantes. Se formos lembrar, da metade para o final do segundo tempo já havia mais sombra no gramado do Castelão, e a Holanda atacava para o lado em que havia sombra. Mas naquela partida, pelo menos no meu modo de ver, Robben e Sneijder foram fundamentais, eles empurraram o time para a frente.
E você também comentou a partida contra a Costa Rica. E testemunhou a alteração polêmica de Van Gaal, colocando Krul no lugar de Cillessen apenas para a decisão por pênaltis – o que teve influência direta no resultado final. Há os que consideraram a mudança “tacada de mestre” e os que consideraram “uma irresponsabilidade que poderia ter queimado o goleiro titular”. E qual é a sua opinião?
Acho que foi uma aposta legal, para fugir do lugar comum. Disse isso na transmissão. Não tenho essa informação, mas talvez ele tenha treinado isso e percebido que o Krul estava mais confiante. Ou talvez tenha sido apenas uma aposta que deu certo. Achei um dos momentos mais bacanas da Copa. Também comentei o jogo contra a Argentina, e me parece que o Van Gaal optou por tentar vencer o jogo com a bola rolando, por isso não trouxe o Krul e apostou em uma nova alteração. Até porque tinha tirado o De Jong antes.
Noriega, ainda: em sua opinião, quando a Holanda correu mais risco de eliminação? Contra México, quando só no segundo tempo, em desvantagem, decidiu ir ao ataque até a virada? Ou contra a Costa Rica, quando não só não vazou a linha de cinco defensores (e quando vazou, parou em Navas) como também sofreu com ataques periódicos?
Acho que contra o México, porque foi dominada em boa parte do jogo e contou com a covardia do treinador mexicano no segundo tempo. Contra a Costa Rica a Holanda criou muitas oportunidades, o Navas fez grandes defesas, e a trave salvou os Ticos três vezes.
Terminamos com André: em 2010, a equipe holandesa foi considerada até violenta. Agora, mesmo tendo de cometer várias faltas (foi a equipe mais faltosa da Copa), não se falou muito desse lado da equipe. Você esteve na Copa de 2010 e na Copa de 2014. Considera que, de fato, houve evolução nessa conceituação de pragmatismo, de algo que se confundia com violência para algo apenas mais apegado ao resultado?
Confesso que só me assustei com a violência da Holanda na final em 2010. Um impressionante desperdício dos jogadores que atuavam naquele time. Não achei o time de 2014 violento.



