Holanda

Holanda ganha perspectivas de dias melhores. Com Hiddink?

Como já escrito anteriormente aqui, a Holanda chegava sob dúvidas para a partida contra a Letônia, pela quarta rodada das eliminatórias da Euro 2016. Por mais que o adversário tivesse nível técnico bem fraco, as atuações não menos deficientes da Laranja deixavam a torcida bastante temerosa de um novo revés – que, também como já dito, poderia encerrar precocemente a segunda passagem de Guus Hiddink como treinador.

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Mas havia limites para a preocupação, por mais que ela fosse justificada. E bastou a partida do último domingo começar para que a Oranje revelasse que o jogo em Amsterdã não teria o mesmo fim melancólico das derrotas para República Tcheca e Islândia. Logo no primeiro minuto, Robben partiu com a bola dominada para o ataque, tentando criar jogadas e mostrando mais empolgação. Outros o acompanharam: Afellay, Sneijder, Van Persie, Huntelaar…

A inspiração ofensiva contra o fragílimo time letão – cujo goleiro, Aleksandrs Kolinko, 39 anos, era o mesmo que levara o 3 a 0 do time holandês na Euro 2004 – dava a impressão de que o primeiro gol não era uma questão de possibilidade, mas de tempo. Logo aos seis minutos, Van Persie abriu o placar de cabeça, após cruzamento de Robben. Já ali dava para cravar, com toda a certeza, que a Holanda não perderia aquele jogo.

Foi o que aconteceu: a goleada por 6 a 0 foi até previsível, principalmente com a volúpia ofensiva vista no primeiro tempo. Mérito principal, claro, dos jogadores. Sneijder exibiu lampejos do meio-campista que ainda decide partidas no Galatasaray; Van Persie e Huntelaar conseguiram jogar sem buscar a mesma posição, até porque o atacante do Manchester United buscou vir mais de trás, pela esquerda; e Robben foi o dos últimos tempos, ou seja, imparável na corrida e imarcável no bom e velho corta-pra-esquerda-e-chuta. Embora coadjuvantes, Huntelaar e Afellay também tiveram utilidade. Principalmente o atacante, autor de dois gols que o fizeram chegar ao 3º lugar na lista dos grandes goleadores da seleção, com 38 tentos, dois atrás de Kluivert.

Mas como o amistoso contra o México mostrara, de nada adiantaria o ataque funcionar se a defesa continuasse falhando. Aí os méritos são de Guus Hiddink. O técnico conseguiu mudar a equipe, com uma tática que fortalecia o ataque sem deixar de pensar na parte de trás. Enquanto esteve em campo, Daley Blind conseguiu proteger a zaga formada por Bruma e De Vrij – coisa que Clasie, seu substituto, também fez. Na armação, foi boa a experiência com Van Persie jogando como ponta-de-lança, enquanto Sneijder vinha mais de trás, num 4-1-3-2. Na dupla de ataque, Huntelaar funcionava como o “homem de referência”, enquanto Robben era o tormento constante pela direita.

Até pelo baixíssimo nível técnico da Letônia, os defensores atuaram tranquilamente em todo o jogo. Mesmo Jetro Willems, ainda com uma preocupante tendência a não guardar posição na esquerda, passou os 90 minutos sem problemas a enfrentar. Cillessen, que segue tranquilo como goleiro titular – de fato, a chance dada a Krul contra o México foi apenas uma chance -, mal teve chutes para defender. E Jeffrey Bruma sentiu confiança para ir à frente, até marcando o quarto gol.

O êxito do esquema montado e as boas atuações no ataque faziam Guus Hiddink vibrar a cada gol marcado. Parecia que o temor de uma saída precoce estava afastado. Apenas parecia. Porque logo depois da partida, entrevistado pelo radialista Jack van Gelder na transmissão da tevê holandesa, o treinador jogou lenha na fogueira sobre sua situação: “Estou a serviço da KNVB, não preciso dizer mais nada. Sei que vocês [a imprensa] já especulam há muito tempo, mas eu só me preocupo com o hoje. Vocês é que falaram muito sobre minha permanência. Nenhuma dessas conversas foi criada por mim”.

Bastou para que a imprensa holandesa repercutisse menos a goleada e mais a declaração enigmática de Hiddink. E aos poucos já se iniciam as apostas. O diário “Algemeen Dagblad” bancou, na terça passada, que o técnico atual não estará no banco nas datas Fifa de março. A revista “Voetbal International” completou na quarta: ao invés de se concretizar somente após a Euro 2016, a mudança já prevista – Hiddink dando o lugar ao auxiliar Danny Blind – estaria bem próxima de ser antecipada.

Exatamente aí estaria a dúvida de Hiddink. Descontente com a pressão e desmotivado com o trabalho no gramado, ele entrou em rota de colisão com Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da entidade. E a KNVB já pensava em torná-lo diretor técnico da entidade. Guus apenas estaria pensando numa forma de evitar que sua saída do campo ganhasse ares de demissão, e havia tal perigo, com o mau começo de seu trabalho. A goleada contra a Letônia lhe fornece o salvo-conduto de que precisava para encaminhar a “queda para cima” rumo a um cargo diretivo.

Enquanto isso, a Holanda entra um pouco mais calma em férias. Com a derrota da Islândia para a República Tcheca, a desvantagem para a zona das vagas diretas na Euro 2016 caiu para acessíveis três pontos. Mas só partidas contra adversários mais fortes (há negociações para amistosos contra Espanha ou Inglaterra) revelarão se a mudança vista contra a Letônia é permanente. Até porque a dúvida sobre o técnico ainda persiste. Graças a Guus Hiddink.

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